Sociedade

OPINIÃO

Psiquiatria: vendedores de ilusões perigosas?

Este é o pensamento do cientista e professor da Universidade de Copenhague, Peter Gotzsche

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 29 de setembro| Edição do dia

Muitos procedimentos que são levados adiante pela medicina baseada no lucro e na má ciência precisam ser alvo de debate. O risco de naturalizá-los pode ceifar desnecessariamente muitas vidas. Não é razoável validar todas as práticas médicas apenas porque estão, nesse momento, em uso corrente dentro da medicina [que está longe de ser uma área isenta, neutra, científica até o final]; muito menos em uma sociedade profundamente alienada por décadas de pensamento neoliberal, positivista; e com medicamentos e procedimentos médicos tendo entrado totalmente na esfera das mercadorias, do lucro, do grande capital.

Portanto nada mais lógico do que abrirmos um grande debate, inclusive sobre temas relativamente blindados ao debate, como é o caso da psiquiatria e seus antipsicóticos.

O professor Peter Gotzsche, da Universidade de Copenhague [Dinamarca] e autor do livro Medicamentos mortais e crime organizado e também Mammography screening, pode ser um importante elemento nesse debate.

Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, da qual passamos a reproduzir trechos, ele questiona abertamente a atual e hegemônica psiquiatrização [medicalização] do transtorno mental ou subjetivo por parte dos profissionais do setor.

Sobre os venenos, ou melhor medicamentos, usados pela psiquiatria, ele não tem dúvida que “os antipsicóticos estão entre os medicamentos mais tóxicos que existem, depois da quimioterapia para o câncer. Produzem dano cerebral permanente, algumas vezes inclusive depois de um tempo de uso relativamente breve, e tornam mais difícil que a pessoa volte a viver uma vida plena. Cheguei à conclusão de que, muito provavelmente, seria muito melhor para nós se não utilizássemos absolutamente nenhum antipsicótico”. E continua: “não sou a única pessoa que acha isso. Há psiquiatras que estudaram a literatura de uma forma tão cuidadosa como eu e que chegaram à mesma conclusão: que na verdade não precisamos de fármacos antipsicóticos, porque, apesar do nome, antipsicótico, não curam as psicoses. Os antipsicóticos tranquilizam as pessoas, mas também lhes tiram parte das suas emoções, parte dos seus pensamentos normais. Você pode ver que alguns deles se tornam zumbis, incapazes de fazer qualquer coisa”.

No argumento de P. Gotzsche, é insano, de parte da psiquiatria, imaginar que falta alguma coisa no cérebro das pessoas portadoras de transtornos subjetivos ou até psicóticos. Ou que as pessoas com tais transtornos perderam alguma molécula que as levou ao distúrbio e que os tóxicos da psiquiatria iriam substituir ou repor tal molécula ou coisa parecida.

Ele cita o exemplo de “um presidente da Sociedade Norte-Americana de Psiquiatria Biológica que afirmou que esse fármaco [a clorpromazina] era como a insulina para o diabetes. É algo demencial, porque, se você tiver diabetes, lhe falta insulina, e quando lhe dão algo que lhe falta é um bom tratamento. Mas quando você tem uma psicose não lhe falta nada, então a comparação é errônea. Entretanto, desde que essa ideia foi lançada fala-se em um desequilíbrio químico. Não há desequilíbrio químico, nunca se pôde demonstrar que haja nada nos pacientes psicóticos ou depressivos que seja diferente das pessoas sãs. O desequilíbrio químico é uma mentira”.

Ele lembra que a psiquiatria recomendou a lobotomia por décadas [destruição do lobo frontal do cérebro] e o cientista português que a propôs ganhou até prêmio Nobel; depois foi substituída pela clorpromazina. A transformação de problemas cotidianos ou perturbações do humor, da subjetividade em doença mental – e daí indicar tratamentos duvidosos e/ou de risco - é rotina nessa abordagem médica.

Ora, tudo isso mereceria um grande debate entre os profissionais de saúde e a população. Esta não deveria continuar sendo uma das tantas áreas onde a medicina é exercida autocraticamente, sem exposição e transparência de motivos. Da lobotomia cirúrgica à lobotomia química: este tema não pode continuar na sombra. A medicina, no capitalismo, há muito se transformou em um problema de política, em um campo de poderosos interesses econômicos em disputa.

Por outro lado, o fato de a psiquiatria hoje se apoiar amplamente no uso daquelas drogas não transforma a psiquiatria em um bando de burros ou malvados; a explicação é outra: o conservadorismo, o rotineirismo, a falta de debate aberto sobre a questão e sobre os interesses econômicos e de aparato envolvidos e assim por diante. Ou, nas palavras de Gotzsche: “não se trata apenas da psiquiatria. Por que passaram tantos séculos fazendo sangrias? Mesmo quando o paciente tinha cólera e precisava de fluidos, tiravam o sangue das pessoas, e muitas vezes isso as matava. E acreditavam que faziam bem. Durante séculos. Como é possível que nós, os humanos, que temos cérebros maravilhosos, possamos ficar presos em equívocos coletivos como as sangrias ou a crença nos antipsicóticos. Assim são os humanos, mas temos que combater isso demonstrando às pessoas que suas crenças não coincidem com as evidências científicas”.

Os psiquiatras evitam discutir esse tema tabu, “evitam debater sobre a ciência”, embora, diz P. Gotzsche, haja psiquiatrias que estão de acordo comigo, no entanto, a maioria deles se posiciona alheia ao debate, como uma medicocracia. Mas é preciso observar, diz Gotzsche, há “alguns que não utilizam drogas psiquiátricas. Há outros psiquiatras que estão mudando de opinião com base no meu trabalho, algo que me anima muito. Alguns não escutam, porque consideram aterrador demais. Se você acreditou em algo durante 30 anos, como vai alterar essa crença? Como vai dizer para si mesmo: ´Eu estava enganado desde o começo, fiz muito mal aos meus pacientes´? Isso não é fácil, é mais fácil fechar os olhos e continuar como sempre”.

Ele discorda do argumento de que foram os antipsicóticos que reduziram o número de manicômios e de pessoas internadas pela psiquiatria; segundo P Gotzsche, o esvaziamento dos manicômios “tem a ver com considerações financeiras. Era muito caro manter tanta gente nessas instituições por muitos anos. Essa redução [das internações] não coincide com a introdução de fármacos antipsicóticos”.

Concluindo

Está longe do objetivo desta nota desenvolver e muito menos resolver o debate crítico à psiquiatrização das doenças e aos venenos que assumem papel de antipsicóticos.

Esse debate exige uma transparência e uma abertura que a medicina do capital não aceita. E tem múltiplas dimensões, consequências e considerações médico-científicas.

Mas a medicina ganharia muito mais [e as pessoas vítimas de certos tratamentos muitíssimo mais] se esse debate começasse, no Brasil, o quanto antes. As ideias do cientista Peter Gotzsche - que procura seriamente fundamentá-las em terreno científico – devem começar a ser objeto de debate entre os trabalhadores da saúde no Brasil. Mas certamente a iniciativa séria nessa direção não vai vir do campo dos psiquiatras da ordem.

Confira a entrevista, publicada em 23 de setembro passado na íntegra




Tópicos relacionados

medicina do capital   /    Sociedade

Comentários

Comentar