Gênero e sexualidade

STONEWALL

Provocação: assim como Trump, polícia de São Francisco comemorará o 50º aniversário de StoneWall

Além de Donald Trump posar com a bandeira LGBT e mudar sua política de ignorar o mês da Diversidade Sexual para usar da demagogia de lançar uma campanha global para descriminalizar a homossexualidade enquanto foi um grande apoiador de ninguém mais homofobico como Jair Bolsonaro, mais uma vez a polícia de São Franscisco irá "comemorar".

Virgínia Guitzel

Travesti, trabalhadora da saúde pública e militante do grupo de mulheres Pão e Rosas

quinta-feira 6 de junho| Edição do dia

O departamento de polícia da cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, ganhou novos uniformes e viaturas nas cores do arco-íris em "comemoração ao mês da diversidade sexual". Assim poderá continuar garantindo os interesses da classe dominante imperialista norte-americana de maneira "inclusiva", como parte de reprimir qualquer luta que se desenvolva de maneira subversiva para arrancar a libertação sexual, que nem no país imperialista que se orgulho de ser "o mais democrático do globo" foi alcançado.

A única conclusão possível é que enquanto vendem o fortalecimento das forças armadas como "inclusão", com melhores condições dadas à policia, mais forte ela estará para atacar os trabalhadores e matar as LGBT.

O Departamento de Polícia de São Francisco (SFPD) escreveu em seu facebook: “O SFPD se esforça para ser um departamento diversificado e tem funcionários em quase todos os níveis. Queremos incentivar conversas positivas com as comunidades LGBTQ e o Pride Patch simboliza nossa inclusão. ” Mas nenhuma retratação a respeito de ter sido esta mesma instituição que agrediu, prendeu e deu mil e um motivos para levantar os movimentos pela liberação sexual que respondiam, em primeiro momento, em sua própria defesa contra a violência de Estado.

O movimento LGBT e as forças de repressão

Uma das primeiras conclusões de qualquer pessoa que se debruçasse a estudar, mesmo que superficialmente, a luta pela diversidade sexual, será de encontrar a polícia como um agente do Estado, que através do "monopólio da violência legal" garantiu sistematicamente a repressão sexual e das identidades não cisgêneras. Foi assim em StoneWall - "onde tudo começou" - mas não apenas como um simbolo em geral, mas uma expressão aguda que também ocorreu no Brasil com a Operação Tarântula, quando criou-se no Estado de São Paulo, uma Operação de caça as travestis, onde muitas ainda hoje estão desaparecidas.

De tempos em tempos, ressurge no movimento LGBT a discussão sobre a inclusão de pessoas LGBT na polícia e nas Forças Armadas. O tema ganhou notoriedade no Brasil, quando um homem trans conquistou um cargo na polícia e nos EUA quando Donald Trump proibiu a participação de pessoas transgêneras nas Forças Armadas, alegando muitos gastos nos planos de saúde e interrupções diversas na "defesa nacional".

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Nós do Esquerda Diário e do MRT buscamos recuperar o legado combativo e enérgico da luta pela libertação sexual e pela livre construção da identidade de gênero, buscando nos apoiar nos combates corretos que setores mais resolutos e intransigentes sobre essas demandas deram. Se nos orgulhamos hoje da Revolta de StoneWall, é também, porque ela representa um combate - que não tinha como ser de outro jeito - completamente independente de setores oprimidos, auto-organizados entre si, para combater as forças de repressão do Estado capitalista norte-americano.

Mas depois de StoneWall, que apesar de sua enorme combatividade e grito indomável contra toda forma de repressão e inferiorização de sexualidades não-heterossexuais e identidades não-cisgenêras - que contudo tinha um limite pela sua espontaneidade - a Revolta incentivou as Paradas LGBT pelo mundo e também a organização de coletivos e organizações em defesa desta comunidades auto-declarada e orgulhosa.

Foi assim que em Londres, quase duas décadas deppis, Mark Ashton entrou para a história como um exemplo incansável de lutador LGBT e comunista que teve a perspicácia de compreender que assim como os protestos gays sofriam dura repressão da policia, outro setor social que também lidava com a repressão estatal eram os mineiros, e além disso, os LGBT assim como os trabalhadores em luta tinham um inimigo muito claro em comum: Margaret Thatcher.

Ao mesmo passo que Margaret Thatcher declarou os mineiros como inimigos internos (enemy within), já que estes impediam o principal projeto de reconversão neoliberal a escala mundial, também se aprovou o Artigo 28 para a educação pública que literalmente dizia para as autoridades que "não devem promover intencionalmente a homossexualidade ou publicar material com a intenção de promovê-la ou promover o ensino da aceitação da homossexualidade" nas escolas.

Foi assim que Mark apostou na aliança estratégica do movimento LGBT com o movimento operário, o que junto com outros ativistas ganhou o nome de "Gays e Lésbicas em apoio aos Mineiros", sendo retratado num emocionante filme chamado "Pride: Orgulho" . Essa unidade, era a única capaz de enfrentar a repressão policial e da opinião pública (que dizia nas capas dos jornais "Pervertidos apoiam os mineiros" contra os planos nefastos neoliberais de Margaret Thatcher.

Pode a polícia então se tornar aliada das LGBT?

Partindo de toda experiência e trajetória do movimento LGBT combinado aos cotidianos casos de denúncias e fatos que demonstram a relação da polícia em todo o mundo com os casos de transfeminicidios - como no Brasil de Laura Vermont - e de assassinato de pessoas negras, imigrantes e latinas, a resposta é não. A polícia não tem nenhuma possibilidade de tornar-se aliada da luta pela libertação sexual.

Isso porque o caráter de classe da polícia está intimamente ligado a defesa - pelo uso da violência física - da manutenção da ordem capitalista, do Estado burguês e da propriedade privada. Ordem social esta que é sustentada pelo patriarcado e precisa mutilar a sexualidade, restringindo-a apenas as genitálias e a reprodução biológica, à serviço de manter a produção do trabalho alienada e na reprodução da moral burguesa e no modelo de família funcional aos lucros capitalistas.

A policia não pode ser considerada parte da classe trabalhadora. O fato de serem assalariados, e pagos pelo Estado, mesmo empregador do conjunto do funcionalismo público não os igualam aos trabalhadores da Saúde e da Educação, por exemplo. Isso porque a função da polícia é proteger a propriedade privada, os capitalistas e sua ordem, através do uso da violência contra os trabalhadores, a juventude, e o povo, sobretudo os pobres e negros. Sua função social, portanto, é a manutenção violenta da ordem elaborada em prol dos ricos, contra os trabalhadores e os pobres. Não ensinam, como os professores, não salvam vidas, como os trabalhadores da Saúde. Isso os coloca em oposição aos trabalhadores, pois seu papel é contrarrevolucionário por definição. Uma abordagem centrada no argumento de que “recebem salário” é, portanto, errada para definir se são aliados dos trabalhadores e suas lutas.

Leon Trotsky, dirigente da revolução russa e organizador e máximo general do Exército Vermelho, debatia em sua obra “Revolução e Contrarrevolução na Alemanha” afirmava que “um trabalhador que entra para a polícia deixa de ser um trabalhador, passa a ser um agente fardado da burguesia”. Em meio à revolução russa, sua caracterização sobre a polícia não era menos clara: “O desarmamento dos ‘faraós’ [apelido para a polícia] tornou-se uma palavra de ordem universal. A polícia é o inimigo cruel, implacável, odiado e odioso. Ganhá-los está fora de questão”.

Por isso é preciso nos prepararmos estrategicamente para desarmá-la e dissolvê-la, em base à confiança de que os trabalhadores devem armar-se e organizar a sua própria defesa de modo independente do aparato repressivo da burguesia, para melhor destruí-lo e constituir um governo dos trabalhadores que rompa com o capitalismo no momento decisivo.

Alguns ainda questionarão: mas não devemos lutar pela igualdade dentro dessas corporações? Pela inclusão de pessoas não heterossexuais e não cisgêneras nas forças repressivas do Estado?

Uma perspectiva verdadeiramente de libertação sexual - que ao mesmo tempo que acompanha e atua energicamente para arrancar cada direito elementar de igualdade social, não reduz sua estratégia a conquistas sucessivas de direitos civis - não deixa de denunciar como estas corporações tratam, inclusive seus próprios pares, com discriminação.

Todavia, não é nosso ideal e nem nosso programa a conquista de cargos para fortalecer nossa classe inimiga. Compreendemos que a única classe verdadeiramente revolucionária de nossa época, é a classe trabalhadora. A única capaz de erguer a bandeira do arco-iris de maneira independente e intransigente, pois não tem para si nenhum valor a separação de nossas fileiras, nossa opressão e nossa exploração. Portanto, não queremos que mais LGBT ocupem cargos de poder ou uma igualdade de opressores ou de assassinos.

Nossa luta é pela libertação da sexualidade e das identidades de gênero da lógica capitalista, que só tem serventia se liga-se aos lucros dos grandes empresários. Lutamos por uma revolução sexual, aonde se criem as condições para se realizar uma vida plena e prazerosa, contra a atual miséria sexual da juventude e dos trabalhadores.




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