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Protestos no Irã: dezenas de mortos e centenas de detidos não frearam as mobilizações

O ano começou com protestos generalizados contra o governo e uma forte repressão que deixou o saldo de dezenas de mortos de mais de 400 detidos.

terça-feira 2 de janeiro| Edição do dia

Na última semana, as manifestações no Irã tem crescido. Com reivindicações muito heterogêneas e participação de diferentes setores, expressam um mal estar crescente com o governo e o regime, que aplica medidas de corte que afetam a qualidade de vida da população, ao mesmo tempo que não cumpre as promessas de melhora econômica.

Desde o mês de julho, desenvolveram-se uma série de greves (especialmente em fábricas de açúcar e têxteis) que foram reprimidas. No Irã, a repressão à organização sindical é muito forte, é ilegal organizar sindicatos independentes e quase todos os líderes sindicais estão encarcerados. A organização de uma greve pode ser punida com 15 anos de prisão.

Desafiando este clima, alguns sindicatos convocaram greves a partir de terça-feira, 02 de janeiro, em setores como o metalúrgico e o elétrico. Compartilhamos um artigo de Ciro Tappeste publicado a 1º de janeiro no portal Révolution Permanente, sitio francês de nossa rede internacional de diários digitais de esquerda.

O presidente Hassan Rohani tentou jogar a carta da repressão antes de retornar aos chamados de calma misturados com ameaças, mas não conseguiu nada: de Mashhad, as manifestações continuam estendendo-se por todo o país e as mobilizações chegaram à capital, Teerã, no sábado à tarde.

As manifestações começaram na quinta-feira, em Mashhad, segunda cidade do país. Centenas de manifestantes saíram às ruas para protestar contra a carestia de vida e a quebra, provocada pelo governo, de vários bancos afetados por ativos “podres”. O fato de que os protestos começaram em Mashhad tem levado alguns a considerar que estas não passam de manifestações orquestradas por uma fração do regime iraniano para desestabilizar o presidente Rohani, classificado dentro do campo dos “reformadores” e reeleito em maio de 2017 devido a suas promessas de melhoras econômicas e às expectativas criadas pelo fim das sanções econômicas como consequência do acordo nuclear entre Irã e Estados unidos firmado sob a administração Obama.

Mashhad é, com efeito, uma das cidades mais importantes do islã xiita: conhecida como bastião da “ala dura”, é o local onde se encontra o mausoléu de Iman Reza, e onde a vitória da poderosa fundação presidida pelo conservador Ebrahim Raisi tratou de desafiar Rohani [na última eleição presidencial]. Um movimento anti-Rohani fomentado pelos “ultras” do regime? Uma tentativa, por parte do antigo presidente Mahmud Ahmadinejad – cujo governo é fortemente criticado e que tem pessoas próximas acusadas de corrupção (concretamente, nos marcos do programa de construção de moradias Mehr, sua maior “realização”) – de orquestrar uma espécie de bombardeio preventivo para retornar ao jogo político? Independentemente da origem das manifestações de Mashhad, nesta quinta-feira, com a expansão do movimento à maioria das cidades do país e com a chegada dos protestos à Teerã no sábado, parece claro que a mobilização “transborda”, e muito, o que seria uma instrumentalização do mal estar social por uma fração do regime. Certamente, esse mal estar foi gerado tanto pela orientação de Rohani como pela prometida melhora econômica, que nunca chega. As sanções pós-acordo nuclear, com efeito, não foram retiradas, e algumas delas serão reestabelecidas pela administração Trump. Entretanto, os investimentos estrangeiros (europeus e, particularmente, franceses) tardam a chegar ou não são suficientes para dar um impulso à economia. Paralelamente, a busca dos “reformadores” por “abertura” e a resposta à necessidade de ingressos fiscais suplementares desembocou no anúncio de medidas extremamente impopulares por parte do governo (o fim de auxílios sociais correspondentes a 20 milhões de iranianos, aumento do preço dos combustíveis, impostos sobre as viagens ao exterior, etc.).

Embora essas contrarreformas não entrem em vigor antes de março, já suscitam inquietação e raiva, e geraram uma primeira “onda” de inflação (que Rohani finge ter freado, em relação à era Ahmadinejad), assim como o encarecimento de certos produtos de primeira necessidade, começando pelos produtos alimentícios. À isso, há que somar um clima social que continua sendo agitado, com greves registradas nas últimas semanas, por questões salariais no caso do setor petroleiro e químico (indústria de pneus da capital), ou na indústria mecânica, em Tabriz, capital do noroeste iraniano. É essa longa lista de descontentamentos, das mais diversas fontes e ocasionalmente opostos entre si, que se encontra nas consignas que foram gritadas nos últimos dias, algumas pelos conservadores, desejando a morte de Rohani, outras, o fim do gastos públicos com intervenções na Síria e no Iemen, outras ainda, o fim do regime, e todas apontando as dificuldades econômicas com que se enfrentam as classes populares e a classe média.

Nesse marco, embora as manifestações atuais ainda não sejam tão nutridas quanto aquela mobilização massiva de milhões de pessoas contra a reeleição fraudulenta de Ahmadinejad, no “movimento verde” de 2009, já são muito mais importantes que as concentrações oficiais convocadas por Rohani para o sábado, em apoio ao governo, que, por sua vez, tenta “baixar a pressão” pedindo calma, como em uma declaração de Rohani, nesta segunda-feira, na qual dizia compreender a inquietude da população e prometia perseguir os organizadores dos protestos, proibidos pelo governo.

Ainda assim, as manifestações continuam, e os enfrentamentos que as acompanham também. Segundo o próprio regime, cerca de 20 manifestantes foram assassinados e várias dezenas de pessoas foram detidas desde quinta. Mas isso não impediu, segundo várias testemunhas em sítio, que a manifestação desta segunda-feira à tarde, em Teerã, tenha sido a maior dos últimos dias.

Apesar de serem competidores em relação ao que todos consideram como um dos maiores mercados da região, e de se oporem ao rumo que tem tomado as sanções, os imperialistas manifestaram, através de suas chancelarias, sua “viva inquietude”. À cabeça, Trump tuitou várias dezes desde quinta-feira, convocando a “mudança” no Irã. Mas não são as potências imperialistas, antigas aliadas da monarquia ultrarreacionária derrubada em 1979, aquelas que levaram a guerra ao povo iraniano, primeiro através da guerra Irã-Iraque dos anos 1980 e, depois, através das sanções econômicas, as que poderão obter uma mudança em favor das classes populares.

A classe operária e a juventude do Irã já demonstraram sua capacidade de se mobilizarem e fazerem tremer os diferentes regimes em numerosas ocasiões. Em 2009, não houve esta união. Mas, sobre o plano de fundo de uma crise persistente e de frustrações geradas por promessas não cumpridas, tal convergência poderia ser levada a cabo e começar a se desenvolver desta vez. Tal esperança é o cenário que temem os imperialistas e os regimes reacionários da região.




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