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Protestos na Bolívia contra o governo golpista

A presidente golpista, Áñez, recusou-se a convocar eleições no prazo máximo de 90 dias. O MAS convocou um protesto com fogos de artifício e panelaços com a hashtag #EleccionesYa [#EleiçõesJa]. Manifestações significativas de descontentamento em todo o país, apesar da quarentena militarizada. Mobilizações e bloqueios espontâneos foram vistos em Senkata, Yapacaní, Rio Seco, San Julián, etc.

sábado 2 de maio| Edição do dia

Protestos na Bolívia contra o governo golpista

A presidente golpista, Áñez, recusou-se a convocar eleições no prazo máximo de 90 dias. O MAS convocou um protesto com fogos de artifício e panelaços com a hashtag #EleccionesYa [#EleiçõesJa]. Manifestações significativas de descontentamento em todo o país, apesar da quarentena militarizada. Mobilizações e bloqueios espontâneos foram vistos em Senkata, Yapacaní, Rio Seco, San Julián, etc.

Nesta quinta-feira, 30 de abril, depois que o Senado terminou de promulgar o chamado para eleições dentro de um período máximo de 90 dias, contados a partir do próximo dia 3 de maio, apesar da oposição e rejeição do governo golpista de Áñez, uma impressionante manifestação de descontentamento foi vista à noite em todo o país, particularmente nos bairros operários e populares da cidade de El Alto e nas encostas da cidade de La Paz.

Importantes sinais de apoio a essa medida também foram vistos na zona sul, onde vivem os setores populares, de Cochabamba, bem como em várias localidades do departamento de Santa Cruz, como Montero, San Julián e Yapacaní, entre outras.

Neste 1º de maio, durante a manhã e espontaneamente, os moradores do Distrito 8 de Senkata, em El Alto, bloquearam as estradas, continuando as mobilizações e bloqueios espontâneos que ocorreram em diferentes partes do país. Embora tenham sido rapidamente dispersados pela polícia, que deteve algumas pessoas, o que aconteceu durante a noite e esta manhã, com a fuga da polícia local de Yapacaní diante da multidão mobilizada, tornou evidente que a quarentena está começando a transbordar o mal-estar social.

Golpistas não querem eleições: polarização política tende a crescer

O "petardazo", como foi chamado o protesto de ontem à noite em plena quarentena, foi convocado pelos parlamentares do MAS exigindo que as eleições fossem convocadas o mais rápido possível. Esse requisito foi rejeitado pelo autoproclamado governo de Jeanine Áñez, apesar de a data máxima estabelecida por lei, em 3 de agosto de 2020, estar dentro das margens propostas pelo projeto de lei apresentado pelo presidente do Supremo Tribunal Eleitoral (TSE), Salvador Romero.

A rejeição presidencial da promulgação da lei partiu de que Senado presidido por Eva Copa, do partido de Evo Morales, a promulgou com base nos dois terços do parlamento controlados pelo MAS.

O que a princípio pretendia ser um protesto por #EleccionesYa, como chamado pelo MAS, acabou se tornando uma manifestação generalizada de descontentamento de vários setores sociais contra o Governo de Áñez e seu tratamento antipopular da pandemia com base na militarização e na crescente perseguição política contra opositores.

O senador Oscar Ortíz, representante do agronegócio do Leste do país, anunciou que a promulgação da lei está viciada em nulidade devido a defeitos em sua convocação, anunciando que os líderes do golpe relacionados a Áñez tentarão dar uma batalha legal contra as eleições. Assim, de manhã, o ministro da Presidência, Yerko Nuñez, anunciou um apelo de inconstitucionalidade contra a lei.

Por sua parte, o Ministro do Governo, Arturo Murillo, também se referiu pela manhã aos eventos ocorridos na noite passada, afirmando que os bloqueios e mobilizações espontâneas foram realmente organizados pelo MAS com base na distribuição de dinheiro e álcool para "pequenos grupos”, além de afirmar que o petardazo era realmente a demanda da população que exigia o "fechamento da Assembléia Legislativa Plurinacional”, ecoando assim também a manifestação espontânea em apoio ao governo golpista que ocorreu em alguns bairros da classe média na cidade de La Paz, como em Miraflores, pelas chamadas "pititas" [1].

A extensão da quarentena militarizada, até 10 de maio, e a nova etapa denominada "quarentena dinâmica" após essa data, aumentaram o descontentamento de amplas faixas de trabalhadores e pessoas que vêem a deterioração acelerada da situação econômica e social e isso já levou algumas pessoas, incluindo duas meninas, a cometer suicídio por fome.

A miséria dos auxílios para sobreviver à quarentena, que também não atingem setores importantes, a ausência de testes massivos que poderiam atenuar a quarentena, bem como a enorme escassez de suprimentos de biossegurança para o pessoal de saúde, alimentando pressão social e a raiva contra o governo, que só tem o isolamento social como o único instrumento para prevenir a doença, sem levar em conta a situação muito grave de centenas de milhares de trabalhadores rurais e urbanos.

Mal-estar na polícia e fissuras no bloco golpista

Ontem, enquanto a lei foi debatida com o novo calendário eleitoral, vários sinais e expressões de descontentamento na força policial vieram a público, que tem medo de sair às ruas depois de saber que o número de infectados nessa força é de quase 60 fardados, pela falta de provisão de equipes de biossegurança, mesmo contra as mesmas que iniciaram a última fase do golpe de estado, com a revolta policial de novembro.

Esse descontentamento contrasta com o anúncio do governo de conceder seguro de vida às Forças Armadas, que também estão nas ruas e recebem tratamento diferenciado da força policial. Por outro lado, vários setores da direita golpista, como o liderado pelo candidato presidencial Carlos Mesa, consideraram necessário convocar eleições para ter um governo legítimo que possa promover uma política de "unidade nacional" diante da tremenda crise econômica e social que está no horizonte, destacando a magnitude das fissuras no bloco golpista e aprofundando a crise política em curso.

O MAS não responde às necessidades urgentes dos trabalhadores e do povo pobre

A convocação das manifestações da noite passada por parte de parlamentares do MAS teve uma resposta importante, concentrando todo o mal-estar popular hoje em curso e mostrando a profunda polarização política com a promulgação da lei do novo calendário eleitoral. Essa aprovação por parte do MAS da nova lei mostra que, se eles estivessem dispostos a resolver as angustiantes necessidades dos trabalhadores e do povo, poderiam fazê-lo da mesma maneira que ontem aprovaram o novo calendário eleitoral, apesar da resistência do governo e da ala dura do bloco golpista. Isso mostra, mais uma vez, que o MAS, como em seus 14 anos de governo, só está interessado em manter os negócios dos setores empresariais, fazendo demagogia com necessidades populares.

Infelizmente, enquanto o MAS realiza uma campanha eleitoral exigindo impostos sobre grandes fortunas para financiar a aquisição de suprimentos de saúde e, assim, enfrentar o coronavírus e resolver a grave situação social, fundamentalmente a alimentação de dezenas de milhares de pobres urbanos e rurais, isso permanece apenas em declarações e discursos. É claro que, com os 2/3 do Parlamento, eles poderiam aprovar e promulgar imediatamente uma lei para proibir demissões e cortes salariais em empresas de mineração, manufatura e serviços.

Da mesma forma, o MAS com seus dois terços poderia, se realmente quisesse, estabelecer esses impostos progressivos sobre grandes fortunas para financiar a recuperação do aparato produtivo, bem como a saúde e nutrição de toda a população. No entanto, vemos mais uma vez que o MAS usa as aspirações democráticas e as necessidades dos trabalhadores e do povo como meros recursos retóricos eleitorais, mas sem dar passos concretos nessa direção.

É urgente exigir da COB (Central Obrera Boliviana), do FSTMB (Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores em Mineração da Bolívia) e de outras organizações sindicais o chamado urgente a congressos com delegados eleitos em assembléias de base para discutir um verdadeiro plano de luta dos trabalhadores, camponeses e popular, em defesa do emprego, salários, dos direitos trabalhistas ameaçados e, assim, nós, os trabalhadores e o povo, não pagaremos pela crise e serão os capitalistas, empresários, agroindustriais, banqueiros e financistas que enriqueceram nos 14 anos de governo do MAS e que hoje continuam a ter enormes lucros com a fome das pessoas que pagarão pela crise em curso.

[1] Expressão que foi cunhada para se referir à classe média e como um todo ao movimento patriota, mobilizada durante o golpe de estado.




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