Sociedade

CAPITALISMO PREDATÓRIO

Projeto de mineração coloca em risco o meio ambiente e a vida dos trabalhadores no RS

A mineradora Copelmi aguarda uma licença prévia da Fepam (Fundação Ambiental de Proteção Ambiental) para construir em Eldorado do Sul (uma cidade a 16 quilômetros da capital, Porto Alegre) a Mina Guaíba. O projeto coloca em risco a vida dos trabalhadores e do meio ambiente.

quinta-feira 22 de agosto| Edição do dia

Imagem: MARCELO G. RIBEIRO/JC

Autores:
Ana Paula Carvalho
Camila Galvão
Lara Brasil

Desde o início do governo Bolsonaro temos visto um elevado desmonte das medidas de proteção ambiental, como a retirada da fiscalização contra as queimadas em Novo Progresso, que acarretou o não funcionamento de uma base do IBAMA na região, e que favoreceu um gigantesco aumento das taxas de desmatamento da Amazônia, que no mês de julho alcançou 66% a mais do que no mesmo mês do ano passado, em nome do lucro de latifundiários juntos ao agronegócio.

São terríveis as imagens de destruição do meio ambiente que estamos vendo nos últimos tempos e em especial nos últimos meses em que a situação tem se agravado, com queimadas que provocaram uma quantidade de fumaça com fuligem que pôde ser vista como uma enorme mancha por redes de satélites da NASA, e que deixou algumas horas do dia, em São Paulo, no escuro.

Em meio a esse cenário catastrófico do Brasil, a mineradora Copelmi aguarda uma licença prévia da Fepam (Fundação Ambiental de Proteção Ambiental) para construir em Eldorado do Sul (uma cidade a 16 quilômetros da capital, Porto Alegre) a Mina Guaíba. Uma mina 3 vezes maior do que a mina que a Copelmi já “administra” na cidade gaúcha de Butiá, com 4,373 hectares, que é equivalente ao tamanho de toda a Zona Norte da capital. A Copelmi é uma empresa que deve uma multa à Fepam por crime ambiental, por conta da mina que opera na extração de carvão na cidade de Butiá. A empresa conta também com mais de 60 processos trabalhistas em seu nome, devido às inúmeras doenças respiratórias provocadas nos trabalhadores que são sujeitos às condições péssimas do trabalho nas minas da empresa.

O lugar de mineração será em uma área de proteção da Reserva da Mata Atlântica, e vai acarretar em impactos também na Reserva Ambiental dos Afluentes do Rio Jacuí. O Rio Jacuí e seus afluentes são a fonte de água mais limpa que deságua no Lago Guaíba, e, graças a eles, ainda podemos tratar a água do Guaíba e a tornar potável para abastecer a região metropolitana. Agora, a única fonte capaz de abastecer toda a região está ameaçada na mira da devastação que irá causar os planos da mineradora Copelmi e de todos os empresários que lucrarão com o projeto.

Para construir a Mina Guaíba, será cavado um buraco de 110 metros até chegar ao carvão, passando por dois sistemas aquíferos (o Quartenário e o Rio Bonito) e causando um considerável rebaixamento de seus níveis. Esses aquíferos são muito importantes para a sobrevivência das famílias de assentamentos e loteamentos como o Guaíba City, e de comunidades indígenas e demais moradores da região.

Além disso, os resíduos de carvão possuem Enxofre, um componente muito reativo que reage facilmente com o Oxigênio e a água, e que quando for lançado como rejeito no ambiente, irá acarretar na acidificação das águas dos aquíferos da região e do próprio Rio Jacuí, além de ocasionar constantemente chuvas ácidas, de acordo com estudos de Rualdo Menegat (professor e pesquisador da UFRGS). Também de acordo com pesquisas do professor, a mineração a céu aberto liberará para a atmosfera 232 milhões de toneladas de gás carbônico, contribuindo efetivamente para o aquecimento global e o efeito estufa.

Segundo Rualdo, o carvão extraído será alocado em uma enorme pilha de modo que qualquer vento será capaz de removê-lo e lançá-lo aos ares para se depositar nas superfícies e nas águas, e isso acarretará na morte da fauna e da flora do entorno. Os resíduos de carvão no ar causa doenças respiratórias não só nas pessoas, mas também nos animais, e afetará diretamente sua reprodução e predação, causando um desequilíbrio ambiental e uma alteração na teia alimentar. Nos animais e plantas também ocorre o efeito de “bioacumulação”, que significa que os seres retém no seu organismo os metais pesados que se acumulam no ambiente em que vivem. Portanto, isso afeta diretamente quem se alimenta da pesca e do arroz orgânico que é plantado na região, que devido aos rejeitos da mineradora estarão completamente contaminados.

Além disso, de acordo com a Doutora em Ciência e pesquisadora na área de Diagnóstico Ambiental Integrado, Márcia Käffer, a mineração irá piorar consideravelmente a qualidade do ar, para 131% acima do limite estabelecido nos padrões de qualidade e 241% acima no período de maior produtividade, durante 24h seguidas, promovendo enormes riscos à saúde da população.

Moradores de Arroio do Rato, cidade onde existe uma mineração de carvão que utiliza técnicas parecidas com as que utilizarão na Mina de Guaíba, sofrem também com as constantes explosões necessárias para a extração do carvão, que além de causar grandes rachaduras nas casas dos moradores da região, causa estresse e dificuldade para dormir a noite, diminuindo a qualidade de vida existente no local. De acordo com dados fornecidos pela Copelmi, serão necessárias aproximadamente 1000 explosões por ano, em média 3 por dia!

A empresa defende o discurso que a Mina Guaíba trará desenvolvimento para a região e a geração de 5 mil cargos de empregos. Esse discurso é totalmente demagógico quando analisamos o real impacto socioambiental dessa prática de extração, que é baseada em técnicas atrasadas a décadas, que promove um extrativismo exagerado e predatório dos recursos naturais, com o uso de materiais não renováveis e extremamente poluentes (como é o caso do carvão), mesmo já existindo diversos novos meios sustentáveis para geração de energia, tudo em nome do aumento do lucro dos capitalistas mesmo em meio a crise econômica e ambiental.

Esse modelo de mineração é o mais lucrativo apenas para o orçamento das grandes empresas capitalistas, pois visa a exportação do carvão com baixo valor agregado, o que só é possível de acontecer às custas da superexploração dos trabalhadores da mineradora e as custas da devastação dos recursos naturais de toda a região envolvida. A super-mineração é uma fonte de lucro baseada na extração violenta e na destruição das nascentes, das águas e das montanhas, com impactos ambientais e sociais irreversíveis, e concentrando em grandes monopólios a extração de minérios.

Além disso, os impostos sobre a mineração é o que mais tem renúncia fiscal no país, sendo mais um privilégio concedido pelo governo aos empresários para obter maior produção de lucro para si.

Para o seu funcionamento, a empresa contratará trabalhadores em empregos precários e sujeitos às péssimas condições de trabalho, que acarretam em diversos problemas de saúde. Trabalhadores esses que, além de tudo isso, com a aprovação da Reforma da Previdência de Bolsonaro, perderão também o direito de poder se aposentar. E depois que a empresa extrair toda a matéria prima de interesse, em 23 anos, irá embora da região colocando milhares de pessoas no desemprego e na miséria, com uma péssima qualidade de vida e vivendo em mais um ambiente contaminado e destruído pelo negócio de mineradoras.

Esse modelo de desenvolvimento expõe os fundamentos de uma lógica produtiva que tem como prioridade a maximização dos lucros, independente das implicações da atividade exploratória, como nos mostraram, da pior forma, as catástrofes de Mariana e Brumadinho, as quais seguem impunes. Enquanto isso, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que esse "sensacionalismo na área ambiental não contribui para as melhores práticas e para a defesa efetiva das questões importantes do nosso País". O que Salles quer dizer, na prática, é que os impactos oriundos das táticas de exploração devastadoras, bem como de crimes ambientais como os da Vale, quando denunciados, impedem que mais políticas pró exploratórias sejam tomadas afogando a população em lama tóxica como foi em Brumadinho e Mariana ou a sufocando por nuvens de fumaça tóxica, como em São Paulo.

Sintetizando, os ataques em diversos âmbitos (que inclui o ideológico) vindo dos governos regionais que respondem ao governo Bolsonaro, reacionário e fantoche dos interesses imperialistas, para suprir a sede pelo lucro frente a crise histórica do sistema capitalista. Sede essa que depende, na sua base, da exploração predatória dos recursos ambientais e da exploração da classe só tende a deixar cada vez mais nítido a miséria do possível que esse sistema nos impõe.

Como resposta a esse cenário catastrófico precisamos que as empresas sejam estatizadas, e funcionem sob gestão dos trabalhadores e sob controle popular. Além da necessidade de se fomentar estudos que procurem alternativas ao tipo de extração predatória realizada pelas grandes mineradoras. Os mesmos vítimas dos vazamentos das barragens da Vale, da expropriação de terras em proveito do agronegócio, do saqueio das riquezas nacionais, e que terão suas vidas consumidas sob a exploração capitalista com reformas e ajustes nefastos, são os únicos que podem dar um planejamento racional para que estes recursos sirvam à população e não à sede de lucro de um punhado de capitalistas.

Precisamos resgatar a história da única classe que já tomou de assalto o céu, a única classe que, aliada à juventude, pode dar respostas de fundo a diversas questões, pois estaremos olhando de forma plena e não sob cabresto para atender o anseio pelo lucro de uma minoria, vindo do nosso suor e sangue e da exploração intensiva dos recursos do meio ambiente.




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