Educação

SP: EDUCAÇÃO

Profs. de SP: discurso de Karnal esconde uma armadilha perigosa

quarta-feira 3 de junho| Edição do dia

A semana dos professores da rede estadual começou diferente. Como parte da programação de “ensino remoto” do governo Dória para a semana – uma semana inteira dedicada a “preparar o segundo bimestre” e a “planejar ações para o engajamento do aluno” –, o famoso historiador Leandro Karnal foi convidado a palestrar sobre os “desafios da educação” na pandemia. E tal palestra, na verdade, revelou que o que quer mesmo o governo é engajar os professores, a qualquer custo, em seu projeto excludente e falacioso de ensino.

Por que o governo Dória necessita engajar os professores? Porque sabe que a maioria de nós enxerga criticamente e questiona o que o governo está propondo como resposta à inviabilidade do ensino presencial na pandemia: um ensino-aprendizagem que não tem como se realizar. Em primeiro lugar, devido ao mais óbvio de imediato: a maioria dos alunos não tem internet e/ou computador (menos da metade dos alunos, no estado mais rico do país, fez algum acesso ao aplicativo recém-criado “Centro de Mídias”). Mas muito mais do que isso, não é realizável devido ao histórico apartheid educacional brasileiro, em que os filhos dos mais ricos têm acesso ao melhor ensino desde o seu nascimento – recheado de acesso à cultura, a tecnologias de todo tipo, ao lazer educativo –; e os filhos dos trabalhadores só recebem escolas caindo aos pedaços e superlotadas, professores extremamente sobrecarregados, adoentados e mal remunerados, necessidade de trabalhar desde cedo e uma série de impedimentos para o acesso à cultura, tecnologias e lazer. Tal realidade faz com que, mesmo os que têm acesso às mídias digitais, tenham uma dificuldade imensa para estudar em condições normais, que dirá sozinhos. Hoje, cada um de nós está sentindo na pele essa brutal dificuldade dos alunos, e a cada dia aumenta a angústia e a quantidade de trabalho burocrático que só serve a controlar o professor dentro de suas casas e em nada (ou pouquíssimo) contribui para o aluno.

Foi para responder a tudo isso e ganhar a atenção dos professores (e dobrar-nos) que o governo Dória chamou Karnal. Como já se conhece das palestras desse intelectual – que circula entre aqueles considerados críticos sociais, questionadores ou até de esquerda –, nenhum desses problemas estruturais passou ao largo dos apontamentos dele, pelo contrário. Não só mencionou as deficiências estruturais da educação pública e reivindicou abertamente as áreas de atuação das políticas públicas (mencionando literalmente o SUS e sua importância em momentos de pandemia) como buscou dialogar diretamente sobre as questões mais terríveis que o sistema capitalista impõe aos trabalhadores e seus filhos todos os dias, e que nos últimos tempos têm se tornado ainda mais evidentes e insuportáveis. Falou sobre: a profunda desigualdade social no Brasil; os ataques aos direitos trabalhistas em todo o mundo, com o avanço avassalador da “uberização” dos empregos que atinge em cheio os jovens das periferias; o aumento das mortes pela pandemia como produto de “dúvidas sobre políticas públicas” de alguns governos federais, mencionando Brasil e Estados Unidos e contrapondo com países liderados por mulheres (como se isso por si só bastasse para se ter uma política eficiente no combate à pandemia); a sobrecarga do trabalho dos professores, salientando principalmente a situação das mulheres por ainda serem responsabilizadas integralmente pelo trabalho doméstico e pelo cuidado dos filhos; e, para tocar profundamente, citou a violência policial ao povo negro e como ele também amargou os últimos incidentes, citando o assassinato de George Floyd e as consequentes manifestações nos EUA. Mas – atenção! – Karnal não se ateve somente a essa análise da situação: ele norteou qual deve ser a nossa atitude perante a tudo isso – e é neste norte escolhido onde reside o problema.

Para iniciarmos uma análise crítica da palestra, comecemos por quem “pagou a banda e, portanto, escolheu a música”. Todo esse discurso foi requisitado por um governo que só faz reafirmar e impor toda essa realidade aos negros, às mulheres, aos jovens, aos trabalhadores: a nós e a todos os nossos alunos. Dória (ou BolsoDória, como fez questão de ser eleito) é um dos mais cabais representantes dessa política capitalista devastadora. Como isso ocorreu então, e por que?

Ora, era exatamente desse discurso “sensível” à realidade das comunidades da escola pública que o governo precisava para “falar a nossa língua”, nos enredar em seu plano – o qual é perfeitamente defendido por Karnal, como vamos argumentar adiante – e nos fazer sermos professores heróis. Tudo o que propõe Karnal é que assim sejamos, e essa é a armadilha: nós somos profissionais, não heróis.

Herói, por definição do dicionário Houaiss, é o “indivíduo capaz de suportar exemplarmente uma sorte incomum (p.ex., infortúnios, sofrimentos) ou que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem”, e ainda “mortal divinizado após sua morte; semideus”; ou seja, é aquele que se sacrifica pelo bem dos outros e que será recordado post mortem como mártir. Profissional, pelo mesmo dicionário, é o “responsável e aplicado no cumprimento dos seus deveres de ofício”, e ainda “que ou aquele que exerce por profissão determinada atividade”, ou seja, o que realiza, da melhor forma que pode, seu ofício, trabalho.

Que gostemos ou até desejemos que nossos alunos nos enxerguem como heróis, como aquele que é reconhecido e admirado pela sua ação, com certeza é compreensível e legítimo, em meio a tanta falta de reconhecimento e desprestígio que sofremos. Mas, quando somos retratados como heróis pelo nosso empregador, o governo do estado, isso dá brecha para que este exija de nós o sacrifício, e não só o ofício. E assim, ele se liberta das obrigações que lhe cabem na composição da qualidade da educação e as designa única e exclusivamente ao “herói”.

Ao Karnal dizer que “ao apenas constatar os problemas” impostos pela “nova realidade”, os professores “aumentam o fosso” da desigualdade e que devemos ser “serenos” e ser “os melhores professores” (aqueles que “conseguem dar uma boa aula até debaixo de uma árvore”) com as ferramentas que nos são dadas, ele busca nos convencer que nos desdobremos de todas as formas para fazer o ensino-aprendizagem acontecer, e que passemos a desconsiderar os problemas. Assim, nos responsabiliza exclusivamente pelo êxito ou fracasso, licenciando o estado de suas obrigações e responsabilidades, tanto aquelas referentes à desigualdade social que provoca quanto referentes às condições de trabalho, materiais de apoio e remuneração digna que não oferece. Como ele diz, “não adianta reclamar do real”. Ou, como um grande sábio governante do passado recente disse, “não pense em crise, trabalhe!”.

E ao quererem que atuemos passando por cima dos problemas atuais, eles incluem também – veladamente – os de caráter pessoal: sermos serenos em meio a tantos doentes e mortos que se acumulam dia a dia, às vezes nossos, ao medo de ficar doente ou de adoecer um ente querido, ao stress da sobrecarga de trabalho, e mesmo ao sofrimento também de nossos alunos; isso é mesmo querer evocar, em momentos tão particulares como o que estamos vivendo, o herói martirizado. Como ele disse, “não importa se você é pessimista; com o aluno, deve ser sereno”.

Se nos lembramos, por exemplo, dos trabalhadores da saúde que negam a alcunha de heróis nestes tempos, podemos fazer um paralelo com a nossa situação e todo esse discurso a nós endereçado. Eles negam justamente porque eles são profissionais e como tais deveriam ter – e exigem com razão – todo o aparato e apoio para realizarem seu trabalho da forma mais segura possível (com EPIs de qualidade, descanso garantido por mais contratações de colegas, locais temporários para morarem e não infectarem seus familiares) e não arriscar sem necessidade suas vidas e de seus familiares. É exatamente o que os governantes não querem que façamos. Não querem que reclamemos e exijamos direitos, apontemos as suas responsabilidades, questionemos as suas políticas públicas (cujo projeto é esvaziar e precarizar os serviços destinados aos trabalhadores e mais pobres), que nos revoltemos e nos organizemos; só querem que entreguemos resultados. Nota azul. Avaliação alta da educação. Bons dados pra mostrar na hora da eleição. De preferência, que correspondam a uma educação serviente à sua classe capitalista: pobre, tecnicista, adestradora. Exatamente aquela que Karnal parece propor que superemos, a “formadora de operários e soldados criada no séc. XVIII”.

E esse ponto nos traz à defesa de educação que Karnal efetivamente faz. Ele nos oferece uma aparência de defesa de uma educação nova e diferente da do século XVIII, mas na verdade abre as portas para a entrada do ensino à distância, uma precarização ainda maior que já existe, colocando que este pode ser “o futuro da educação”. Mas não afirma categoricamente e diz “não sabemos como será a educação do futuro e isso não importa”, o que importa é trabalhar com essa realidade, aprender a entregar resultado dentro dessa realidade. Quase afirma que, mesmo quando pudermos voltar às aulas presenciais, passada a pandemia, aquela já não será mais a realidade, a despeito das declarações oficiais de que a educação presencial e pública nunca será substituída. E dessa forma, quer nos preparar para essa nova educação em parte digitalizada e privatizada (não nos esqueçamos de qual é a proveniência do Google Classroom ou do Microsoft Teams, ou mesmo até de algumas das videoaulas que estão sendo utilizadas, que são de cursinhos particulares). Afinal, temos que nos desprender do “fetiche do presencial” (sic), não é mesmo?

E pra concluir, Karnal defende a velha e requentada ideia da meritocracia, sem mencioná-la tacitamente. Defende a ideia de que se formos este super-professor, poderemos então dar condições para nossos alunos serem protagonistas, superarem as desigualdades sociais e alcançarem as esferas cada vez mais longínquas onde estarão os trabalhadores com direitos, que ganham melhor, que têm a profissão que almejam, que são mais integralmente cidadãos. Que esse é o nosso desejo, de vermos nossos alunos em condições dignas de vida e realizados, com certeza é. Mas sabemos que quanto mais humilde for a origem do aluno, mais intransponíveis os obstáculos serão para que consiga, sozinho, superar completamente sua condição, por melhores que sejam nossas aulas; e segundo, que uma educação sucateada em seu conjunto, da Educação Infantil ao Ensino Superior, é um projeto que visa perpetuar aquele apartheid de que falávamos.

Isso quer dizer que devemos deixar, então, de dar nosso melhor como professores? Com certeza, não. Apenas quer dizer que não podemos aceitar as condições como são, isentar o poder público e nos sacrificar, mas sim nos organizarmos e exigirmos condições dignas de trabalho para que possamos fazer o nosso ofício integralmente, com recursos para dialogar com o infante e jovem aluno que está imerso em várias dificuldades, em vários estímulos midiáticos e ideológicos, e hoje especificamente em várias tragédias. E darmos o nosso melhor para formarmos jovens críticos e questionadores que também não aceitem as injustiças que sofrem, para que possam subvertê-las. E agora, não seria o caso então de, em meio à pandemia, lidarmos diretamente com as questões impostas neste momento? Colocarmos nossos esforços para trabalhar com nossos alunos sobre este momento dificílimo que estamos vivendo todos?

Não basta que coloquemos no computador “uma foto do político que mais odiamos”, como disse Karnal, para nos estimular a ser o melhor professor “só de raiva”. Precisamos combater politicamente este e todos os outros políticos que querem enterrar a educação pública paulatinamente no ensino à distância e que já historicamente a precarizam, sendo este o seu projeto. Não caiamos na armadilha dos que nos querem heróis.




Tópicos relacionados

Coronavírus   /    Professores São Paulo   /    Educação

Comentários

Comentar