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Consciência Negra | Professores em Campinas fazem formações unificadas em duas escolas sobre o combate ao racismo

Nos dias 9, 10 e 11 ocorreram formações sobre a questão negra durante os ATPC’s da E.E Carlos Gomes com a participação remota de professores da E.E Hildebrando Siqueira. As formações tiveram como debatedores as convidadas Flávia Telles, professora de rede estadual em Campinas, do Nossa Classe Educação, Letícia Parks, professora e organizadora dos livros "Mulheres negras e marxismo" e "A revolução e o negro", parte do Esquerda Diário e do MRT e Renato Ferraz, doutorando em História pela UFF, parte do Quilombo Vermelho e do Esquerda Diário. Na semana seguinte, nos dias 17, 18 e 19 ocorreram oficinas sobre a cultura negra com os estudantes.

quinta-feira 25 de novembro | Edição do dia

A iniciativa partiu de um grupo de professores da EE Carlos Gomes que veem a importância do debate sobre o surgimento do racismo, a história rica de lutas por liberdade dos quilombos e por direitos após a abolição e suas formas cruéis e profundas de expressão estrutural até hoje. As formações começaram nos ATPC’s das três áreas, ciências humanas, linguagens e ciências da natureza (incluso matemática) e contou com a participação de professores da área de humanas das duas escolas, de estudantes representantes dos grêmio estudantil, universitários da PUC que fazem PIBID e de professoras PEB I (1ª à 5ª série) que geralmente fazem ATPC separadamente. Ou seja, uma reunião que conseguiu envolver uma parte diversificada e importante da comunidade escolar.

A decisão de elaborar formações sobre a questão negra no início do mês de novembro partiu da necessidade de aprofundar o tema na escola. Ficou evidente durante toda a pandemia como a população negra, que compõe a maior parte da classe trabalhadora no Brasil, foi fortemente atingida pelo negacionismo do governo federal que resultou no triste número de 611 mil pessoas que morreram pela Covid-19 até hoje. Os estudantes das escolas públicas e suas famílias sentiram fortemente esse impacto e muitos trabalhadores tiveram que se expor ao vírus nos piores momentos de surtos dos últimos dois anos.

Foi também nesse último período que ocorreu a fúria negra nos EUA contra o assassinato odioso de George Floyd pelo joelho da polícia racista, com negras e negros imigrantes à frente e tendo um apoio massivo da população branca. A explosão de manifestações naquele país invadiu o mundo e os ares bateram por aqui com algumas manifestações antirracistas e antifascistas. No debate foi dito sobre o papel das instituições e do governo Bolsonaro e Mourão em negar a existência do racismo no Brasil. A conclusão buscou apontar a importância de valorizar a identidade negra caminhando para um combate coletivo, dentro e fora da escola contra essa opressão.


Professores da escola Hildebrando Siqueira acompanhando remotamente

Assim, ficou evidente aos professores a urgência desses debates, em todos seus aspectos históricos de como surgiu o racismo como justificativa de escravizar pessoas do continente africano para o acúmulo de riquezas nas mãos da realeza e o clero, quais os fortes exemplos de luta pela liberdade em todo período da escravidão, a força das revoltas, quilombos e a Revolução Haitiana em causar medo nas elites que foram obrigadas a abolir a escravidão. Também passou pelas discussões sociais e econômicas na formação do Brasil marcada pelo racismo antes do Império e depois da República, o desenvolvimento de uma tese eugenista que fundamentou a política do branqueamento da população através de estupros que tinham leis segregacionistas que empurraram a população negra para o desemprego, privando-as de estudo, furtando-as de ter terras para viver. Além de outras leis que perseguiam as pessoas negras e criminalizavam a cultura afrodescendente, como a proibição da capoeira, e que podemos ver suas heranças até hoje com toda perseguição e violência contra bailes funk e na perseguição às práticas de religiões de matriz africana.


Participação da Letícia Parks no segundo dia de formação

Partindo desse conteúdo, os professores aproveitaram uma circular do Estado de SP de assunto “TRILHA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA ANCESTRALIDADES NEGRAS - Construção da Semana de debates da Consciência Negra” para propor as atividades e oficinas na escola. A circular ainda menciona a Lei 10.639, de 09 de janeiro de 2003 (que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira"), porém é visível a falta desse conteúdo nas escolas e a insuficiência que significa debatê-lo apenas em alguns dias do mês de novembro, o que mostra que em todos níveis o Estado Brasileiro e suas instituições são bastante racistas.

Se por um lado Campinas é marcada pelo racismo desde sua origem na escravidão, por outro também sempre foi palco da resistência dos negros, como o plano de revolta escrava armada de 1832 descrito no livro “Senzala insurgente” do Ricardo Pirola, professor no IFCH da Unicamp. Vemos que a opressão racial se reatualiza, como recentemente a vereadora Paolla Miguel (PT) foi alvo de ataques racistas da extrema direita na reacionária Câmara de Vereadores. Mas também se renovam as lutas, como foi a 20ª Marcha Zumbi dos Palmares com mais de mil contra o racismo nas ruas.

No Carlos Gomes foi um exemplo importante de como os professores podem organizar debates para ambiente de pensamento crítico e combate às opressões que existem nessa sociedade capitalista, no caminho oposto ao que vem sendo imposto pelo Doria e Bolsonaro com Novo Ensino Médio. É fundamental que iniciativas assim se espalhem por mais escolas da cidade e de todo país com toda comunidade escolar, participando todos educadores que colocam a escola para funcionar além dos professores, com o envolvimento ativo dos estudantes e de seus familiares.


Cartaz usado para convocar as formações




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