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SÃO PAULO

Professores de São Paulo escrevem carta aberta à comunidade escolar: “Estamos ao seu lado”

Comitê de professores de São Paulo do Esquerda Diário publicam carta aberta denunciando o descaso do governo com a população e propondo medidas de emergência.

quinta-feira 30 de abril| Edição do dia

Foto: Ramon Flauzino/Flickr.

Nós professores estamos acompanhando com muita apreensão os vários problemas que a pandemia tem provocado à nossa população.

A pandemia causada pela rápida contaminação da Covid-19 mudou o mundo que conhecíamos até agora. Se os países desenvolvidos já estão vivendo uma enorme crise, que dirá o Brasil e todos os outros países da América Latina e do Continente Africano. Devido à falta, em muitas regiões, de saneamento básico, de água encanada, de moradia digna, à desnutrição infantil que ataca a imunidade das crianças, à falta de investimento no Sistema de Saúde – no caso brasileiro, o nosso SUS – e tantos outros problemas com os quais nossos governantes em nada se preocupam. Tudo isso pode resultar em um aumento do número de casos e mortes causados por essa pandemia.

Construir hospitais de campanha não será o suficiente porque muitos não oferecem leitos com respiradores, equipamento essencial para a recuperação dos pacientes mais graves, e tantos outros não estão funcionando pela não contratação de mais profissionais de saúde. Esses hospitais são provisórios e descartáveis, e assim que a epidemia passar, todos estes serão desmontados e o Sistema de Saúde continuará no mesmo caos de antes.

SUS 100% estatal e com investimento massivo é a solução – lutemos juntos!

Nossa escola foi fechada para se evitar aglomerações que acelerariam o contágio pelo coronavírus. Mas o que os governos não admitem é que outro motivo para isso é o sucateamento por anos da educação pública As escolas não têm o mínimo de segurança sanitária para atender nossas crianças, jovens e adultos: não há sabonete nem papel higiênico, a superlotação das salas de aula privilegiam o contágio entre alunos e professores, e ninguém têm o simples direito de poder lavar as mãos.

Quando a escola não abre, novas preocupações, além da interrupção da aprendizagem, surgem: a falta da merenda na alimentação dos alunos é muito grave e nos traz muita indignação, pois sabemos que o alimento oferecido pela escola é o único que será desfrutado no dia de muitos dos nossos alunos. O descaso do governo é revoltante, o vale merenda no valor de R$ 55 não é capaz de suprir as necessidades das famílias que sofrem com as demissões pelos patrões, que querem preservar seus lucros.

Outra questão que também nos revolta é a tentativa de implementar o Ensino à Distância (EaD). Todos nós sabemos das inúmeras dificuldades: um enorme número de alunos e professores não possuem celulares e internet para acessar a plataforma, nem todos os alunos têm autonomia para realizar as atividades propostas, temos muitos alunos com necessidades especiais e/ou dificuldades de aprendizagem que foram excluídos da aprendizagem devido a implantação desse sistema. O EaD não garante o efetivo cumprimento do ano letivo, muito menos um aprendizado de qualidade.

Os governos querem se aproveitar das dificuldades impostas pela pandemia para implementar e legitimar o EaD para, no pós pandemia, enxugar o máximo possível a educação pública, substituindo-a em partes por este modelo – demitindo muitos professores e trabalhadores. Além disso, é uma ferramenta também para impor controle sobre os professores e alunos, cortando ao máximo os elementos críticos e questionadores, que ensinam a pensar, do contexto da sala de aula, e assim “modelar” os jovens como futuros trabalhadores precarizados e super-obedientes, que não questionem suas condições de trabalho e de vida.

E em momento de pandemia, em que muitos estão passando privações, sofrendo com demissões e com a própria doença e perdendo entes queridos, querem que finjamos normalidade no ensino. Não há normalidade e nem condições humanas, psíquicas, técnicas ou pedagógicas para manter a educação regular! Deveríamos, como trabalhadores da educação, neste momento, oferecer suporte informativo e emocional aos nossos alunos relacionados à pandemia e ao momento político-social que estamos vivendo.

Lutemos por uma educação pública de qualidade e democrática!

Historicamente, as mulheres acumulam funções que sobrecarregam seu papel na família. Quando trabalham fora, chegam em casa e precisam dar conta de todo o afazer doméstico com a casa, filhos, marido e família. Pior ainda quando essa mulher, por inúmeros motivos, é a mãe e o pai, a única responsável financeira em manter sua casa de pé. É nas costas da maioria dessas mulheres que o descaso do governo recai. A situação tende a se agravar ainda mais com a pandemia: as mulheres não terão condições de auxiliar nos estudos de filhas e filhos devido a toda carga das tarefas domésticas; terão que ser as cuidadoras se algum familiar adoecer; serão mais exploradas pelos patrões; e ainda, para aquelas que já estão desempregadas, ficará a carga do que fazer para poder colocar comida dentro de casa.

O machismo e a desigualdade de gênero precisam acabar!

Exigimos que o governo conceda bolsas emergenciais de no mínimo R$ 2 mil para todas as trabalhadoras e trabalhadores que necessitam de auxílio enquanto a quarentena estiver em curso!

Que todos os alunos matriculados na rede pública de ensino tenham acesso sem burocracia ao vale merenda com um valor digno que possibilite de fato que os alunos se alimentem!

É muito difícil ver todos os dias notícias que mostram o quanto a doença está progredindo e matando tantas pessoas. Mas é muito mais angustiante notar que nossos governantes não estão realizando medidas práticas para o controle da doença. A quarentena é uma ação importante, mas deveria ser organizada com testes para todos, para separar os doentes das pessoas sadias e realizar uma força tarefa nos bairros mais afetados pela Covid-19 – como bairros da Zona Norte e da Zona Leste da cidade de São Paulo, bairros periféricos com moradores negros, pobres, sem infraestrutura básica para manter hábitos de higiene. Infelizmente, os moradores das periferias paulistas, brasileiras e mundiais serão as maiores vítimas do descaso das autoridades com relação à pandemia.

Nos Estados Unidos os mortos pela Covid-19 também tem origem e cor bem definidas: o negro e o imigrante. Eles são excluídos da sociedade americana, explorados e são alvo de racismo e xenofobia, vivem à margem do sonho americano. São as maiores vítimas da ausência de um sistema público de saúde.

Em todos os países, inclusive nos mais ricos, a maioria que perde suas vidas são os trabalhadores, são pessoas que não tem acesso às máscaras de proteção, ao álcool gel, que não conseguem fazer a quarentena porque o patrão ameaça de demissão, que se expõem todos os dias para colocar um prato de comida na mesa da sua família.

De todos os governos dos países citados, a única e maior preocupação é: salvar o sistema financeiro e econômico – o capitalismo. As vidas das pessoas não importam, o que importa é salvar os bancos, os grandes empresários, preservar as grandes fortunas.

Nós não podemos aceitar, nossas vidas valem mais que os lucros deles!

O Capitalismo está falido: esta crise sanitária comprovou que ele não atende as necessidades vitais dos cidadãos. Nós, seus professores, lutamos por uma sociedade justa, sem divisão de classe, onde os trabalhadores decidam suas prioridades, que sejam os responsáveis por comandar nosso país.

Imaginem: se os trabalhadores estivessem a frente das fábricas, dos seus postos de trabalho, certamente substituiriam a produção de mercadorias desnecessárias para a crise que vivemos e produziriam respiradores, máscaras, álcool em gel em larga escala e etc. O que nossos governantes não realizam, o trabalhador faria porque ele sabe a necessidade do povo e não objetiva o lucro.

Enquanto isso, o governo continua pagando a dívida pública, dívida esta que começou desde a chegada da família real portuguesa. Esta dívida não é nossa, ela consome milhões dos impostos que somos obrigados a pagar. Todo esse dinheiro é pago para o FMI ao invés de ser investido em segurança pública, no SUS, nas escolas para garantir educação de qualidade para nossos alunos, na melhoria da infraestrutura de bairros periféricos e nas soluções para a atual catástrofe que vivemos. Esse dinheiro deveria ser investido em EPIs (equipamentos de proteção individual) para os trabalhadores essenciais, que estão dando suas vidas para salvar a população.

Nós, professores do comitê de Educação do Esquerda Diário lutamos pelo NÃO pagamento da dívida pública!

Todos nós da comunidade escolar, país, alunos, professores, funcionários devemos exigir a mobilização do governo, exigimos testes massivos, exigimos EPI, exigimos a divulgação dos números reais dos casos de contágio e morte pela Covid-19, exigimos que nossas vidas sejam a prioridade!!!

Estamos ao seu lado, lutando por uma nova sociedade!




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