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SÉRIE NARCOS

Produtor da série Narcos é assassinado enquanto gravava nova temporada sobre os cartéis mexicanos

O produtor da série “Narcos”, Carlos Muñoz Portal, foi assassinado no México enquanto procurava locais para a gravação da próxima temporada da série. Mais uma vez, a série escolhe olhar para o problema brutal que é o narcotráfico, em escala mundial, de maneira unilateral, acrítica e irresponsável.

Amanda Navarro

Biomédica e Bolsista no Hospital Universitário da USP

terça-feira 19 de setembro| Edição do dia

No dia 16 de setembro, a Netflix publicou em sua conta no twitter uma nota de pesar sobre o falecimento do produtor da série “Narcos”, Carlos Muñoz Portal. O produtor da série foi assassinado no México, enquanto procurava locais para a filmagem da próxima temporada, que irá explorar as histórias em torno do cartel mexicano de drogas. Carlos, freelancer de Narcos, foi baleado e seu corpo colocado no porta-malas de seu carro, na região pouco habitada de Temascalapa. Segundo Claudio Barrera, da Procuradoria Geral, "Visto que a área é pouco habitada, não temos nenhuma testemunha até o momento".

Declaração realizada na página oficial da Netflix no dia 16, sobre o assassinato de Carlos Muñoz Portal, produtor da série “Narcos”.

A série da Narcos, produzida pela Netflix lançada em 2015, buscou explorar a história de um grande narcotraficante colombiano, Pablo Escobar, e sobre a incessante busca desta figura pelo DEA, o órgão estadunidense responsável por executar a guerra às drogas. Na sua primeira temporada, a série marca vários estereótipos em torno do personagem principal e da Colômbia em geral.

Narcos faz uma análise completamente unilateral, sob o ponto de vista estadounidense sobre o narcotráfico na Colômbia e também nos outros países da América Latina e Caribe. Algumas cenas exaltam as ações do DEA e colocam os países latinos numa condição ainda mais marginalizada, como se fossem os reais problemas e o impedimento do sucesso norte americano de combate ao tráfico.

O filho de Pablo Escobar, Juan Escobar, foi um crítico ferrenho sobre a série e chegou a declarar que processaria a Netflix pela forma como explorou a vida e morte de seu pai. A produção da Série, sob comando de Padilha, o também produtor de Tropa de Elite, pouco se propõe em debater criticamente a questão do tráfico, e apenas explora as histórias, ora endeusando as ações e a política de combate às drogas dos Estados Unidos, e ora tornando ainda mais mística e fantasiosa a vida de Pablo Escobar.

Apesar do objetivo das séries ser, em geral, por puro lucro e entretenimento, a Netflix não contou com o quão complicada é a situação dos cartéis de drogas e sua relação contraditória com os Estados Unidos. Como prova disso, a resolveram lançar em sua nova temporada o México como figura da vez.

A ação da Netflix demonstrou total irresponsabilidade, pois no ano da eleição de Trump, onde ele abriu fogo contra imigrantes, chegando inclusive a propor a construção de um muro na fronteira entre México e Estados Unidos. Há um extenso histórico racista, higienista e xenófoba por parte do governo Trump e de seus apoiadores, o que influencia diretamente nas relações do narcotráfico e da própria população que emigra ilegalmente em busca de melhores condições de vida.

Os mexicanos que vivem nos Estados Unidos, são colocados nos postos de trabalho mais precarizados, como lavouras, construção de edifícios, e na cozinha de restaurantes. Para o governo estadunidense, essa população é a escória, que traz consigo crime, roubam os empregos dos nativos e apenas sugam a prosperidade americana. Todos os governos aplicam sempre uma medida de caça aos imigrantes ilegais, que vivem sobre tal condição constante de medo e, por isso mesmo, podem ser mão de obra ainda mais barata.

Além disso, recentemente na cidade de Charlottesville aconteceu uma mobilização racista, xenófoba, lgbtfóbica, renunciando os feitos da Kun Klux Klan, e que Trump, se posicionou de forma completamente coerente com esses atos. Em declaração, o atual presidente dos Estados Unidos, chegou a culpabilizar os grupos de esquerda pelos atos e mortes ocorridas nos atos de repúdio ao ocorrido em Charlottesville.

Ainda considerando todo esse cenário, sobre essa relação extremamente utilitarista dos Estados Unidos com o México, tratando o país e seus imigrantes como mão de obra totalmente precarizada, se apoiando na ilegalidade dos mesmos no país, além de toda a questão que permeia o grande problema em escala mundial que é o narcotráfico, a Netflix se propôs a fazer uma série sobre esta temática.

O narcotráfico é responsável por ser um dos setores ilegais que mais movimenta dinheiro e a guerra contra às drogas faz com que as populações dos países de periferia capitalista, em sua maioria negros, pobres e latinos, paguem por isso. Retratar o narcotráfico da maneira estereotipada, reduzindo os povos latinos e caribenhos a tal condição é completamente ofensivo e irresponsável por parte da Netflix, resultando por fim numa grande tragédia que foi o assassinato do produtor da série.

É cada vez mais importante que o debate em torno do tráfico de drogas seja feito de forma justa, coerente e sempre pontuando quem são as pessoas que lucram com isso. Lucram em cima das misérias que o capitalismo impõe, seja via tráfico que mata todos os dias ou pela via do entretenimento. Solidariedade aos familiares e amigos de Carlos Muñoz Portal e que essa tragédia impulsione um debate forte e sério sobre a guerra às drogas promovida pelos governos e sobre o grande lucro em torno disso.




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