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CHINA

Problema estratégico de Xi: o flagelo do desemprego na China

O verdadeiro flagelo da China não é a queda do PIB, mas uma nova onda de desemprego.

André Acier

São Paulo | @AcierAndy

quarta-feira 6 de maio| Edição do dia

Um espectro ronda a China: o espectro das demissões. Quando Xi Jinping se tornou presidente da China em 2013, herdou com o cargo um objetivo de longo prazo, longe da figura do alto desemprego atual. Tratava-se de assegurar que o país alcançasse a marca do xiaokang shehui, ou "uma sociedade moderadamente próspera" em mandarim, às vésperas do centenário do Partido Comunista Chinês.

O termo xiaokang shehui foi utilizado pela primeira vez, como objetivo econômico da China, por Deng Xiaoping, encarregado de liberalizar a economia chinesa e iniciar as reformas pró-capitalistas que transformaram a base social da propriedade, garantindo ao mesmo tempo, por meios coercitivos ou outros, o domínio do Partido Comunista durante a transição, que viu inúmeros membros se tornarem empresários multibilionários.

Concretamente, o xiaokang implicava a duplicação do PIB nacional entre 2010 e 2020, e a erradicação da extrema pobreza na China. Mas a pandemia da Covid-19, com a paralisação da indústria chinesa e do comércio exterior, vem obrigando Xi a alterar os planos, com um alto custo social.

Para dobrar o PIB da última década, a China teria que alcançar pelo menos um crescimento de 5.6% esse ano. O lockdown nacional, responsável pela contração de 6.8% do PIB no primeiro trimestre, a maior erosão econômica desde 1976, tornou o xiaokang praticamente inalcançável. O FMI prevê que o PIB chinês será de 1.3% em 2020 (ainda assim maior que o PIB das maiores economias do Ocidente).

Uma péssima notícia a dar nesse último evento comemorativo do Movimento 4 de Maio, que marca a data das manifestações estudantis em Pequim, em 4 de maio de 1919, contra a fraca resposta do governo chinês em relação ao Tratado de Versalhes, especialmente a permissão dada ao Japão para manter territórios em Shandong que tinham sido devolvidos pela Alemanha após o cerco de Tsingtao.

Isso não impede que a China seja o primeiro país que tenha esboçado a paisagem da “vida pós-pandêmica”. Estudos do banco Morgan Stanley apontariam que vários dos setores produtivos mais importantes da China voltaram a funcionar, e a níveis importantes.

O ramo de entregas rápidas já opera a níveis normais, e a indústria de transformação estaria operando praticamente a 100% de sua capacidade. Mesmo a produção automotriz, a mais golpeada pelo coronavírus, que em fevereiro operava com grande ociosidade, em março registrou atividade acima de 80% da capacidade. A Ford, que enfrenta perdas históricas de vendas desde o início do ano, reabriu suas fábricas chinesas e vem desenvolvimento tecnologia para aumentar a produtividade do trabalho, reduzir o plantel e intensificar os ritmos de produção, parte das formas de precarização do trabalho que a burguesia implementa no mundo. A alemã Mercedes-Benz segue o mesmo caminho, e anuncia a nova era da compra de veículos por aplicativo para evitar contato humano.

Assim, o governo chinês viu recompensado, em alguma medida, seus esforços para dar reignição à indústria na costa leste. Já em abril o governo anunciava operação total nas províncias e municipalidades de Zhejiang, Jiangsu e Xangai (e a uma taxa de 80% em Anhui, Liaoning e Shandong). Mas esses números podem ser algo ilusórios. Os resultados estão ainda longe da produtividade de 2019, e o debilitado ritmo de retomada da economia é retroalimentado pelo maior problema da China: a dependência da demanda externa, que se contraiu substancialmente em função do alastramento da pandemia do coronavírus para os principais países do Ocidente.

Ademais, a recuperação produtiva é bastante desigual entre as empresas estatais, e as pequenas e médias empresas privadas. A taxa de retorno nestas últimas é consideravelmente inferior, em comparação com as gigantes controladas pelo Estado, sendo que empregam quase 80% da força de trabalho. Estas pequenas e médias empresas tiveram perda de 70% de sua renda em março, segundo o China Labour Bulletin, e não tem expectativa de novos investimentos.

Isso impõe dificuldades à reconstituição do grau de riqueza anual a que a China tradicionalmente se habituou a acumular. Mas o maior problema da China não consiste em explicar para a população a razão do fracasso em atingir o objetivo aclamado pelo PCCh nos últimos 30 anos, erodido pelo SARS-CoV-2. O principal flagelo que a burocracia de Pequim tenta evitar é o crescimento do desemprego, um índice mais importante do que o incremento anual do PIB.

O governo chinês sabe que, acima de tudo, qualquer estabilidade social exige que dezenas de milhões de postos de trabalho sejam criados anualmente para fazer frente à entrada de novas ondas de jovens no mercado de trabalho. Como nota Julian Evans-Pritchard, especialista em economia chinesa da Capital Economics, a estabilidade política e financeira, uma obsessão do PCCh, depende de níveis estáveis de emprego.

Uma terceira onda de desemprego de massas?

É cedo para dizer se o extraordinário número de desempregados na China fruto da Covid-19 permanecerão sem trabalho por muito tempo, numa economia que mostra sinais de reativação. Mas é certo que a China se depara com a mais imponente crise de perda de postos de trabalho desde que o Partido Comunista reconheceu que o "desemprego", de fato, existia na China, a meados da década de 1990, na esteira da restauração do capitalismo.

Diferentemente das duas ondas prévias de desemprego em massa, quando a China expeliu dezenas de milhões de operários do setor estatal em meio às reformas de Deng Xiaoping, e quando a crise financeira de 2008 deixou 20 milhões de trabalhadores migrantes sem nenhuma ocupação, a crise do coronavírus envolve todos os setores da economia. Nas duas ondas anteriores, houve capacidade relativamente rápida de absorção dos desempregados: no final da década de 1990 o setor privado crescente foi beneficiado pela demissões estatais realizadas pela burocracia de Pequim para conferir mão de obra barata para empresários, enquanto em 2008 o Estado liberou enorme quantidade de estímulos estatais para gerar novos empregos.

Agora, não parece haver saída simples, dado o enorme grau de endividamento das empresas privadas e do próprio Estado. Poderíamos estar às portas de uma terceira onda de desemprego massivo.

Como mostram os números oficiais do National Bureau of Statistics, a economia chinesa foi devastada pela crise sanitária. Além da queda de 6.8% no primeiro trimestre, o Ministério de Recursos Humanos e Seguridade Social anunciou que, no final de abril, a taxa de desemprego na China cresceu para 5.9% (26 milhões de pessoas) frente à taxa de dezembro de 2019, de 5.2% (23 milhões de pessoas). O dado coincide com as informações de um estudo da Universidade de Pequim que indica queda de 27% de postos de trabalho criados no primeiro trimestre de 2020 em comparação com o mesmo período do ano passado.

Segundo o NBS, essa cifra mostra certa melhora, diante dos números dos dois primeiros meses do ano, em que a taxa de desemprego urbano foi de 6.2%, um indício de retomada econômica.

O número de 26 milhões de desempregados, ainda sendo impressionante, é provavelmente muito menor do que o desemprego real. Zhuang Bo, economista da TS Lombard, afirma que a massa de desempregados pode ser significativamente maior se forem contabilizados os 50 milhões de trabalhadores migrantes, incapazes de retornar às cidades onde trabalham pelas restrições fronteiriças, ou de encontrar emprego depois de retornar às cidades onde haviam trabalhado. Essa categoria foi classificada por Liu Chenjie, economista-chefe do fundo de investimento Asset Upright, de "desemprego friccional": 205 milhões de chineses estariam nessa situação, de querer voltar ao trabalho mas não poder pelas restrições oriundas da pandemia.

Essa cifra representa 25% da força de trabalho total na China de 775 milhões de pessoas, muito superior ao dado oficial de 5.9%. Essa ambigüidade nas cifras oficiais se explica porque leva em conta apenas os 442 milhões de trabalhadores urbanos, excluindo os 290 milhões de trabalhadores migrantes, parte dos "perdedores absolutos" da globalização no interior do país, os mais precários segmentos do proletariado chinês, vulneráveis a todas as flutuações econômicas.

Nesse ponto, um parênteses é merecido. O escritor espanhol Rafael Poch-de-Feliu, em seu livro "La actualidad de China" (2009), aponta os desfavores desse setor precário, no marco das "duas classes operárias" chinesas. Diferentemente dos setores operários situados na esfera da antiga economia estatal, que possuíam mais direitos (como o seguro-desemprego), os segmentos operários oriundos do campo formam um batalhão dos "sem-direitos". Oriundos do paupérrimo campo chinês, afastados por milhares de quilômetros das grandes cidades do sudeste, esse exército de trabalhadores rurais que foi migrando para as cidades de Xangai, Wuhan e Pequim nas últimas três décadas, foi destituída de todas as garantias próprias à economia estatal. Ocupando os postos de trabalho de pequenas, médias e grandes empresas privadas, acostumados a viver na pobreza, a regra para a nova geração de jovens trabalhadores é a aceitação de parcos salários pelo simples direito de abandonar as paisagens rurais do oeste e viver no ambiente urbano - para a juventude chinesa, a condição da emancipação do jugo familiar. São esses trabalhadores, que viajam para o interior nos feriados prolongados ou festas de fim de ano, os que acabam mais penalizados pela pandemia.

Outro fator de dificuldade nos cálculos é que, diferentemente dos dados semanais do desemprego nos Estados Unidos, cuja curva não pára de crescer (30 milhões de pessoas desempregadas em abril), na China esse dado é mensal, e calculado em base a uma amostragem muito pequena: são pesquisados 120 mil domicílios urbanos, ao redor de 0.03% da força de trabalho nacional.

Ao Financial Times, Lu Hai, professor da Universidade de Pequim, espera uma deterioração maior da situação de desocupação, na medida em que o setor exportador da China, responsável significativo pela criação de novos postos de trabalho, se ressente da contração do comércio mundial em função da pandemia e da guerra comercial com os Estados Unidos, "o desemprego pode aumentar entre 10%-15% sem intervenção estatal".

Hao Hong, chefe de pesquisa da Bocom International de Hong Kong, avalia em base às estatísticas do fluxo de passageiros de transporte público que mais de um terço dos trabalhadores chineses não voltaram ao trabalho desde o início da crise sanitária, e mesmo os que voltaram vivem mergulhados na incerteza. "A perda de empregos pode ser maior nas cidades menores, e a incerteza da situação trabalhista de milhões é sensível".

Ainda de acordo com os cálculos de Liu, divulgado pelo South China Morning Post, apenas no setor de serviços, o que mais avança na China, 180 milhões de postos de trabalho foram perdidos. Nesse setor as condições de trabalho são altamente flutuantes e dependentes do apetite dos consumidores, deprimido drasticamente pelos lockdowns. Mesmo para os que conseguem preservar o emprego, a situação não se torna mais fácil. Dan Wang, analista da Economist Intelligence Unit, apresenta uma pesquisa aterradora para as condições de vida da classe trabalhadora chinesa, segundo a qual de 18 a 30 milhões de pessoas perderão de 30% a 50% do seu salário nesse ano.

A potência chinesa, portanto, ganha novo abalo estrutural com a possibilidade da combinação de uma terceira onda de desemprego em massa e a redução substancial da renda familiar proletária. Os funcionários estatais não conseguem mais esconder os riscos. Lu Zhengwei, economista-chefe do Banco Industrial da China, afirmou que o "desemprego oculto" ficará visível em 2020. "Os trabalhadores migrantes rurais que perderam sua fonte de renda assalariada geralmente não estão incluídos nos cálculos do governo. Muitos deles se vêem na dificuldade de manter mesmo os baixos padrões de vida que nutriam anteriormente. Muitos trabalhadores migrantes são obrigados a voltar para o campo, a viver da produção agrícola mais básica".

Diante da ameaça de um descontrole na raiva social, o governo tomou medidas de robustecimento dos valores oferecidos no programa de auxílio-desemprego. Ao final de 2019 o valor do auxílio foi incrementado para 600 bilhões de yuanes (US$ 85 bilhões), o que deixa espaço para confortável apenas para uma ajuda estatal de 2000 yuanes por mês. Até o final de março, segundo estatístcas oficiais, 2.38 milhões de pessoas haviam recebido ajuda estatal no valor de US$571

A dificuldade é que os trabalhadores precários chineses se encontram fora da conta. O direito ao auxílio-desemprego está concentrado nos setores operários alocados nas empresas estatais. Nas pequenas e médias empresas do setor privado (especialmente a juventude oriunda do campo chinês, mencionada acima), não há direito ao seguro-desemprego.

Os trabalhadores migrantes, mais uma vez, são os que obtêm menos acesso ao benefício, por trabalharem sem contrato formal devido ao sistema hukou, que liga o acesso aos serviços sociais à região rural ou urbana em que se registra seu nascimento.

Em reportagem de Alice Su ao Los Angeles Times, Old Liu, trabalhador chinês de 51 anos, relata o fracasso na terceira viagem a Pequim em procura de emprego em março, depois de ter buscado trabalho no interior da Mongólia. "É difícil viver na China esse ano", disse. O mesmo serve para Zhang, trabalhador de Xiamen, que buscou emprego em 10 áreas diferentes sem conseguir uma posição estável. Trata-se de uma situação muito distinta da habitual transitoriedade e rotatividade trabalhista na China, em que raramente se fica mais de um mês sem trabalhar (mesmo que nos postos mais precários).

As expressões na luta de classes não se fizeram esperar. Os trabalhadores da construção civil, com obras acabadas e sem emprego, protestam contra o não pagamento de salários, enquanto os trabalhadores de hospitais, na linha de frente contra o coronavírus, fazem greve em distintas cidades contra o atraso de pagamento salarial e benefícios prometidos, enfrentando contaminações e a morte de companheiros de trabalho. Ademais, lojistas protestam exigindo redução nos aluguéis, e taxistas pedem suspensão das taxas de aluguel dos carros.

O solo sob os pés de Xi

A situação internacional da China já era incerta, com o arranhão na imagem do governo após o ocultamento de informações sobre a pandemia e o autoritarismo do Partido Comunista Chinês ao silenciar médicos como Li Wenliang, mortos pelo coronavírus, fatos usados demagogicamente por Donald Trump na campanha racista que busca "provar" que o vírus surgiu num laboratório de Wuhan. Posteriormente, os esforços da China em melhorar sua figura internacional, com a ajuda fornecida a países como Itália e Sérvia na Europa, vem sendo minados pelas denúncias da má qualidade dos insumos médico-hospitalares enviados.

Militarmente, a atuação agressiva de Pequim para assegurar o controle do Mar do Sul da China vem reunindo os países da região numa posição mais favorável aos Estados Unidos. O afundamento de um navio pesqueiro do Vietnã, a intrusão da China em águas da Malásia para atividades de espionagem e a inclusão de áreas marítimas disputadas com as Filipinas como distritos administrativos de Pequim são ocorrências que estão erguendo as nações da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) contra as Forças Armadas chinesas.

Não obstante, não há dúvida que o quadro do desemprego representa o principal perigo ao Partido Comunista Chinês, pois poderia colocar em maus lençóis um governo que construiu uma malha estruturalmente débil de auxílio social a milhões de trabalhadores migrantes precários.

Esse segmento gigantesco da classe trabalhadora chinesa, cuja jovem geração é muito mais urbana do que nas décadas anteriores, pode ser o estopim de novos processos de luta de classes.

O espectro do desemprego é o mais urgente que Xi Jinping quer esconjurar. Não parece encontrar saída fácil.




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