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CRÔNICA

Prô, que pano é esse na sua cabeça?

Leticia Parks

São Paulo

quarta-feira 7 de junho| Edição do dia

Maria Filipa de Oliveira, pescadora e lutadora da Guerra de Independência Bahiana em 1823, liderando a defesa da costa contra as tropas portuguesas.

8h38. Acho que desliguei o despertador e nem percebi. Cacete. Nem escovo o dente e pego a bicicleta, meio de pijama mesmo, pra dar tempo que chegar antes das crianças na escola. Chego depois, 9h03, três minutos atrasada para a primeira aula do dia. 1h atrasada para os parâmetros da coordenação que acha que devemos todos chegar 1h antes da aula.

Peço desculpas. Foi mal, não ouvi o despertador... Tava cansada, ontem tive faculdade até as 22h30. Tudo bem, mas tenta evitar. Sim, claro. Não foi de propósito, ainda assim, penso. Pra ela talvez tenha sido.

As crianças me recebem com o carinho de sempre. Ganho abraço do C, que antes chorava pra entrar na escola. Tia, porque tem um pano na sua cabeça? É um turbante, pra enfeitar o cabelo. Faz em mim depois? Faço.

Chega a hora do intervalo, tem furdunço na sala dos professores. Sumiu um material que dividimos entre 5 professores. Ela me aborda. Tá com você? Não... Você sabe que não pode reter material, né? Não fica nada comigo, você sabe... Sempre divido com a professora que dá aula depois de mim. Pergunto aos outros 5. Nenhum foi abordado como eu fui.

No mínimo curioso. No acúmulo, estressante.

Lembro dos dias que cogitei com ela não ir trabalhar porque estava doente. Gritos. Lembro dos dias que o professor branco não foi porque precisava estudar. Sorrisos.

Saio no almoço pra evitar o ti-ti-ti. Encontro uma colega, conversamos, explodo um pouco, volto mais calma. Faço piadas, canto, brinco, jogo. Gosto dessas pessoas adultas que decidem gastar a vida em diálogo com gente pequenina, em formação. São todos no mínimo interessantes. No acúmulo, apaixonantes.

Ela volta, o assunto retorna, ela relata como me abordou. Os relatos não batem. Eu e minha amiga nos entreolhamos. Fico muito, muito cansada.

Começa a segunda jornada. Chegam as crianças. O R abre um sorriso e os braços quando me vê. Sorrio de volta. Não me gira, tenho medo. Não giro, querido, só se você quiser, tudo bem? A L chega um pouco atrasada, tem lágrimas nos olhos. Ainda não se habituou a dar tchau pro pai. Será que ele volta? Volta, meu amor, fica tranquila. Que pano é esse na sua cabeça? É um turbante. Eu gosto de roxo, é minha cor preferida... Faz um desse roxo em mim? Faço.

Intervalo. Fim de uma aula. Início de outra.

Chegam os alunos antes de mim, entro atrasada, estou cansada. Desculpa gente, estava pegando um cafézinho. De boa prô. Como foi a lição de casa? Pieceofcake, respondem todos juntos. Beleza. Corrigimos juntos, falamos de comida, de cozinhar, de profissões. Cozinheiro é tudo gay. Paro de falar imediatamente. Volto a falar. Você sabia que isso pode soar ofensivo pra pessoas que se identificam gays e que pode ter uma pessoa gay aqui entre nós? Desculpa, prô. Não pede desculpas, ou muda seu jeito de pensar sobre algumas coisas ou guarda pra você.

Hora do jogo, já muito cansada. Galera, se não fizerem silêncio não consigo explicar o jogo e a gente fica sem jogar. Desculpa, prô. Olha, presta atenção na mímica do amigo e tenta adivinhar a palavra. Vai, R, faz uma macumba aí. Um olhar grave domina meu rosto. Silêncio. Volto a falar. Você sabe o que significa macumba? Pacto com o diabo. De onde você tira essas coisas? Ah sei lá, prô, acho que é isso. Não é... macumba é festa, L, e isso que você está dizendo tem uma carga de preconceito contra religiões negras como candomblé e umbanda, é ofensivo pra mim e pra muitos brasileiros, cuidado com o que você diz. Desculpa, prô. Não pede desculpas, estuda as palavras que você usa e, ou muda seu jeito de pensar, ou guarda essas coisas pra você.

Quase desisto. Intervalo. Volto para a sala dos professores apesar de dever ficar junto dos alunos. Desabafo. Lê, você tá certa... Mas tem que manter a força. Esses professores... são no mínimo incríveis, no acúmulo, esperança.




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