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Primeiro ano de Trump: quantas ameaças cumpriu contra o México?

6ͣ rodada de renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN), com o aumento do superávit do México na balança comercial com os EUA e endurecimento de políticas anti-imigrantes.

segunda-feira 22 de janeiro| Edição do dia

Há um ano, o governo do México, as transnacionais e empresários locais pareciam conter a respiração. O dólar havia chegado a 22.04 pesos por unidade e alguns previam que chegaria a 25 pesos.

Trump parecia a soma de todos os medos: um cenário possível era uma saída intempestiva dos Estados Unidos do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN) e que a consequência fosse a explosão de uma grande crise econômica no México. Outro cenário era a deportação massiva de migrantes sem documentos e uma rápida construção do muro na fronteira.

Ao longo de um ano se manteve a incerteza, mas não a chegou a nenhum dos cenários catastróficos previstos. Vejamos.

Renegociação do TLCAN

Não tem cessado as ameaças de Trump de tirar os Estados Unidos do tratado. Das transnacionais estadunidenses se pronunciaram vozes contra suas propostas (entre as que se destacaram, as automotrizes), como a de passar os componentes regionais de 62% a 85% para as manufaturas.

Outros pontos conflitivos são um mecanismo de resolução de conflitos e uma cláusula de suspensão de cinco anos. Ainda que o governo de Peña Nieto está disposto a dar tudo de si para alcançar que prospere a renegociação.

No entanto o objetivo central de Trump é reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos, que entre janeiro e outubro de 2017 registrou um aumento de mais de 10% com o México e chegou a 59.276 milhões de dólares. Uma cifra que está acima do déficit que os Estados Unidos têm com o Japão, a terceira economia do mundo, e Alemanha, a quarta.

O certo é que além das ameaças de Trump, agora os 40% dos insumos com os que tem sido fabricados os produtos das maquilas vêm dos EUA, que logo que completam sua produção são importados aos Estados Unidos. É assim que 81% das exportações não petroleiras do México têm como destino o mercado estadunidense. E este por sua vez, depende dos insumos que adquire a indústria mexicana no gigante do norte.

Se trata de uma cadeia de valor difícil de romper, desenvolvida em grande medida a partir da implementação do TLCAN em 1994. Mas por sua vez não tem gerado nos últimos anos os lucros que esperavam as transnacionais do modelo neoliberal, baseado em um incremento da exploração trabalhista a nível mundial, o corte de prestações e a degradação das condições de vida das maiorias. A figura de Trump, com toda a sua imprevisibilidade e suas explosões, é a catalizadora dessa contradição.

Políticas anti-imigrantes de Trump

Ainda quando, como dizíamos acima, não se deram as deportações massivas, segundo dados do Serviço de Imigração e Aduanas, enquanto as deportações se reduziram 6% com respeito a 2016 se incrementaram as detenções de migrantes e das expulsões relacionadas com estas de ser de 27% do total no ano fiscal 2016 (65,332) a 36% (81,603) em 2017.

As autoridades estadunidenses deportaram no ano fiscal 2017 a 226,119 sem documentos frente aos 240,255 do ano anterior.

A respeito ao governo de Trump em particular, entre 20 de janeiro de 2017 e o 30 de setembro, a Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, sigla em inglês) deteve a 110,568 de migrantes sem autorização para residir nos EUA. Isto representa um aumento de 42% em comparação com as 77,806 pessoas arrestadas no mesmo período do ano anterior, com Obama no governo.

Outro foco vermelho foi o cancelamento do programa DACA (sigla em inglês), que protegia as deportações às pessoas que migravam para os EUA na infância. Trump deixo sem amparo cerca de 800 mil jovens sonhadores.

Ameaças contra cidades santuário e sobre o financiamento do muro com cargo aos Estados Unidos foram outros componentes da política anti-imigratória de Trump, uma continuidade das políticas de Obama, mas com um discurso xenófobo e racista. Com a política de terror as deportações e separação de famílias busca redobrar a exploração sobre os trabalhadores migrantes.

No entanto, concretizar aos 100% o programa anti-imigratório do magnata que tornou-se presidente faz um ano, também põe em risco às corporações estadunidenses.

A força social dos migrantes

27.6 milhões de migrantes são parte da poderosa classe operária estadunidense, 19.6 milhões têm residência legal e 8 milhões não. Constituem o 17,1% da força de trabalho do gigante do norte. Trabalham no setor agrícola e de silvicultura, em manutenção e limpeza de terrenos de construção, em construção e extração, produção industrial, entre outros setores.

Uma força social que é parte da multiétnica classe trabalhadora estadunidense e que é aliada potencial de 99%, das mulheres que lutam por defender seus direitos ante à ofensiva reacionária de Trump, os povos originários como os sioux e os tohono o´odham que se opõem ao muro e os mega-projetos, os trabalhadores que lutam pelo aumento de salários a 15 dólares a hora, os jovens afroamericanos que freiaram nas ruas a violência policial.

Diante da crise que vivem os Estados Unidos, México e América Central, social, política e econômica, diante do aprofundamento da exploração e o saque que preparam as transnacionais com Trump ou sem ele, tem uma saída.

Uma que favoreça aos milhões de trabalhadores que habitam os países que integram o TLC, só a partir de terminar com a exploração própria desse sistema capitalista a ambos lados da fronteira e a opressão imperialista dos Estados Unidos sobre o México, se poderá fazer realidade uma integração econômica, decidida e levada adiante em função dos interesses dos trabalhadores do campo e da cidade, em uma Federação dos Estados Unidos Socialistas da América do Norte.

O destino da classe trabalhadora e os setores populares no México e os Estados Unidos indissoluvelmente ligado. Como escreveu Leon Trotsky em 1936, no artigo “ Se os Estados Unidos se tornassem Comunistas”:

Os governos das Américas do Sul e Central se veriam atraídos por sua federação com o ferro pelo imã. O mesmo ocorreria com o Canadá. Os movimentos populares desses países seriam tão fortes que impulsionariam esse grande processo unificador em um brevíssimo período e a um custo insignificante. Estou disposto a apostar que o primeiro aniversário dos sovietes norte-americanos encontraria o hemisfério Ocidental transformado em Estados Unidos Soviéticos do Norte, do Centro e do Sul da América, com sua capital no Panamá. Assim, pela primeira vez a Doutrina Monroe adquiriria um peso total e positivo nos assuntos mundiais, ainda que não o previsto por seu autor.




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