Teoria

O PRAVDA DE LÊNIN

Pravda, um jornal para a conquista do poder (II): a Revolução e seu legado

Uma reflexão sobre como o jornal operário Pravda se transformou em um fator essencial para a vitória e o desenvolvimento da Revolução Russa. Seu legado segue sendo uma tarefa para os marxistas revolucionários.

terça-feira 2 de agosto de 2016| Edição do dia

Como já dissemos na primeira parte desta nota, o jornal operário Pravda se transformou no organizador coletivo dos bolcheviques nos anos anteriores à insurreição de Outubro e à toma do poder. Lênin teve que dar numerosas lutas políticas, tanto no interior do POSDR como dentro da própria fração bolchevique, para combater o conservadorismo e recuperar a dinâmica política. Considerava que era fundamental aproveitar o novo período de ascenso revolucionário – fruto da crise interna do czarismo que já começava a apresentar-se desde 1916 – e a forte oposição que era construída no front russo da Primeira Guerra Mundial. Mas como o jornal conseguiu, com toda sua rede de colaboradores e sua capacidade de chegar e mobilizar as massas, transformar-se em um fator essencial para a vitória da Revolução?

Depois de quase dois anos de censura, o Pravda começou a ser publicado novamente em 5 de março de 1917 com a Revolução de Fevereiro e a derrubada do Czar Nicolás II. O regime de governo foi substituído por um Governo Provisório, conformado por uma coalizão de representantes da burguesia parlamentar e apoiada pelos mencheviques. Uma semana depois, três dirigentes bolcheviques voltaram do exílio siberiano para se ocuparem da direção do jornal conformando uma junta editorial, eles eram Kamenev, Muranov e Stálin. O primeiro número foi distribuído de forma gratuita e, no dia seguinte, foram vendidos mais de 100.000 cópias do segundo número.

A revolução de fevereiro surpreendeu os bolcheviques em uma etapa de reconstrução de suas fileiras. A posição adotada pelo partido frente ao novo governo foi conciliadora e assim o Pravda expressou em suas páginas. O comitê editorial defendia apoiar o Governo Provisório “enquanto seus atos corresponderem aos interesses do proletariado e das amplas massas democráticas do povo”. Enquanto isso os correspondentes seguiam nutrindo o jornal com milhares de denúncias semanais. A informação proveniente dos soviets, órgãos de democracia direta, chegava desde toda Rússia demonstrando nos fatos o duplo poder que começava a apresentar-se como uma perspectiva real.

Com respeito à Primeira Guerra Mundial, o diário adotou uma postura marcadamente internacionalista refletindo as novidades do front mas também exigindo que houvessem “negociações com os proletários dos países estrangeiros para por fim à matança”. A leviandade das críticas (próprias da indecisão política da direção bolchevique que se encontrava na Rússia neste momento) se expressava sobretudo no crescente controle de Stálin sobre o Pravda. Isto vai ficar demonstrado na adoção da tese menchevique que defendia a necessidade de continuar a guerra para defender as conquistas democráticas frente ao imperialismo alemão.

O giro da imprensa (e do partido) em abril e a vitória de Outubro

Lênin decidiu voltar à Rússia em 3 de abril, depois de seu exílio em Zurique, para convencer pessoalmente seus companheiros de que o horizonte dos bolcheviques deveria ser: condenar o Governo Provisório e a guerra, por um lado, e explicar pacientemente às massas que o soviet de deputados era a única forma possível que pode ter um verdadeiro governo revolucionário. Até o momento de sua chegada, a ala esquerda do partido estava representada pelos operários dos bairros populares de Petrogrado.

Em 7 de abril, o Pravda (N° 26) publicou “Das tarefas do proletário na presente revolução” mais conhecida como as Teses de Abril, onde criticava publicamente tanto a visão etapista, defendida pelos mencheviques, como a velha formulação bolchevique de uma ditadura democrática de operários e camponeses. Em essência sua posição era a mesma que Trotsky tinha desenvolvido já fazia vários anos, em 1905, em Resultados e Perspectivas. Em suas Teses, Lênin também condenava a postura da direção do Pravda defendendo nenhum apoio ao Governo Provisório. Deveria-se “desmascarar este governo, que é um governo de capitalistas, em vez de defender a inadmissível e ilusória ‘exigência’ de que deixe de ser imperialista”. A partir deste momento, o Congresso do partido adotou por maioria as “Teses de Abril” apesar de que metade dos membros do Comitê Central estavam contra.

Desde sua chegada a Petrogrado, Lênin se transformou no diretor do Pravda até 23 de julho, quando teve que passar para a clandestinidade frente à ordem de detenção do governo. No entanto, em somente três meses conseguiu imprimir um novo caráter ao Pravda. Por um lado, o editorial começou a defender abertamente que o Governo Provisório era um governo “contrarrevolucionário” e, por outro lado, que o objetivo dos bolcheviques era lutar para construir uma república de Soviets de operários e de camponeses pobres em todo o país, desmascarando as direções reformistas que até este momento eram maioria nos Soviets. Esta nova marca vai se expressar na identificação absoluta do jornal com as estratégias do partido e na capacidade de chegada que vão ter nas massas por meio de sua extensa rede de colaboradores.

As eleições parlamentárias da Assembleia Geral Constituinte de setembro de 1917 foi um tema de debate no interior do jornal desde meses antes. Frente à oposição de alguns bolcheviques, para Lênin, o Pravda deveria refletir as eleições desde o ponto de vista marxista e da causa da classe trabalhadora, desmascarando os verdadeiros interesses da burguesia. Um exemplo claro da vitória de sua posição é que em 10 de junho saíram publicados três artigos que terminavam chamando a votar nos bolcheviques já que “nossos deputados devem distinguir-se propondo medidas a favor da classe trabalhadora, sem abandonar a luta extraparlamentária, que educa efetivamente a população, nem a mobilização que é onde reside nossa força real”. Assim, a imprensa operária se transformou na ferramenta do partido que permitiu expressar as eleições e a visão que tinham os comunistas das tribunas parlamentárias, à maneira revolucionária.

As numerosas denúncias dos correspondentes seguiam chegando aos milhares às redações e eram publicadas diariamente, mas os bolcheviques tinham dado um giro muito importante a partir da volta de Lênin, por isso começaram a explicar com clareza, simplicidade e em forma concisa (estilo jornalístico de Lênin) o programa do partido. Inclusive quando nas Jornadas de Julho aconteceram as manifestações armadas prematuras o Pravda explicava pacientemente que ainda não estavam dadas as condições para tomar o poder. O governo atuou golpeando os bolcheviques: fecharam sua imprensa, incendiaram sedes e detiveram seus dirigentes. Lênin novamente teve que permanecer clandestino até outubro. Por um curto período o Pravda desapareceu e foi substituído por uma grande quantidade de folhas clandestinas e depois por um novo jornal “legal” com nome diferente.

Em agosto volta a se acelerar o processo e os bolcheviques ganhavam as maiorias nos soviets. Lênin, junto com Trotsky, insistia em passar à ofensiva e preparar a insurreição apesar da negativa de dirigentes como Zinoviev e Kamenev. Em 10 de Outubro finalmente se votou a favor da tomada do poder e, apesar da censura governamental, o Pravda volta a ser publicado a partir de 24 de outubro, anunciando no dia seguinte a vitória da insurreição. Havia cumprido seu papel de organizador coletivo: passou de ser um simples meio de agitação para transformar-se em uma ferramenta fundamental para a estratégia revolucionária na Rússia.

Muitos se perguntaram: como é possível que, em um país como a Rússia que tinha mais de 70% de população analfabeta, um diário operário tenha conseguido alcançar tal influência nas massas? Trotsky respondeu na “História da Revolução Russa”: “os jornais bolchevistas eram lidos em voz alta, passavam de mão em mão, os artigos principais eram memorizados, eram transmitidos boca a boca, eram copiados, e onde era possível, eram reimpressos”. (Trotsky 1985 II 213)

As tarefas da revolução e o novo papel da imprensa operária

O horizonte pós-revolucionário estava cheio de novas tarefas, sobretudo vinculadas à reconstrução da economia. O Pravda foi um elo fundamental nesta época adotando um novo papel: o de educador das massas. A ruína econômica, os avanços e retrocessos no acordo de paz com a Alemanha e o desenvolvimento da guerra civil eram alguns dos aspectos mais complexos que o novo governo deveria enfrentar. Os operários e camponeses deveriam ter muito claro qual era a situação que a Rússia atravessava, não só para serem conscientes das dificuldades senão que também para transformarem-se em sujeitos reais do processo. Eram publicados informes de fábricas enviados pelos correspondentes, estatísticas e suplementos econômicos; se encarregou de organizar a produção e distribuição; foram reconhecidos os fracassos e emuladas as vitórias. Além disso, as novidades do front e o avanço do Exército Vermelho estavam na ordem do dia. Um homem da economia, como Nicolás Bukharin, se encarregaria de dirigir o Pravda pelos doze anos seguintes.

O Pravda se manteve como publicação oficial do Partido Comunista da União Soviética até 1991, mas a burocratização do stalinismo degenerou por completo seu papel revolucionário. Já desde os finais de 1923 Trotsky advertiu na imprensa os perigos da burocratização. Com a morte de Lênin o processo se acelerou; os debates políticos e econômicos deixaram de aparecer no diário e começaram a sair como “folhas de discussão interna” para acabar com os debates nas fileiras do partido. O espírito da crítica leninista havia sido traído.

A imprensa leninista e seu legado atual

O objetivo que a imprensa leninista tem é completamente diferente do que a imprensa burguesa tem, tanto naquela época como na atualidade. Inclusive os avanços nos meios de comunicação, e a renovação de seus suportes, permitiu acelerar os ritmos da informação e expressar mais facilmente a visão das classes dominantes.

Frente a isto, tanto desde o La Izquierda Diario [parte da mesma rede internacional do Esquerda Diário, na Argentina] como desde sua versão impressa, buscamos recuperar o legado de Lênin, trazendo ao leitor uma visão marxista da realidade social mas também propondo diferentes instâncias de organização.

Definitivamente, não pensamos a imprensa como simples transmissora de informação senão como organizador coletivo que desenvolva as melhores condições para a difusão das ideias revolucionárias, para a organização das bases nas fábricas, para ter mais ferramentas para combater a burocracia e, sobretudo, para a construção de um partido revolucionário, recuperando o legado que Lênin e Trotsky nos deixaram.

Tradução: Francisco Marques




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