Educação

DIA DO PEDAGOGO

Possível novo ministro da saúde ataca pedagogos. Contra Bolsonaro, lute como uma pedagoga!

Ítalo Marsili. Sabe quem é? Eu adoraria não saber. Adoraria que esse sujeito não tivesse absolutamente nenhum espaço para fazer ecoar suas ideias nojentas. Mas ele teve. Ele tem. Ele está cotado para ser o próximo Ministro da Saúde. E ele diz sem nenhum pudor que professores - principalmente os pedagogos - são burros, entre outras declarações escandalosas. Logo hoje, no dia do pedagogo. Mas Ítalo Marsili, se tem algo que professor não é, é burro. E você atiçou uma categoria que vai fazer você desejar nunca ter ousado falar sobre nossa profissão.

quinta-feira 21 de maio| Edição do dia

Veja mais sobre o caso aqui: ABSURDO: Bolsonarista cotado para Ministério da Saúde diz que pedagogos são todos burros

Professor é aquele trabalhador que já ouviu e lidou com todo tipo de absurdo de todos os governos - municipais, estaduais e federal, basta olhar que temos Weintraub como ministro da Educação, o que por si só é um ataque sem tamanho que dispensa comentários. É o profissional que precisa ouvir que tem que trabalhar por amor, e por isso tudo bem ter salários tão baixos e precisar se desdobrar em vários para dar aulas em diversas escolas, com jornadas extenuantes, para conseguir um salário que seja digno de sustentar uma família. Essas jornadas extenuantes que nos dividem entre as escolas e o trabalho em casa - sim, porque adivinha só: as aulas não vem preparadas caídas dos céus, nenhuma tarefa, prova ou trabalho, se corrige sozinha (somente as da Laureate, mas isso é história para outro artigo), e os dilemas dos nossos alunos não somem da nossa vista quando pisamos fora da escola, muito pelo contrário, perdemos o sono pensado em cada aluno que está passando por qualquer tipo de dificuldade ou sofrimento. Agora, em meio a essa pandemia, estamos com nossos corações apertados pela distância de cada aluno, pela notícia de cada morte que atinge nossos alunos, suas famílias, nossos colegas de trabalho. Nós estamos morrendo, Ítalo Marsili, nossos familiares, amigos, alunos, estão morrendo.

Veja também: Professores de São Paulo escrevem carta aberta à comunidade escolar: “Estamos ao seu lado”

Somos responsáveis pela transmissão de conhecimento para crianças e jovens. Questionamos sim esses conhecimentos, a forma como querem que apresentemos os conteúdos, e nos reinventamos diariamente para fazer isso da melhor maneira possível. Para apresentar para eles coisas que eles nunca viram, ou não sabem como funcionam, ou por qual motivo funcionam daquela maneira. Por isso vivemos em contínua formação, continuamente estudando, aprendendo, para passar adiante tudo da melhor e mais sensível maneira possível. É preciso ser justo e assumir que muitas vezes são eles que apresentam coisas novas para a gente, novas formas de ver o mundo, de entender o mundo. Fazem isso com suas vidas, suas formas de viver, de existir no mundo. Fazem isso porque vivem outras vidas, e nos apresentam suas realidades nos fazendo todos os dias voltar para casa sabendo um pouco mais de alguma coisa que não sabíamos antes de encontrar aquela criança, aquele jovem, com aquela vida, que te trouxe aquela novidade. Então não ouse abrir a boca para nos chamar de burros! Não há médico que tenha chegado a essa formação sem passar pelas mãos e ensinamentos de um pedagogo e de diversos professores.

A realidade é que sim, talvez haja muito amor envolvido nisso. Uma enorme paixão por dedicar cada célula do nosso corpo para ser parte da transformação desse mundo, da formação de outros seres humanos no melhor que eles podem ser, para eles e para o mundo. Essa enorme paixão que temos também ao defender nossos direitos. Não nos calamos nunca, não aceitamos passivamente cada ataque que insistem em nos aplicar. Somos a categoria que luta, a categoria que mais faz greve. Somos aqueles que em São Paulo, lotamos as ruas debaixo de chuva por semanas seguidas para gritar que não aceitávamos a reforma da previdência. Somos aqueles que no Paraná foram brutalmente reprimidos pela polícia, assim como infelizmente são comuns as imagens de professores sendo retirados da Câmara de São Paulo cobertos de sangue, porque literalmente damos nosso sangue para lutar por melhores condições para fazer justamente o que amamos fazer: ser professores. Não somos “o pior da sala” e por isso fizemos Pedagogia, até porque basta saber minimamente sobre educação para saber que essa classificação dos alunos não deve existir - coisa que claramente Ítalo Marsili não sabe. Somos aqueles que se dispuseram a passar a vida inteira estudando e enfrentar as péssimas condições de trabalho para que cada ser humano que passe por nós, cada criança, seja sujeito ativo da sua própria vida e possa decidir exatamente o que deseja ser e fazer.

E talvez em uma coisa esse sujeito tenha razão: estamos sempre cansados, porque não sabemos o que fazer. Não porque somos burros, mas porque estamos sempre preparadas para fazer e oferecer o melhor, mas a educação pública é cada dia mais precarizada e sucateada, e por isso improvisamos, reinventamos, nos viramos para fazer o que podemos com as péssimas condições que temos em mãos. Com escolas sem nem mesmo lousa na sala de aula, que dirá um laboratório de Ciências ou Informática, ou jogos e ferramentas que auxiliam no aprendizado. Estamos sempre cansadas porque dedicamos a vida a cobrir os buracos deixados pelo Estado. Estamos sempre cansadas porque lutamos diariamente por uma educação de qualidade. E agora, em meio ao isolamento social, no qual as escolas são as primeiras a pararem e serão as últimas a voltar, nos reinventamos mais uma vez, nesse absurdo EaD que estão impondo a nós e aos alunos. Mais uma vez, quando precisamos lutar pelas nossas vidas, também estamos lutando contra essa educação remota, em defesa da vida dos nossos alunos - que nem mesmo possuem acesso à internet - e de seus familiares, de nossos colegas, lutamos pelo adiamento do Enem, primeiro porque mantê-lo era um enorme ataque à juventude pobre das escola públicas, uma busca por elitizar ainda mais as universidades federais. Segundo, porque sabemos que o ranqueamento de jovens é absurdo e o ensino superior deve ser direito de todos e por isso é preciso acabar com o filtro social que é o vestibular e colocar todas as universidades sob controle dos estudantes, professores e funcionários, e à serviço da população e da classe trabalhadora. Mas Ítalo Marsili não está preparado para essa conversa.

O que eu quero dizer aqui é que, se por algum momento sequer nós não soubemos o que estamos fazendo e isso nos cansa, a culpa é daqueles que atacam nossos direitos, que precarizam nosso trabalho, que nos obrigam a trabalhar extenuantemente em péssimas condições. Mas seguimos. E seguimos lutando. Ouve-se muito, sempre que há uma luta de professores, que ser professor e não lutar é uma contradição pedagógica. A nossa realidade prova a veracidade dessa frase. Falem o que quiser, seguiremos lutando, contra todos que nos atacam, em defesa de uma educação pública, gratuita, de qualidade. Em defesa das nossas vidas e das vidas dos nossos alunos.

Não fosse eu pedagoga, diria que Ítalo Marsili é quem é burro, mas eu sei que isso não existe, essa categoria de pessoas “burras” ou “inteligentes” é somente mais uma forma do capitalismo de categorizar a juventude dividindo-a entre aqueles que serão trabalhadores precários e aqueles que seguirão em profissões de prestígio. Esse sujeito não é burro, ele é apenas mais um homem de extrema-direita, um reacionário machista e racista, que não deveria nem ser levado a sério. O bom é que seu pouco conhecimento sobre nós, pedagogos e demais professores, o faz não perceber uma coisa muito importante: nós somos incansáveis na luta, vamos passar por cima de Bolsonaro, Mourão, os militares e todos esses sujeitos reacionários e, lado a lado com a classe trabalhadora e a juventude, construiremos um mundo novo, uma nova sociedade, onde suas vozes reacionárias não terão espaço para ecoar. Lutamos diariamente, mas não lutamos de qualquer jeito. Lutamos como pedagogas!




Tópicos relacionados

Ministério da Saúde   /    Ministério da Educação   /    Educação

Comentários

Comentar