Cultura

MÚSICA

Pós-tropicalismo: a flor apunhalada nos "anos de chumbo"

Fim do tropicalismo em 1968. Três da madrugada na música popular brasileira. Morte, despedida e desespero nas canções "noturnas" da primeira metade da década de 1970.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

segunda-feira 12 de setembro| Edição do dia

Entre bombas, contracultura, protestos, Bumba Meu Boi, LSD, Brigitte Bardot, rock psicodélico e a antropofagia de Oswald de Andrade, surgem em 1967 o ambiente "Tropicália" do artista plástico Hélio Oiticica, a montagem da peça teatral "O Rei da Vela" pelo Teatro Oficina, o filme "Terra em Transe" de Glauber Rocha, o livro "PanAmérica" do escritor José Agrippino de Paula e as canções "Alegria, Alegria" de Caetano Veloso e "Domingo no Parque" de Gilberto Gil. Experiências mais ou menos espontâneas que serão chamadas de Tropicalia ou tropicalismo.

Em outubro de 1968, Caetano, Gil, Os Mutantes e Hélio Oiticica estenderam a bandeira-poema com a inscrição "Seja Marginal, Seja Herói" (uma homenagem do artista plástico ao amigo "Cara de Cavalo", morto pela polícia) nos shows que realizaram na boate "Sucata", no Rio de Janeiro. A bandeira de Oiticica denunciava o papel dos "Esquadrões da Morte" nos morros e periferias durante a Ditadura Militar-Burguesa instalada no Brasil em 1964.

No dia 13 de dezembro de 1968 é decretado o Ato Institucional n 5, o AI-5, quinto decreto da ditadura que deu plenos poderes ao marechal Costa e Silva para manter a ordem e o progresso capitalistas. O Congresso Nacional foi fechado e os direitos democráticos foram cassados. O AI-5 foi uma intensificação brutal da ditadura.

Na antevéspera do natal deste ano fatídico, Caetano aparece cantando "Noite Feliz" com uma arma apontada na cabeça, no programa "Divino Maravilhoso", da extinta TV Tupi. A crítica irreverente, o deboche e o experimentalismo estético e comportamental do tropicalismo incomodaram. No dia 27 de dezembro de 1968 Caetano e Gil são presos e depois exilados em Londres. A prisão e o exílio dos cantores e compositores baianos marcam definitivamente o fim do tropicalismo (depois do exílio e das reuniões com os magnatas da comunicação, Gil e Caetano ficaram "bem comportados").

No final de 1969 o general Emilio Garrastazu Médici assume o poder com o apoio dos setores "linha dura" das Forças Armadas. Médici governou de 1969 à 1974. São os "anos de chumbo" para a classe trabalhadora e as organizações de esquerda e do "Milagre Econômico" para os grandes capitalistas. O Brasil foi tri-campeão na Copa do Mundo no México em 1970. O hino da Copa foi martelado na cabeça dos noventa milhões de brasileiros: “Pra frente Brasil!". "Ninguém Segura Este País", "Ameo-o ou Deixe-o", diziam os militares.

A censura foi institucionalizada no governo Médici. Toda produção intelectual e artística era obrigada à passar pela sala do censor antes de ir para a rua. Assim como a Tropicalia, diversas manifestações estéticas que surgiram no anos 1960 foram estranguladas ou diluídas nos "anos de chumbo" do "milagre econômico". De um lado o "pau de arara", do outro, as emissoras de TV exigindo uma arte pasteurizada. Alguns incendiários viraram bombeiros e outros morreram em chamas. Como alertava o cantor e compositor Jards Macalé na música "Gotham City", "há um morcego na porta principal".

Fim do tropicalismo e início da contracultura no país, período também chamado de "pós-tropicalismo". As ideias "hippies" fizeram a cabeça de setores da juventude brasileira. No lugar das canções de protesto e da crítica ruidosa dos tropicalistas ("Soy Loco Por Ti América", "Marginália II", "Enquanto Seu Lobo não Vem" etc), entra em cena o pacifismo, o hedonismo e o rock psicodélico. Mas se nos EUA foi possível propor o "Verão do Amor" em 1967, no Brasil da primeira metade dos anos 1970 a contracultura se deparou com os fuzis dos "milicos", e não era fácil pendurar flores nas baionetas.

Aqui o som das guitarras serviu de pano de fundo para algumas letras que falavam de morte, despedida e desespero, conforme Paulo Henriques Britto, em "A Temática Noturna no Rock Pós-Tropicalista" (extraído de Do samba-canção à tropicalia). A partir das indicações do autor, selecionamos três músicas produzidas no começo dos anos 1970 que expressam esta "temática noturna". São elas: "O Crime", de Jards Macalé e José Carlos Capinam; "Filme de Terror", de Sérgio Sampaio e "Vapor Barato" de Jards Macalé e Waly Salomão.

Em 1970 é lançado o compacto "Só Morto", primeiro trabalho de Jards Macalé. "O Crime", segunda faixa do compacto, é a mais soturna. "É um quadro em chamas/Apunhalado/Romantico antiquado/As mãos no peito/Um fio de sangue". Nenhuma referência direta ao terror ditatorial, mas o clima de morte e melancolia está presente. "Meu amor ferida numa velha imagem/De uma flor apunhalada/Era tão romantico/Tão antiquado/O quadro do crime/O jeito como ferida a mão no peito/Como a vida meu amor morreu". Delicado o amor morreu. A flor foi apunhalada. Macalé e Capinam pintam a beleza destroçada.

"Vapor Barato", de Jards Macalé e Waly Salomão, ficou muito conhecida na voz de Gal Costa, gravada ao vivo no álbum "Fatal - Gal A Todo Vapor", de 1971. Para Henriques Britto, talvez esta seja a canção que melhor capte o contraste entre a contracultura desenvolvida nos EUA e o clima de desesperança vivido no Brasil. Uma combinação de desânimo, incerteza e despedida: “Ah, sim, eu estou tão cansado / mas não pra dizer / que eu estou indo embora / talvez eu volte / um dia eu volto / quem sabe”. O amor não se realiza (“não acredito mais em você”). O exílio ou o "pé na estrada" é o horizonte (“vou tomar aquele velho navio”). Um hino para a juventude "outsider" que viveu o pesadelo da era Médici.

Segunda faixa do álbum “Eu quero é botar meu bloco na rua” (1973), do cantor e compositor Sérgio Sampaio, "Filme de Terror" também expressa estes anos difíceis. "Hoje está passando um filme de terror/Na sessão das dez, um filme de terror/Tenho os olhos muito atentos/E os ouvidos bem abertos/Quem sair de casa agora/Deixe os filhos com os vizinhos". Sampaio pinta um cenário de medo. "O meu sangue jorra e borra de terror/Com quem dança e ama agora o meu amor?/Bruxas, medos e suspiros/Dentes, pelos e vampiros/Quem ousar deixar de lado/ Abra os olhos com os vizinhos".




Tópicos relacionados

cultura   /    Arte   /    Música   /    Cultura

Comentários

Comentar