Teoria

DOSSIÊ TROTSKI - 76 ANOS

Porque o estudo de Trotski pode ajudar a pensar a crise econômica hoje

Trotski, o político, o historiador e o revolucionário, deixou algum legado a ser levado em conta na análise da economia capitalista?

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 16 de agosto| Edição do dia

O mundo encontra-se mergulhado em grave crise, com a economia dos países centrais rastejando em baixo crescimento, enquanto está em marcha a desconstrução do equilíbrio virtuoso – para o sistema – que se estabelecera entre as duas decisivas economias, China e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que a economia como um todo emite sinais de que a colossal injeção de recursos públicos, pós-2008, longe de afugentar a crise, a agravou.

Com que ferramentas analíticas examinar esse quadro?

Trotski, ao analisar a economia capitalista internacional de seu tempo [dos anos 20 e 30], e desenvolvendo aspectos de O capital para as novas condições e apoiado na teoria do imperialismo de Lenin, deixou pistas que, obviamente, embora não sendo respostas para hoje, mas são chaves analíticas importantes para a compreensão da dinâmica econômica do nosso tempo.

É certo que vários economistas do campo marxista formularam contribuições para uma fecunda análise da crise atual, a exemplo do último Chesnais, de D. Harvey, de A. Shaikh, de I. Joshua e tantos outros, no entanto, nos deparamos com uma lacuna: o debate e o resgate das ferramentas de análise de Trotski sobre a economia imperialista, sendo que ele viveu e analisou o crack em tempo real e tem inúmeros outros textos sobre a economia mundial. A 76 anos do seu assassinato é muito importante ter em conta a importância desse resgate.

As crises cíclicas do capitalismo não mais se dão como antes da era do imperialismo, quando sua curva era ascendente. Em primeiro lugar porque elas se dão 1) nos marcos de um sistema decadente, sumamente parasitário e atolado no desperdício de forças produtivas, e em um sistema que 2) apenas sobrevive a si próprio enquanto puder contar com o elemento político crítico das derrotas do campo proletário. É como se fosse um paciente de UTI, em respiração irregular, na base de aparelhos [intervenção maciça de dinheiro público, crédito estatal etc] e que depende de favores externos para seguir vegetando/destruindo forças produtivas, cobrando um custo cada vez mais alto à humanidade pela sua sobrevivência vegetativa.

Os textos de Trotski examinam esse pano de fundo da economia em todas as direções.

Quando mergulhou na catástrofe da I Guerra, o capitalismo foi salvo pela social-democracia [II Internacional], em seguida, ao mergulhar no crack de 1929, dele saiu jorrando astronômicos gastos públicos no setor bélico e após a grande catástrofe da II Guerra, ao tratar de se “reconstruir”, ei-lo novamente dependente dos favores políticos decisivos das direções burocratizadas do movimento comunista mundial [stalinismo]. De saída, os grandes PCs barraram a revolução proletária em, ao menos, dois países imperialistas, Itália e França, onde o poder estava nas mãos dos comunistas [que emergiam da guerrilha de resistência contra os nazistas], na prática.

Em plena era de crises [bolhas, estagnação, ameaça de crack econômico; em meio a guerras como O. Médio, Afeganistão, Síria; convulsões como a “primavera árabe”], o capitalismo já não mais opera automaticamente a economia [na base da lei do valor livremente operante] mas, diante de dificuldades históricas para a valorização do capital [típicas da decadência, da queda da composição orgânica do capital ativando a lei da queda tendencial da taxa média de lucro], depende sumamente dos movimentos da geopolítica [fricções inter-Estados], também da ação estatal na economia [mais que nunca na finança e sempre a serviço do grande capital] e, acima de tudo, necessita conter a todo custo a luta de classes, única esfera de onde pode vir o golpe mais letal contra o sistema do capital.

Por isso vive em equilíbrios mundiais – na economia, geopolítica e política – que se fazem e se desfazem, e que devem ser entendidos em toda clareza pela classe trabalhadora quando arma sua estratégia para vencer. A política, seja entre Estados, seja na luta de classes, ganhou clara primazia sobre os ciclos econômicos [ao contrário do que imaginavam Kondratiev e E Mandel].

Sem as derrotas políticas do último ascenso, dos anos 1960-70 [onde pipocaram revoluções na França, 1968, em Portugal, 1974, e se deu a degeneração burocrática dos Estados operários e, finalmente, sua queda pela ação contrarrevolucionária da burocracia] a ofensiva neoliberal na econômica, contra o proletariado seria impensável. Nem o crescimento neoliberal [apoiado em superexploração da força de trabalho na Ásia, México etc] e tampouco o boom do pós-II Guerra existiriam a partir de razões puramente endógenas, na condição de ciclo econômico em si.

Os textos de Trotski que se ocupam da análise da economia política do capitalismo global foram cuidadosamente compilados pelo Ceip-León Trotsky [ver O capitalismo y su crisis-compilación L Trotsky, 2008, Buenos Aires] têm sido fonte de inspiração para autores como P Bach, J Chingo, E Mercatante e outros que auscultam os movimentos da economia capitalista, avaliam subperíodos, tensões e tendências na economia e suas janelas de oportunidade para a luta de classes, o proletariado revolucionário.

Vem de Trotski a explicação de que nenhum equilíbrio econômico capitalista do nosso tempo [portanto do tempo do seu declínio histórico] pode ser mais que transitório, instável e totalmente dependente do mais profundo parasitismo [financeirização, dívida pública, narcoeconomia etc], da destruição de forças produtivas [“queima de capitais”] – como se deu recentemente no Leste, na Rússia etc – e das debilidades estratégicas do seu inimigo de classe, o proletariado [Como se expressou através das direções de massa do CNA na África do Sul, do PT aqui, do Syriza na Grécia e assim por diante, que adotam posições funcionais para o sistema, assegurando sua sobrevivência]. É assim que vem funcionando o capitalismo desde a I Grande carnificina de 1914-18, acumulando contradições que tensionam no rumo de mais crise, adiando outras, acumulando contradições brutais, degradando o meio ambiente e destruindo a vida humana e em geral.

Trotski é o marxista clássico que viveu o tempo de revoluções e contrarrevoluções e que, metodologicamente, primeiro chamou a atenção para o fato de que o capitalismo organicamente global e mais sistêmico que nunca, sobrevive na economia de forma qualitativamente distinta de antes. Keynes vai teorizar na perspectiva de que o capitalismo não mais sobrevive sem que o Estado trate de salvá-lo das crises, agora estruturais, a qualquer preço [Hitler e Roosevelt, nesse sentido são contrafaces da mesma moeda; sendo que Hitler foi mais efetivo que o New Deal de Roosevelt, e este só foi realmente efetivo quando imitou aquele; e hoje, a resposta do sistema à crise que se arrasta desde 2008 tem muito dessa ideia: dinheiro público]; mas será Trotski a mostrar que a burguesia perdeu a vitalidade histórica e vive da fraqueza estratégia das forças da esquerda e, sobretudo, demonstra o quanto a classe operária pode decidir nesta fase em que o equilíbrio do sistema – também na economia – é instável.

A análise de Trotski vai nessa perspectiva.

“Podemos considerar que Trotski, no terreno do estudo da dinâmica do capitalismo retomou a base lógica das tendências ao estabelecimento e ruptura do equilíbrio do capital em estado puro de Marx, como método ou como forma particular de movimento de um sistema, para analisar as tendências de todo o sistema capitalista em seu conjunto, tomando a economia, a luta de classes e a relação entre os Estados como os fatores que se inter-relacionam dialeticamente no movimento que permanentemente define as tendências equilibrantes e desequilibrantes. Trotski, mesmo sem ter elaborado de forma acabada uma sistematização, procurou se aproximar de uma interpretação mais concreta das tendências fundamentais que na época atual estabelecem e rompem as tendências ao equilíbrio capitalista. É por isso que seus escritos sobre a natureza e a dinâmica do capitalismo de nosso tempo constituem ferramentas de um valor inestimável para quem queira abordar de maneira sensata a viragem histórica dos acontecimentos que abrem passagem sob os nossos olhos” [Paula Bach].

Quando lembramos de Trotski nos 76 anos do seu desaparecimento, não é demasiado lembrar que as grandes questões do nosso tempo – na geopolítica mundial por exemplo – não são as do tempo de Trotski, claro, mas deixar de resgatar suas ferramentas metodológicas – sem dogmas – empobrece nossa capacidade para avaliar judiciosamente nosso tempo na perspectiva da revolução proletária.

G Dantas, Brasília, 15/8/16
Referência: El capitalismo y su crisis, L Trotsky [compilación].




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