Política

SEGUNDA TRANSIÇÃO

Porque fracassou a aposta do Podemos de um “governo de progresso”?

O pacto PSOE-Cs mostra que “o velho” trata de impor as premissas mais conservadoras possíveis a nova transição. O novo “compromisso histórico” do Podemos vive a explosão de sua “bolha pós política”. Quais são as tarefas para os que seguem lutando contra o regime de 78 e por uma saída operária para a crise capitalista?

sábado 27 de fevereiro de 2016| Edição do dia

FOTO: EFE

Desde o anúncio do pacto firmado por Sanchez e Rivera se escreveram rios de tinta sobre se este chegaria a conformasse em um futuro governo, com a abstenção do PP, ou se é uma mera tomada de posições para disputar-lhe o Podemos e o PP respectivamente frações do eleitorado de cara a novas eleições.

Não vou neste artigo analisar as possibilidades de que se abra passo uma ou outra hipótese, se bem cada dia me pergunto mais porque teremos comícios no verão. Tampouco reproduzirei o dramatismo com o que vive os jornalistas da câmara, tertulianos de todo tipo e os dirigentes políticos de um ou outro extremo das cortes está ingovernável.

Para aqueles que estamos por acabar com o regime herdeiro da ditadura e os planos de seguir descarregando a crise sobre nós, as preocupações deveriam ser outras.

Um “empate” mais aritmético que “catastrófico”

Iñigo Errjón se referia há algumas semanas a este panorama como um “empate catastrófico”, em que “o novo” ainda não tem força para impor-se e “o velho” tampouco é suficiente para seguir sobrevivendo a si mesmo. Um novo “abuso” de Errejón de uma categoria de Gramsci, mas que pode servir ao menos como metáfora para entender de onde orientam-se os dirigentes “do novo”.

Sua maneira de resolver este “empate” tem sido desde o princípio a pesquisa de um pacto com grande parte “do velho”, que conseguiu restaurar a legitimidade perdida do atual regime político. O mesmo Errejón definiu esta estratégia como a pesquisa de um novo “compromisso histórico”. Esta vez sim, fazendo “uso” de uma categoria do stalinismo italiano do pós guerra e o eurocomunismo dos anos 70 que foi o sustento “teórico” do pacto de 78 entre os dirigentes do antifranquismo com os franquistas e a coroa.

O que temos visto nesses dias de breves negociações entre o PSOE e Podemos, IU e as confluências, tem sido um intento, pelo momento fracassado, de forjar um pacto que renovasse o de 78. Por parte “do novo”, disposição não tem faltado. As demandas democráticas estruturais já haviam sido umas estaconadas antes do 20D – como a questão da coroa, a dissolução do senado, a audiência nacional... – e outras iamno caminho dele – como o referendo catalãoque Gárzon já se adiantou a decidir que não podia ser obstáculo para o acordo-. Sobre o programa social mais do mesmo, Podemos nunca aspirou aplicar um programa anti-capitalista, isso é o certo, mas é que diante das demandas como a reestruturação da dívida ou uma negativa acentuada a aplicar o 10.000 milhão extra de cortes que pede Bruxelas, tem estado por fora da mesa repartida em quatro. O modelo “Tsipras” era o inspirador de Iglesias e Gárzon, é dizer fazer reformas até onde a troika deixe.

Sem embargo, o que passou? Porque “o velho” não concorda em assumir o desafio “do novo”? De onde vem essa “ingratidão”? Afinal, o PSOE tinha optado por um pacto com os Ciudadanos, uma criação do IBEX35 e o grupo Prisa para facilitar uma restauração do regime em chave conservadora. O acordo firmado entre ambos partidos é uma combinação de reformas políticas cosméticas e falsas promessas de reformas sociais condicionadas a manter as políticas de ajustes por um lado, e manutenção do essencial da “obra” de Rajoy (reforma laboral, ley mordaza, LOMCE...), aprofundamento dos ataques (sobretudo, por meio, do barateamento das demissões, copagagos...) e fechando em regiões de questões centrais como a catalunia.

Com o que não contava Iglesias e Errejón é que o “empate” para que pudesse ser sentido como “catastrófico” pelo “velho”, deveria transcender o empate aritmético nas cortes. Hoje, a desmobilização dos trabalhadores, juventude e dos setores populares, imposta pela burocracia sindical e promovida pelo novo reformismo, os vem a julgar contra. A crise do regime de 78 se tem aprofundado “por cima”, porém a diferença do 2011-12, “por baixo” os serviços de Toxo, Mendez em primeiro lugar, e Iglesias, Colau, Errejón, Carmena... já a deixou suficientemente tranquila como para poder permitisse ao intento de que a transição 2.0 parta das premissas mais conservadoras possíveis. Na Catalunia tem sido os Mas e Puigdemont, com a permissão do resto do bloco soberanista, os que tem cumprido este trabalho desmobilizador, e “mica em mica” vão pavimentando o terreno para uma integração do “processo” na futura “regeneração”, se lhes deixam claro.

Quando a pós-política choca com a dura realidade das forças sociais ou sua ausência

O fracasso do Podemos para alcançar um “governo de progresso” com o PSOE explica-se, pois suas próprias debilidades como representante “do novo” e em certa “arrogância” e superficialidade no exame de seus referentes históricos. Iglesias e Errejónnão escondem sua admiração pelo PCE de Santiago Carrillo e sua “contribuição ao reestabelecimento da democracia”. Porém sua intenção de emulação é sobre concepções da pós-política que dão mais valor ao discurso e as estratégias de comunicação, que as forças reais da sociedade.

O PCE baseou sua hegemonia política no anti-franquismo, em seu trabalho na clandestinidade, na construção das CCOO, as greves dos 60, 70, o movimento estudantil, anos de cárcere e perseguição, o movimento local.... Essa era a força social que dirigia, e que aprendeu a utilizar não para impor uma ruptura política e uma transformação social, senão para conseguir um furo na mesa de negociação com o governo Suárez. Na verdade, enquanto isto não foi assim, o LCD deixou correr a mobilização contra o governo Arias, isso se sempre controlada para evitar que se escapasse de seu controle como se sucedeu em algumas ocasiões. Se os franquistas aceitaram adicionar ao festim da transição aos "comunistas" foi porque eram fundamentais para frear a rua e sobre tudo os centros de trabalho. Carrillo sabia fazer com uma carta valiosíssima que pode trocar.

Hoje, Podemos que emular Carrillo, porém somente na segunda parte de sua façanha. Se pretendeu inutilmente substituir as lutas contra a vertical, as greves operárias, o Ascenso de lutas de 1976... por minutos de televisão e proteção midiática. A bolha da vídeo-política parece que tem se instalado. O "empate" no dia de hoje é mais "catastrófico” para seu projeto de integração tranquila em um novo "compromisso histórico", que para o próprio regime que, enquanto, está controlado todo "por baixo", está buscando os agentes e maneiras para uma regeneração conservadora.

Por que caminho optar? Recorrer para chamar ou impulsionar a mobilização? É uma hipótese que não se pode descartar. Agora bem, sua negativa a construir-se como um partido orgânico dos setores que tem sofrido com a crise, especialmente entre os trabalhadores, e sua aproximação a burocracia sindical, deixa difícil. Suas possibilidades para fazer são muito menores que as do PCE dos 70. Suas capacidades para controlar uma mobilização que não transborde também. E por tudo isso, sua vontade de empreender este caminho é altamente duvidosa. Porém, e disto já sabe Ada Colau, se a mobilização social se repreende seguramente combate com as parcelas da gestão institucional nas mãos dos do "câmbio" que reproduzem a política de "casta" e adiante seus discursos anti-greve.

Os trabalhadores e setores populares são os únicos capazes de "desempatar" em favor das grandes maiorias sociais.

O que não cabe dúvida é que nesta segunda Transição não pode seguir tendo para os trabalhadores e setores populares como convidados de pedra. Milhões deles votaram para Podemos ou IU-UP, e antes as "candidaturas ciudadanas" nas municipais, com a ilusão de que o novo reformismo resolveria grande parte dessas demandas democráticas e problemas sociais. A experiência com estes projetos políticos não vai a ser imediata, e incluso o fracasso das negociações pode levar a um giro a esquerda no discurso (sobretudo se se repetem as eleições), porém já existem setores que estão sofrendo com os limites do mesmo, como os trabalhadores de TMB em Barcelona.

Retomar a mobilização social, especialmente da classe trabalhadora, é essencial para reativar a crise “por baixo” do regime de 78 e para colocar freios aos novos ataques que se envencilham , como os combinados agora pelo PSOE com Cs, ou as exigências de Bruxelas. A situação “paralisia” e crise “por cima”, é um elemento a favor para que se possa reemprende-la a “crise por baixo”, por isso chora tanto El País, o período de excelência do regime de 78. Esta mobilização é uma condição necessária para poder desenvolver os planos de transição 2.0 em chave conservadora como a que defendia Sánchez, Rivera e Rajoy.

Porém, pela outra versão deste filme ruim tampouco tem nada que oferecemos. O novo “compromisso histórico” que defende Podemos, IU e as confluências, é uma emulação senil do pacto entre PCE com os franquistas e a coroa em 1978. Reeditar um novo ”consenso” que deixe de novo na gaveta questões como o fim da monarquia, o direito da auto-organização ou acabar com a casta política, e que na essência respeite os fundamentos das políticas econômicas e sociais que estão descarregando a crise sobre os trabalhadores e as maiorias sociais.

Por ele retomar o caminho da organização e mobilização dos trabalhadores, de luta contra a burocracia sindical, de reativar o movimento estudantil, as mobilizações pelo direito a decidir as nacionalidades, contra o regime e a “casta”... devemos aglutinar na perspectiva de luta pela abertura de um verdadeiro processo constituinte libre e soberano, e não um pacto por cima entre os dirigentes do “novo e do “velho”. A luta para impor uma assembleia constituinte desde a mobilização operária e popular é o melhor antidoto contra as intenções de colarmos uma nova transição seja na versão “conservadora” ou de “progresso”.

Realmente, este é o único caminho para abortar um novo desvio histórico como o que se prepara, e fortalecer nesse processo a capacidade de luta e organização da classe operária para poder abrir o caminho a uma saída de fundo para as grandes demandas democráticas e sociais, um governo dos trabalhadores e dos setores populares.




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