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Tribuna Aberta

Porque ainda precisamos fazer testes massivos para a detecção do coronavírus

Reproduzimos a continuação do artigo publicado no site fivethirtyeught do Estados Unidos que explica a importância de realizar massivamente testes para detectar o contágio do coronavírus, e como o distanciamento social e outras medida, não são suficientes se não realizar junto com outras medidas que permitam ter dados confiáveis para otimizar os recursos para limitar a pandemia.

sexta-feira 20 de março| Edição do dia

A resposta ao novo coronavírus (COVID-19) nos Estados Unidos mudou drasticamente durante as últimas semanas, com o presidente Trump declarando emergência nacional e com múltiplos estados e cidades sendo virtualmente fechados. Mas uma coisa não foi mudada: Estados Unidos ainda tem poucas evidências para realizar testes de coronavírus. Ainda que a administração diz que os suplementos tenham aumentado, muitos estadunidenses doentes ainda tem problemas para encontrar uma maneira de saberem se também estão contagiados.

Houve claros benefícios no aumento de testes realizados no começo da propagação do vírus. Porém, agora passado o período, poderia parecer que os testes são menos prioritários, a menos em áreas onde o vírus já está muito estendido. Afinal, se nos comportarmos como se todos que nos rodeiam já tenham COVID-19, como dito por oficiais da cidade de Nova York para delegados da ONU deveriam, por que necessitamos saber quem tem realmente?

Porém, ainda há muito que se pode aprender, e vidas que podem serem salvas, pelo aumento da quantidade de testes em todo o país imediatamente. De fato, as medidas de distanciamento social que estão sendo adotadas neste momento compensam tanto o fato de não haver sido realizado testes antes como são para frear a propagação do vírus.

Apresentamos aqui quatro argumentos do porquê a extensão das provas são ainda um passo crítico em nossa defesas contra o coronavírus:

Testes ajudam a atribuição de recursos

“Esta é uma forma básica de vigilância da enfermidade” diz Gregg Gonsalves, epidemiologista de doenças microbianas da Universidade de Yale. “ Não podemos começar a controlar esta epidemia a menos que sabemos onde está e quantos casos temos”

Gonsalves diz que testes indicam aos oficiais onde atribuir recursos. Não temos fornecimento ilimitado de coisas como respiradores, que podem serem usados para ajudar a tratar casos severos da infecção. Se sabemos as regiões onde serão mais afetadas agora e nas próximas semanas, podemos atribuir fundos federais e fornecimentos a estas regiões para que possam administrar uma maior cuidado, diz Gonsalves.

E ainda que pareça óbvio que uma área densamente povoada como a cidade de Nova York provavelmente tenha um índice de infecção maior que um condado em Montana, Gonsalves diz que a quantidade de habitantes não é um preditor suficientemente bom de onde a doença atacará mais forte ou primeiro.

“ Poderia ser Nova York, Poderia ser Los Angeles, Poderia ser Chicago, Poderia ser St. Louis”, diz Gonsalves. “ A população não é uma boa forma de prever quem terá omaior número de casos per capita”.

Poupar tempo e equipamentos em hospitais

Além de permitirmos atribuir melhor os recursos, e sabermos quem está ou não infectado com o vírus, permitirá aos hospitais utilizarem os equipamentos e suplementos que já tem de maneira mais eficiente, segundo o Dr. W. Grahan Carlos, chefe de medicina interna da Eskenazi Health em Indianápolis.

“ Quando alguém chega no hospital sem um diagnóstico positivo conhecido, temo que descartá-lo”, diz Carlos.

Enquanto esperam os resultados das provas, os pacientes têm que serem tratados como se estivessem infectados, diz Carlos, o que significa que os trabalhadores da saúde tem que usar equipamentos de proteção pessoal como roupões, luvas e máscaras faciais sempre que tratarem com os pacientes. Se um paciente não ter COVID-19, esses suplementos poderiam ter sidos guardados para alguém que realmente o tenha.

Se testes massivos forem realizadas fora do entorno do hospital - como em testes móveis através de carros como é realizado na Coreia do Sul - não pouparia apenas equipamentos, se não também um tempo valioso para os trabalhadores dos hospitais que tratam pacientes críticos, diz Carlos.

“Se já sabemos quem é positivo, isso também pouparia tempo”, diz Carlos. “ Temos tratamentos e dados que chegam online e poderíamos sermos mais aptos para fazer essas coisas se já tivermos o diagnóstico”.

Fazer o distanciamento social mais efetivo

Distanciamento social, um termo já conhecido que muitos de nós não havíamos ouvido falar até umas semanas, tem sido uma das principais ferramentas desdobradas para ajudar a frear a propagação do COVID-19 e “ achatar a curva” de seu impacto.

Porém o distanciamento social é uma prática voluntária, com o qual muitos estadunidenses não podem ou não querem lidar nesse momento. Uma forma de encorajar mais pessoas a quarentena em casa, ou ao governo iniciar a fechar as coisas, é dizer aos estadunidenses exatamente o quão grave é o surto. Por mais que muitos lugares dos Estados Unidos tenham começado a promulgar medidas para limitar as reuniões sociais, como fechamento de bares, restaurantes e teatros, não é uma prática universal. Sem saber onde está se propagando o vírus, não podemos dizer se as localidades que deveriam estar fechando o estão fazendo.

Também está o fato de que, eventualmente, vamos querer voltar a sair. Na medida em que os protocolos atuais começam a relaxar, pode surgir uma segunda onda de infecção, especialmente se não temos uma boa ideia de onde e quantos casos temos nos Estados Unidos, diz Dr, Eli Perencevich, professor de medicina e epidemiologia na Universidade de Iowa.

“Não podemos manter o distanciamento social para sempre”. diz Perencevich. “Assim que temos que aumentar as provas rapidamente”

Tanto Perencevich como Gonsalves dizem que as medidas que estão sendo tomadas pelo governo na atualidade são na realidade uma forma de recuperar o tempo perdido por não ter sido feitos testes massivos antes. Disseram que se não ampliarmos rapidamente os testes agora, todos que esta quarentena e cancelamento de eventos esportivos podem ser em vão, porque ainda não sabemos o quão ruim é o surto e não podemos responder apropriadamente. Permanecer em casa nos dá a oportunidade de pelo menos estar em dia com os testes, uma oportunidade que estes especialistas não querem desperdiçar.

“Temos estado fora da fase de contenção durante um mês”, diz Gonsalvez. “ Já não se trata de dobrar a curva em termos numéricos de infecções. Não vamos dobrar a curva do número de infecções. Porém poderíamos dobrar a curva do número de mortes”

Proporcionar dados úteis para o futuro

Embora seja difícil de imaginar agora, com o tempo passaremos pelo pior desta pandemia. E nesse momento, nossa atenção passará da emergência para respostas a longo prazo, como tratamentos ou vacinas que podem ajudar a nos proteger do surto do COVID-19 no futuro, e como evitar pandemias similares.

Para fazer qualquer dessas predições, necessitamos de dados - e a informação mais básicas que necessitamos é saber quantas pessoas estão infectadas e aonde.

“ Quando olharmos retrospectivamente saber isso será importante” diz Tara Smith, epidemiologista da Universidade Estatal de Kent. “ Os dados que necessitamos para demarcar o genoma do vírus, quem o transmitiu a quem, quem provocou contágio em novas áreas, conseguimos todos esses dados das testagens”.

Isto também pode ajudar a medir a eficácia das diferentes medidas a combater este tipo de surto viral, diz Smith

Mas para termos uma ideia sólida da propagação, necessitamos aumentar drasticamente os testes que se realizam. Atualmente foram completados quase 59.000 testes nos Estados Unidos, segundo o projeto de seguimento COVID, uma base de dados criada por Related Sciences e The Atlantic, Compare isso com a Coreia do Sul, onde 10.00 pessoas podem ser testadas todos os dias.

Enquanto a quantidade de provas estão aumentando, ainda não chegamos a este nível. A Associação Americana de Laboratórios Clínicos, disse em um comunicado de imprensa na semana passada que, na medida em que mais laboratórios comerciais iniciam a trabalhar na produção e diagnóstico, poderão superar as 280.000 provas por semana, mas não alcançarão essa capacidade total até 1 de Abril. Quest Diagnostics, uma empresa privada de laboratórios que atualmente está ampliando suas operações, diz que espera poder realizar 10.000 provas por dia para o final de semana e 20.000 provas para o final do mês.

Smith diz que essa escala é a que devemos operar para obtermos os dados necessários.

“ Somos maiores que a Coreia do Sul. Temos uma população mais alta e deveríamos ter a capacidade técnica de fazê-lo” Diz Smith. “ Mas estamos muito atrasados”.

Artigo originalmente publicado em inglês no site Five Thirty Eight




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