Teoria

DEBATE

Por que Stalin triunfou (Parte 1)

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 14 de dezembro de 2016| Edição do dia

A revolução traída, uma obra-prima de Trotski é um livro ainda insuficientemente divulgado, particularmente no seio da vanguarda que se proclama comunista. Poucos debates e pouco diálogo com aquele livro é o que prima nas fileiras da esquerda. Prova disso são os comentários de jovens, das fileiras do PCB [Partido Comunista Brasileiro], nas redes sociais, na linha do “Stalin matou pouco” ou “Stalin tinha que ter matado mais” Você pode ler a respeito

Deixando de lado comentários desse tipo [alentados pela direção do PCB, e que mesclam provavelmente ignorância com má fé e cinismo], a verdade é que se faz necessário, para a construção de uma esquerda mais consciente e classista, revisitar a Revolução Russa que fará 100 anos em 2017. E parte do que pode ser revisitado vem a ser - além do legado atualíssimo das lições estratégicas da Revolução Russa – também a discussão sobre as determinações históricas, sociais e políticas que levaram à degeneração do bolchevismo.

A primeira revolução proletária, em 1917 na Rússia, eclodiu em um país predominantemente camponês, agrário, e cujo núcleo operário industrial, capitaneado pelo partido bolchevique, de Lenin e Trotski, sofreu a devastação da I Guerra mundial e, em seguida, o impacto de uma longa guerra civil, em condições de penúria e invadida por mais de dez “democracias” capitalistas, das mais industrializadas do mundo. A Rússia se converteu em um campo de batalha, em uma fortaleza sitiada, concentrando todas suas forças na luta pela sobrevivência.

Ao mesmo tempo, as demais revoluções, incluindo a alemã e a chinesa, foram esmagadas fundamentalmente por não terem conseguido construir a tempo o partido para a tomada do poder. Nesse contexto é que se desenvolve aquele processo de retrocesso político [o Termidor] que Trotski, em parte, analisa no excerto abaixo.

A direção que triunfou contra o capitalismo, que formulou a estratégia soviética, que vinha de uma longa história de liberdade de discussão no partido, que se guiava pelo objetivo da revolução internacionalista e baseada em órgãos democráticos de fábrica, de bairro, de massa, vai sendo derrotada pelo grupo de Stalin, que encontrou as condições, no refluxo da revolução internacional, nas derrotas que a conciliação de classe e sua ideia do “socialismo em um só país” promove em outros países, para ir construindo uma verdadeira contrarrevolução política; em resumidas palavras, dez anos depois nada mais restava do comitê central de Lenin e Trotski, sendo este último assassinado em 1940 no México a mando de Stalin. “Por que Stalin triunfou?” passou a ser uma das mais importantes questões políticas a marcar o século XX.

Nestes marcos, aquela dúvida é recorrente: como pôde o tosco e totalitário burocrata Stalin ter vencido o leninismo e Trotski? Ou, em outras palavras, se a Oposição de Esquerda encabeçada por Trotski era mais perspicaz e tinha razão histórica, como poderia ter sido derrotada? Ela “teria” que ter triunfado ao invés de ter amargado o processo de acumular derrota após derrota.

Na argumentação do longo excerto que vem a seguir [1], Trotski chama a atenção para a luta política como processo onde o mais decisivo não é a argumentação. Não se trata de um processo puramente racional: obedece à dialética dos interesses e das forças reais em disputa e, no fundo este é o elemento mais determinante, mais do que a argumentação. A qualidade ou a capacidade dos dirigentes é essencial, sobretudo sua capacidade de abraçar a estratégia para vencer, e a consciência sobre aquelas forças e relação de forças em disputa, mas não é, definitivamente, o único fator decisivo.

Nos parágrafos que se seguem Trotski alinha vigorosos argumentos sobre as contradições e os interesses que estavam em jogo e como eles foram se impondo processualmente e encontraram, no grupo Stalin, sua mais fiel representação política.

Recomendamos a leitura integral da obra de onde foi extraído o breve trecho a seguir para todo aquele que pretenda ir fundo na compreensão das raízes históricas do processo que levou ao triunfo da camarilha Stalin e, finalmente, tempos depois segundo a mesma lógica de fundo, à restauração do capitalismo na Rússia.

Com a palavra Trotski:

Se a revolução de Fevereiro conduziu ao poder Kerensky e Tseretelli, não foi por estes terem sido “mais inteligentes” ou “mais hábeis” que a camarilha governante do Tzar, mas sim porque representaram, pelo menos temporariamente, as massas populares revolucionárias insurgidas contra o antigo regime. Se Kerensky pôde obrigar Lenin a ir para a ilegalidade e lançou à prisão outros chefes bolcheviques, não foi porque as suas qualidades pessoais o fizessem superior, mas porque a maioria dos operários e dos soldados, durante esses dias, ainda seguia a pequena burguesia patriota.

A “superioridade” pessoal de Kerensky, se este termo não se encontra deslocado, residia precisamente em não ver mais longe que a grande maioria. Por sua vez, os bolcheviques venceram a democracia pequeno-burguesa, não graças à presciência dos seus chefes, mas graças a um reagrupamento das forças, tendo por fim o proletariado conseguido arrastar contra a burguesia o campesinato descontente.

A continuidade das etapas da grande Revolução Francesa, tanto na maré crescente como no declínio, mostra de maneira igualmente convincente que a força dos “chefes” e dos “heróis” residia antes de tudo na sua concordância com o caráter das classes e das camadas sociais que os apoiavam; só esta correspondência, e não qualquer superioridade absoluta, permitiu a cada um marcar com a sua personalidade um certo período histórico. Existe na sucessão no poder dos Mirabeau, Brissot, Robespierre, Barras, Bonaparte, uma legitimidade objetiva infinitamente mais poderosa do que os traços particulares desses históricos protagonistas.

É por demais conhecido que todas as revoluções, até hoje, suscitaram posteriormente reações e mesmo contrarrevoluções que, é certo, nunca conseguiram fazer regressar a nação ao ponto de partida, mas que lhe usurparam sempre a parte de leão das suas conquistas. Regra geral, os pioneiros, os iniciadores, os dirigentes que, no primeiro período, se encontraram à cabeça das massas, são as vítimas da primeira vaga da reação, enquanto se destacam em primeiro plano homens de segunda linha, unidos aos inimigos de ontem da revolução. Os duelos dramáticos dos principais papéis na cena política ocultam mudanças nas relações entre as classes e - o que não é menos importante - profundas alterações da psicologia das massas, que ainda na véspera se postavam de forma revolucionária.

Respondendo a numerosos camaradas que perguntavam com surpresa o que tinha acontecido à atividade do partido bolchevique e da classe operária, à sua iniciativa revolucionária, ao seu orgulho plebeu, donde surgia, em vez destas qualidades, tanta vilania, tanta covardia, pusilanimidade e arrivismo, Rakovsky evocava as peripécias da Revolução Francesa do séc. XVIII e o exemplo de Babeuf que, ao sair da prisão de Abbaye, igualmente se perguntava com estupefação em que se tinha transformado o heroico povo dos arrabaldes de Paris.

A revolução é uma grande devoradora de energias individuais e coletivas. Os nervos não agüentam, as consciências se curvam, os caracteres se consomem. Os acontecimentos marcham demasiado depressa para que o afluxo de novas forças possa compensar os desperdícios. Dessa forma, a fome, o desemprego, a perda dos quadros da revolução, a eliminação das massas dos postos dirigentes tinham provocado tal anemia física e moral nas massas que mais de trinta anos foram necessários para que de novo se levantassem.

A afirmação axiomática dos publicistas soviéticos, segundo a qual as leis das revoluções burguesas são “inaplicáveis” à revolução proletária, é desprovida de qualquer conteúdo científico. O caráter proletário da revolução de Outubro resulta da situação mundial e de uma determinada relação de forças no interior.

Mas, na Rússia, as classes tinham-se formado no seio da barbárie tzarista e de um capitalismo atrasado, e não tinham sido preparadas de encomenda para a revolução socialista. Muito pelo contrário: foi precisamente porque o proletariado russo, em muitos aspectos, ainda atrasado, conseguiu dar o salto em alguns meses, sem precedentes na história, de uma monarquia semi-feudal para uma ditadura socialista, que a reação foi obrigada, inelutavelmente, a fazer valer os seus direitos no interior das próprias fileiras. Ela cresceu no decurso das guerras que se seguiram. As condições externas e os acontecimentos alimentaram-na sem cessar. A uma intervenção sucedia outra. Os países do Ocidente não forneciam uma ajuda direta. Em vez do esperado bem-estar, o país viu instalar-se, por muito tempo, a miséria. Os mais notáveis representantes da classe operária tinham desaparecido durante a guerra civil ou, subindo alguns degraus, tinham-se desligado das massas. Assim sobreveio, após uma prodigiosa tensão de forças, de esperanças e de ilusões, um longo período de fadiga, de depressão e desilusão. O refluxo do “orgulho plebeu” teve como corolário um afluxo de carreirismo e pusilanimidade. Estas marés conduziram ao poder uma nova camada de dirigentes.

A desmobilização de um exército vermelho de cinco milhões de homens teve de representar, na formação da burocracia, um papel considerável. Os comandantes vitoriosos ocuparam importantes posições nos sovietes locais, na produção, nas escolas, e isto para fazer chegar, obstinadamente, a todo o lado, o regime que lhes tinha permitido vencer a guerra civil. As massas foram, por toda a parte, pouco a pouco, eliminadas da efetiva participação no poder.

Este fenômeno no seio do proletariado fez nascer grandes esperanças e uma grande segurança entre a pequena burguesia das cidades e dos campos que, chamada pela NEP [política econômica de certas concessões a setores privados] a uma nova vida, se animava cada vez mais. A jovem burocracia, inicialmente formada para servir o proletariado, sentiu-se árbitro entre as classes. Ela tornou-se, mês após mês, mais autônoma.

A situação internacional evoluía poderosamente no mesmo sentido. A burocracia soviética ganhava em segurança à medida que a classe operária internacional sofria derrotas cada vez mais pesadas. Entre estes dois fatos, a relação não é unicamente cronológica, é causal e recíproca: a direção burocrática do movimento contribuía para as derrotas; as derrotas fortaleciam a burocracia. A derrota da insurreição búlgara e a inglória retirada dos operários alemães em 1923, o fracasso de uma tentativa de sublevação na Estónia em 1924, a pérfida liquidação da greve geral na Inglaterra, a conduta indigna dos comunistas polacos quando do golpe de força de Pilsudski em 1926, a terrível derrota da revolução chinesa em 1927, as ainda mais graves derrotas que se seguiram na Alemanha e na Áustria - eis as catástrofes históricas que minaram a confiança das massas na revolução mundial e permitiram à burocracia soviética elevar-se cada vez mais alto como um farol a indicar o caminho da salvação.

Para explicar as causas das derrotas do proletariado mundial no decurso dos treze últimos anos, o autor vê-se obrigado a remeter-se às suas obras precedentes, nas quais se esforçou por fazer ressaltar o funesto papel que, no movimento revolucionário de todos os países, representavam os dirigentes conservadores do Kremlin.

Agora aquilo que, sobretudo, nos interessa, é o marcante e incontestável fato de as contínuas derrotas da revolução na Europa e na Ásia, enfraquecendo a situação internacional da URSS, terem fortalecido extraordinariamente a burocracia soviética. Duas datas são de grande destaque nesta série histórica. Na segunda metade de 1923, a atenção dos operários soviéticos concentrou-se com paixão na Alemanha onde o proletariado parecia lançar mão do poder; a retirada em pânico do Partido Comunista alemão representou para as massas operárias da URSS uma penosa decepção.

A burocracia soviética desencadeou imediatamente a sua campanha contra a “revolução permanente” e infligiu à Oposição de Esquerda a sua primeira e cruel derrota. Em 1926-1927, a população da URSS recebeu um novo afluxo de esperança; todos os olhares se voltaram desta vez para o Oriente onde se desenrolava o drama da revolução chinesa. A Oposição de Esquerda recompôs-se dos seus reveses e recrutou novos militantes. No final de 1927, a revolução chinesa foi torpedeada pelo carrasco Chang-Kai-chek a quem os dirigentes da Internacional Comunista tinham entregue literalmente os operários e camponeses chineses. Uma onda gelada de desencantamento atravessou as massas da URSS. Após uma campanha frenética na imprensa e em reuniões, a burocracia decidiu-se por fim a proceder a prisões em massa de oposicionistas (1928).

Dezenas de milhares de militantes revolucionários tinham-se reunido, é certo, sob o estandarte dos bolcheviques-leninistas; os operários consideravam a oposição com certa simpatia, mas uma simpatia que se mantinha passiva, pois ninguém acreditava que se pudesse modificar a situação pela luta. A burocracia dizia: “A oposição prepara-se para nos lançar uma guerra revolucionária pela revolução internacional. Basta de convulsões. Já merecemos algum repouso. Construiremos entre nós a sociedade socialista. Contai conosco, os vossos chefes!”.

Esta propaganda, de inércia, cimentando o bloco dos funcionários e dos militares, encontrava sem dúvida algum eco entre os operários fatigados e mais ainda entre as massas camponesas. Perguntava-se se a oposição não estaria disposta a sacrificar os interesses da URSS pela “revolução permanente”. Eram de fato os interesses vitais da URSS que se encontravam em jogo. Em dez anos, a política errada da Internacional Comunista assegurava a vitória de Hitler na Alemanha, isto é, um grave perigo de guerra a ocidente; e uma não menos errada política fortificava o imperialismo japonês e aproximava, ao mais alto ponto, o perigo a leste. Mas os períodos de reação eram, sobretudo, caracterizados pela falta de coragem intelectual.

A oposição viu-se isolada. A burocracia malhava o ferro enquanto este estava quente. Explorando a desordem e a passividade dos trabalhadores, lançando os mais atrasados contra os mais avançados, apoiando-se de forma cada vez mais descarada no kulak [camponês rico] e, de modo igual, no aliado pequeno-burguês, a burocracia conseguiu, por alguns anos, vencer a vanguarda revolucionária do proletariado.

Seria ingenuidade pensar que Stalin, desconhecido das massas, tivesse saído de repente dos bastidores armado com um plano estratégico completo. Não. Antes que ele próprio tivesse antecipado o seu caminho, a burocracia já o tinha escolhido. Ele apresentava-lhe todas as garantias desejáveis: o prestígio de um velho bolchevique, um caráter firme, um espírito tacanho, uma indissolúvel ligação com as repartições públicas, fonte única da sua influência pessoal. Stalin foi, no início, surpreendido pelo seu próprio êxito. Que vinha da unânime aprovação de uma nova camada dirigente que procurava libertar-se tanto dos velhos princípios como do controle das massas e que tinha necessidade de um árbitro seguro nos seus assuntos internos. Figura de segundo plano para as massas e para a revolução, Stalin revelou-se o chefe incontestado da burocracia Termidoriana, o primeiro dos Termidorianos.

Cedo se constatou que a nova camada dirigente possuía as suas ideias, os seus sentimentos e, sobretudo, os seus interesses próprios. A esmagadora maioria dos burocratas da geração da época encontrava-se, durante a revolução de Outubro, do outro lado da barricada (é o caso, para só considerar os diplomatas soviéticos, de Troyanovsky, Maysky, Potemkine, Souritz, Khintchouk e outros) ou, no melhor dos casos, afastados da luta. Aqueles, dentre os burocratas de hoje, que durante os dias de Outubro, se encontravam com os bolcheviques, não ocupavam, na maioria dos casos, um papel importante, por menor que fosse. Quanto aos jovens burocratas, eram formados e selecionados pelos velhos e frequentemente saíam da sua prole. Estes homens não fizeram a revolução de Outubro. Mas encontraram-se melhor adaptadas para explorá-la.

Os fatores individuais não deixaram, naturalmente, de exercer uma influência nesta sucessão de capítulos históricos. É certo que a doença e a morte de Lenin aceleraram o desenlace. Se Lenin tivesse vivido mais tempo, o avanço da força burocrática teria sido mais lento, pelo menos nos primeiros anos. Mas, em 1926, Krupskaia dizia a oposicionistas de esquerda: “Se Lenin fosse vivo, estaria certamente na prisão”. As previsões e as apreensões de Lenin encontravam-se ainda frescas na sua memória e ela não tinha ilusões quanto à sua força para se opor aos ventos e às correntes contrárias da História.

A burocracia não venceu unicamente a Oposição de Esquerda, venceu igualmente o partido bolchevique, venceu o programa de Lenin, que apontava como perigo principal a transformação dos órgãos do Estado “de servidores da sociedade em senhores da sociedade”. A burocracia venceu todos os seus adversários - a oposição, o partido de Lenin - não com a ajuda de argumentos e de ideias, mas esmagando-os sob o seu próprio peso social. A retaguarda de chumbo mostrou-se mais pesada que a cabeça da revolução. Esta é a explicação do Termidor soviético.

continua, leia a parte dois do artigo

[1 ] Escrito em 1936, o excerto aqui reproduzido faz parte do quinto capítulo do livro A revolução traída, de Leon Trotski intitulado O Termidor soviético, parcialmente divulgado pelo Marxists Internet Archive. Cotejado com o texto correspondente do livro La revolución traicionada, segunda edición, setembro 2001, Fundación Frederico Engels, revisado pela C Cultural. Este texto foi publicado no livro Bolchevismo e stalinismo, Trotski, pela Ícone-Gráfica e editora, Brasília, em 2011




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