Política

EDITORIAL MRT

Por uma saída revolucionária e anticapitalista diante da crise ambiental na Amazônia

Bolsonaro se importa com a Amazônia? Claro que não. Por acaso Macron e Merkel, do alto de seu cinismo, resolverão os problemas da Amazônia? Não é preciso de muito para afirmar que não. Sob o manto de uma luta democrática internacional, buscam diluir a verdadeira força das ruas que será capaz de superar a crise na Amazônia, o que significa assumir a auto-organização de trabalhadores e estudantes, bem como aliar a luta pelo meio ambiente com a luta contra todos os ataques de Bolsonaro a partir de uma perspectiva anticapitalista.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 26 de agosto| Edição do dia

Crédito da Foto: Jimmy Bro

Nas últimas semanas o Brasil virou o centro das atenções de todo o mundo. A Amazônia estava em chamas, como já havia acontecido outras vezes, mas nunca com aval e incentivo de um presidente. O "dia do fogo" foi somente mais uma expressão da barbárie capitalista e de como os interesses de Bolsonaro e dos capitalistas funcionam como um verdadeiro trator diante da natureza e dos recursos naturais. Não é a toa que Bolsonaro já havia anunciado que governaria para o agronegócio e que em seu governo os índios não teriam nem 1 centímetro de terra.

A fúria de lá causou a nível internacional uma enorme reação contra os ataques à Amazônia, com manifestações em centenas de países e também no Brasil em vários estados. O último dia 23 foi tomado por cartazes afirmando que não há um "planeta B". Mas dessa revolta, genuína e original, que tomou conta de amplos setores de massas - mesmo que não tenham saído às ruas - vimos países imperialistas europeus, como a Alemanha e a França, tomarem para si a defesa da Amazônia, surfando na onda deste sentimento contra os ataques ao meio ambiente. Através do olhar marxista é importante "ler" quais são os interesses de classe que estão por trás e, portanto, qual é a política revolucionária que deve ser colocada.

Os interesses destes setores, muito bem desenvolvidos neste artigo, são interesses de espoliação dos recursos naturais em prol dos seus próprios projetos imperialistas, e nada têm a ver com a defesa do meio ambiente. O que esperar de quem representa os interesses da Monsanto e da Bayer, como é o caso de Macron? Falar em “defesa da Amazônia” essa mulher (Merkel) repugnante que expulsa palestinas da Alemanha? O fato é que do alto de seus locais de poder, essas figuras (esses países) transmitem a ideia de que a força para derrotar os planos de Bolsonaro na Amazônia viriam de "grandes potências internacionais", e não da força das ruas. Uma ideia errada, tendo em vista que nem Macron, nem Merkel, nem nenhum dos outros países tem interesse em derrotar os planos de Bolsonaro para que haja uma saída dos trabalhadores. Da cúpula do G7 saem políticas para manter a dominação mundialmente, e é por isso que a própria Merkel criticou Macron: por querer cancelar o acordo UE-Mercosul, afinal, as empresas lucrarão muito com o entreguismo da parte de Bolsonaro. Essa cúpula também trabalha para que os recursos naturais internacionais sigam servindo ao lucro dos capitalistas, e quando Macron diz que "a Amazônia é nossa", está falando de seus parceiros empresários de todo o mundo. E toda essa disputa evidentemente não passa despercebida aos olhos sedentos da águia imperialista, Trump, que vê no Brasil a oportunidade para sua eficácia na guerra comercial contra a China, mas cinicamente faz demagogias sobre “querer ajudar” a Amazônia.

É por isso que a luta em defesa da Amazônia, como parte de todas as manifestações mundo afora, deve se nortear por uma política de enfrentamento a Bolsonaro, mas também de enfrentamento a todas as outras variantes burguesas e imperialistas, e também de forma independente do PT, que com suas políticas de estímulos fiscais expandiram enormemente o latifúndio e possibilitaram o fortalecimento de uma nova e poderosa elite ligada ao agronegócio, que justamente foi base para Bolsonaro e, nesse sentido, o PT não pode se isentar da responsabilidade sobre essa alarmante situação de devastação. É necessário entender que somente a força da mobilização dos trabalhadores pode derrubar a política de Bolsonaro, mas que isso deve estar vinculado a um enfrentamento com os ataques de Bolsonaro aos trabalhadores, como a reforma trabalhista, a MP 881, a reforma da previdência, os ataques à educação (como o Future-se) e também a todo tipo de ataque aos direitos democráticos que estamos vendo através do elevado autoritarismo do Ministério da Justiça, com Sérgio Moro à frente. Os que dizem que a luta pela Amazônia não é política, ou que não é "de direita, nem de esquerda" (como gosta a traiçoeira Tábata Amaral), estão facilitando o caminho para que esses setores reacionários que se utilizam de bandeiras democráticas como a Amazônia tenham via livre para fazer a "sua política".

Por isso, unificando todas essas bandeiras e batalhando para que os sindicatos e entidade estudantis tomem nas suas mãos a bandeira da luta pela Amazônia e pelo meio ambiente, é necessário não somente seguir um plano de lutas concreto com novas manifestações cada vez mais fortes, mas também uma organização a partir de cada estrutura, de cada local de trabalho e estudo, com assembleias que organizem essa luta desde as bases. Mover os grandes bastiões da classe operária brasileira, incentivando a auto-organização dos trabalhadores e também da juventude, com esse programa que articula a luta da Amazônia com todos os ataques de Bolsonaro em curso e rechaçando as pseudo saídas imperialistas seria a saída mais contundente para a crise que está em curso.

Neste processo, diante do fracasso do projeto do "bonapartismo imperial" de Bolsonaro, ou seja, de extrapolar os poderes do Executivo, alguns setores começam a levantar gritos de "fora bolsonaro", "impeachment" ou "bolsonaro sai, Amazônia fica". Da mesma forma, só podem se fazer concretas se forem expressão de uma forte mobilização, e não um jogo de interesses "por cima" que possam beneficiar os outros atores dessa democracia degradada como Rodrigo Maia, Dias Toffoli e tantos outros, como até mesmo o “rei da soja” Blairo Maggi (que cinicamente “criticou” Bolsonaro) que, diante da crueldade bolsonarista, aparecem como "moderados", mesmo depois de "chorar de alegria" com a aprovação da reforma da previdência que nos fará trabalhar até morrer.

Para os revolucionários, frente a palavras de ordem como essas, para não fazer o jogo de nenhum setor burguês - como seria inclusive o General Mourão -, é fundamental levantar a bandeira pela Assembleia Constituinte Livre e Soberana, para que não apenas mudem os jogadores, mas sim as regras do jogo e, nela poder debater como lutar para impor uma reforma agrária radical que desmantele o latifúndio no país; garantir a defensa e a autonomia dos povos originários indígenas e quilombolas; garantir a estatização sem indenização das grandes empresas do agronegócio, e que estas sejam controladas pelos trabalhadores, pois só assim sua lógica estaria voltada ao desenvolvimento humano orgânico com a natureza e os povos tradicionais, ao contrário de ser empregada para o lucro e a devastação. Um programa como este, que aponte para a necessidade de um governo de trabalhadores, de ruptura com o capitalismo, é o único que pode abolir essa herança colonial e escravocrata do latifúndio, e oferecer terra e tecnologias a todos que queiram trabalhar nela.

Estas são as batalhas, táticas e estratégicas, que os militantes do MRT têm levado nas estruturas junto aos trabalhadores e estudantes, construindo uma força anticapitalista e revolucionária também a partir do Esquerda Diário, que chega mensalmente a milhões de leitores em todo o país.




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