Gênero e sexualidade

EDITORIAL

Por uma saída anticapitalista contra as opressões

A morte da criança que pedia esmolas em frente ao Habibs por seguranças do local, a homofobia que levou a morte Wesner Pereira em Campo Grande (MS) e tantos outros casos como o de Gabriel Simioni em Caxias do Sul, ou da Isamara no começo do ano em Campinas escancaram cada vez mais as opressões em nossa sociedade, e suas possíveis saídas. A direita reforça cada vez mais o aumento das opressões com Silas Malafaia, Bolsonaro e Holliday a frente. Qual a saída a juventude pode dar para por fim de fato às opressões?

domingo 5 de março de 2017| Edição do dia

Vem se colocando nas nas redes sociais que o melhor do Brasil é o Brasileiro, que além de fazer piada com a própria desgraça expressam uma certa desmoralização, que o próprio PT tenta nos impor no pós-golpe, com o que está acontecendo e mesmo um desânimo com a vida no geral. Não a toa também, a juventude enfrenta uma crise de desemprego gigantesca, os ataques aumentam cada vez mais com a reforma da previdência, a reforma do ensino médio ou mesmo o fechamento da UERJ, que acabam apontando para um futuro sem perspectivas.

Para os setores oprimidos essa situação é ainda pior. Apenas no começo desse ano vimos diversos casos de opressão, como o de Wesner Pereira em Campo Grande, que teve uma mangueira de compressão de ar introduzida no ânus, que estourou seus órgãos por dentro e o levou a morte, causadas por “brincadeiras” por parte de seu chefe e outro funcionário, que questionavam sua sexualidade.

Assim como o feminicídio de Isamara em Campinas, que no ano novo morreu junto com seu filho e seus familiares pelo seu ex-namorado motivado pelo machismo que violenta tantas mulheres todos os anos. Ou mesmo o caso de transfobia que matou um morador de rua, que tentava defender uma transexual em um metrô de São Paulo. Para além disso, o goleiro Bruno que esquartejou Elisa Samúdio foi solto quase nas vésperas do 8 de março, um dia de luta contra a violência à mulher, que expressa a impunidade com que é tratada à questão das opressões em nossa sociedade.

Não só no Brasil, mas em todo o mundo assistimos à cada vez mais ataques aos setores oprimidos. Nos EUA após a vitória de Trump, já foi revogado o direito de transexuais usarem o banheiro o qual se identificam, fora todo o seu discurso machista, racista e xenófobo que está levando milhares de pessoas às ruas contra as opressões.

O que está por trás disso?

Não à toa os casos de opressão vem aumentando no mesmo período que a direita avança super estruturalmente, a partir do espaço que conseguiu nas últimas eleições, e que além de aplicar os ataques que o PT já vinha implementando em certa medida, também é responsável pelos crimes de ódio contra mulheres, LGBTs e negros. Essa mesma direita que aumenta a idade de aposentadoria, é a que propaga valores como o de que família é só homem e mulher, de que não se precisa de cotas na universidade, ou mesmo de que o lugar da mulher é na cozinha.

Entender que o capitalismo se utiliza das opressões para continuar subsistindo, é parte fundamental de combater à LGBTfobia, o racismo e o machismo. Devemos questionar não só os casos de violência física que acontecem todos os dias e nos chocam. Mas também a precarização no trabalho, que submetem mulheres e negros a péssimos salários e condições de trabalho, assim como a opressão que faz com que LGBTs ocupem cargos de trabalho super precários.

Atualmente 90% das transexuais trabalham na prostituição e tem expectativa de vida de apenas 35 anos! Saem da escola desde cedo pois o nosso sistema educacional não permite sua inclusão e a transfobia nos locais de trabalho impede que consigam trabalhar, sendo obrigadas a vender seus corpos para sobreviver. Também não é a toa que tantos gays e lésbicas trabalham no telemarketing, onde não precisam mostrar o rosto, e assim conseguem um emprego precário para viver pois muitas vezes são expulsos de casa ainda cedo pelos pais e precisam trabalhar.

Porque nas universidades vemos tantos negros limpando nossas salas de aulas, mas quase nenhum estudando ao nosso lado? Mais de 52% da população é negra, mas em algumas universidades como USP e UNICAMP menos de 10% dos alunos são negros. Enquanto a maioria dos terceirizados é negro e trabalha em condições precárias, com salários baixos e alta instabilidade. Além da polícia assassina e racista que faz da guerra às drogas, uma guerra aos pobres e pretos.

O capitalismo sabe que os trabalhadores sustentam a sociedade e carregam gigante potencial revolucionário e de transformação social. Precisa se utilizar do machismo, LGBTfobia e racismo enquanto algo intrínseco à sua existência. E por isso faz parte da sua estratégia separar esses setores, dos trabalhadores pelo potencial explosivo que pode ter a união de milhares de LGBTs, mulheres e negros e os trabalhadores enquanto classe contra esse sistema que tanto nos oprime.

A resistência dos setores oprimidos, como Stonewall, Ferguson e os atos massivos de mulheres aparecem e nem a mídia consegue mais esconder. As empresas tentam embarcar na onda pela luta de direitos e apesar da visibilidade do tema ser algo muito positivo para o movimento como um todo, não é um presente, senão algo arrancado a duras penas pelas mulheres, LGBTs e negros que lutaram antes de nós. Por isso não acreditamos que será a Avon, o He for She, a Globo ou qualquer outra grande empresa que nos ajudará a arrancar nossos direitos. Até porque enquanto exibem propagandas que dão espaço para os setores oprimidos aparecerem, precarizaram o trabalho desses mesmos setores dentro de sua empresa. Usam da subversão de cantoras trans como Mc Linn da Quebrada para poder manter essa subversão apenas no nível cultural e não permitir um questionamento mais profundo da sociedade que vivemos, o que de fato impede às massas LGBTs de “lacrarem” como suas divas pop.

É de fato entusiasmante ver vários negros, mulheres e LGBTs se assumindo enquanto tal, e trazendo toda sua superação e história de vida para enfrentar os problemas das opressões. Contudo, a ideologia burguesa se utilizará disso para nos impor que a saída para as opressões, passa por uma saída individual, em que cada um consegue subir na vida pelos seus próprios méritos e apresentando o machismo, o racismo e a LGBTfobia enquanto obstáculos a serem superados individualmente, e não enquanto causados pelo próprio capitalismo. O empoderamento que tentam nos apresentar como saída para as opressões, na verdade é uma saída individual que é benéfica para o capitalismo, pois não entende o sistema enquanto uma estrutura que mantém essas opressões.

Como já discutido em outro texto, devemos usar cada brecha, cada espaço para defender nossas demandas, quanto maior a nossa visibilidade melhor, mas não devemos nos iludir a respeito de quem poderá ser nossos aliados para o combate à opressão de fundo. Devemos nos somar aos demais setores oprimidos, aos movimentos sociais e aos trabalhadores se quisermos combater a sociedade capitalista que usa o machismo como um dos seus pilares de exploração.

A apropriação feita pelas empresas e a mídia como um todo da questão das opressões é inclusive uma maneira de divisão da classe operária. De não nos enxergarmos mais enquanto trabalhadores, e apenas enquanto mulher, negro ou LGBT para nos desligarmos de nosso real inimigo que é o capitalismo, e não os homens, os brancos e os héteros.

O aumento de números de estupros, mortes por LGBTfobia ou de pretos na favela, está inevitavelmente ligado ao avanço da direita e de toda sua ideologia opressora. Contudo, também não devemos nos esquecer que quem abriu espaço para a direita no poder foi o próprio PT, que inclusive é também culpado pelas opressões que vivemos hoje. Não esqueçamos que o kit anti-homofobia das escolas foi vetado por Dilma a favor de uma governabilidade, bem como o aborto não foi legalizado em 14 anos de governo e que mata mais de 100 mil mulheres todos os anos, fora o aparato policial que aumentou muito durante a administração petista, como é o caso das UPPs.

Às vésperas da paralisação mundial de mulheres no 8 de março, devemos nos somar às milhares de mulheres que pararão nos seus trabalhos contra o machismo e o capitalismo nesse dia e também parar. Aos trabalhadores que lutam contra a privatização da CEDAE, à violência policial e ao fechamento da UERJ no Rio de Janeiro. Aos milhares de LGBTs que lutam contra a opressão e a precarização de seus empregos. Aos milhares de negros que se levantam no mundo inteiro contra o racismo e a segregação racial. Devemos mostrar ao capitalismo que de fato ele vai tombar, quando junta um monte de viado, mona e sapatão anticapitalistas em um novo Stonewall. Quando as mulheres, LGBTs, negros e trabalhadores se unem para lutar contra as opressões e por um sociedadade justa e igualitária.

Por isso, nós da Faísca (juventude anticapitalista e revolucionária) chamamos todos a se somarem no 8 de março, para que possamos construir uma mobilização contra o capitalismo e todas as opressões.




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