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Por um movimento estudantil pra lutar contra o golpismo e independente do PT

Desde o início do governo golpista e mesmo quando ainda se preparava o golpe, a juventude e os estudantes se opunham ao governo federal, Temer e seus ataques. Compreender esses processos deve ajudar a preparar novos embates com os golpistas, longe das ilusões petistas de conciliação. Propomos este debate com o manifesto "Que ecoem nossas vozes", lançado na UFRGS na última semana.

sábado 5 de maio| Edição do dia

A juventude e os estudantes foram os primeiros setores a se levantarem nacionalmente contra o governo golpista, ainda em 2016, quando ocupamos mais de mil instituições de ensino contra a PEC 55 do teto de gastos. Este foi o primeiro grande ataque aprovado por Temer e os golpistas contra a classe trabalhadora, a juventude e o povo pobre, e seus efeitos são notáveis na universidade e nos serviços públicos. Se a grande luta dos estudantes naquele momento não pôde barrar Temer, há também uma grande lição a se tirar deste processo, que depois se expressa com ainda mais força em 2017 e precisamente na greve geral do dia 28 de abril do ano passado: é a força da classe trabalhadora que pode não só parar o governo, mas parar o país e derrotar as reformas. Que potência poderia ter tido o movimento contra a PEC caso tivesse se conformado uma aliança com a classe trabalhadora, caso os estudantes tivessem realmente conseguido despertar sua revolta em outros setores contra Temer?

"Seria impossível", dirão alguns. Há 50 anos atrás, na França, estudantes como nós diziam: "sejamos realistas, exijamos o impossível", e de fato buscaram essa aliança com a classe trabalhadora, que ergueu-se junto aos estudantes num processo revolucionário conhecido como Maio de 68, que desencadeou outros processos profundos da luta de classes pelo mundo. Nos inspiramos na audácia dos estudantes franceses e nos apoiamos na força e na revolta demonstradas aqui contra a PEC, na greve geral do ano passado, no 8 de março, no apoio à greve dos professores e municipários, e também em lutas mais específicas como nas artes este ano contra a desregulamentação da profissão, para chamar os estudantes da UFRGS a retomar a luta contra o golpe e todos seus agentes, buscando a aliança com todos os explorados e oprimidos, longe das ilusões petistas de conciliação.

Os companheiros e companheiras do MES/PSOL, PCB, Resistência (fusão de MAIS e NOS), Alicerce, PCLCP, que assinam o manifesto "Que ocoem nossas vozes", além de outras organizações, como o PSTU, compunham a gestão do DCE em 2016 quando ocorreu o golpe. Naquele momento a entidade estudantil ficou paralisada, entre outros motivos, devido às gritantes diferenças políticas entre eles, mas mais precisamente porque MES/PSOL diretamente afirmava que não havia golpe, defendendo a Operação Lava Jato. O manifesto deste ano não traz sequer um balanço disso e da gestão mas expressa que, embora tenham avançado na definição sobre o golpe, segue parcial sua perspectiva. Essa paralisia da entidade pavimentou o caminho para que o petismo se fortalecesse e retomasse o DCE.

Do manifesto deve se desdobrar uma chapa para as eleições do DCE este ano, marcadas para 21, 22 e 23 de maio. Queremos discutir com os estudantes o balanço das gestões de 2016 e 2017 para pensar qual entidade precisamos na UFRGS.

Este manifesto trata o golpe como “parlamentar”, uma ação "orquestrada pelos grandes empresários em conjunto com os partidos da direita". Tal definição, comum nas recentes elaborações do MES/PSOL, mais do que uma correção do erro da gestão anterior, expressa a visão desta organização de que a Operação Lava Jato e o Judiciário não têm participação no processo, pelo contrário, podem inclusive ser reivindicados. O golpe é institucional, pois nele confluem diferentes setores do regime, todos disciplinados naquele momento pelo interesse comum de aprofundar e acelerar os ataques que o PT já vinha fazendo.

Essa visão, um tanto romântica, do papel do Judiciário, da mesma justiça capitalista e racista, que nega a 40% da população carcerária brasileira o direito a um julgamento, essa justiça que há mais de um mês segue sem nenhuma resposta sobre o assassinato de Marielle Franco no Rio de Janeiro, tem suas implicações políticas. Além de apostar antes na justiça do que na força dos estudantes e da classe trabalhadora, leva a vacilar frente ao aumento do poder repressivo desta justiça e deste Estado, como no caso da prisão arbitrária e sem provas de Lula e da própria Operação Lava Jato com seus métodos autoritários. Se hoje se voltam contra Lula, provadamente conciliador e inofensivo ao regime, mais ainda avança e avançará o "partido da toga" e as demais forças estatais contra os trabalhadores, a população negra, e juventude, as mulheres, quando desafiam os planos dos capitalistas.

Batalhar pelas demandas dos estudantes sem entender que cada uma delas é parte e resultado deste golpe institucional é não se propor a travar uma luta séria. Cada uma das mazelas que passamos cotidianamente na universidade, das enormes filas no RU, os cortes na assistência estudantil, as tentativas de ataque às cotas, corte de bolsas, o fim do PIBID, demissões e atrasos de salários dos terceirizados, turmas lotadas, redução de vagas e turmas, todas elas são resultado da política golpista. São parte de um projeto de país que dá conta da crise capitalista, para que os trabalhadores, a juventude e os oprimidos paguem por ela.

Também é importante ressaltar que a universidade lulista, baseada na ampliação precária de vagas na rede pública e no financiamento estatal às universidades privadas, hoje cobra seu preço. Muitos dos jovens que de fato foram os primeiros de suas famílias a ingressarem na universidade hoje se veem expulsos dela, seja por falta de assistência, fechamento de vagas, corte de bolsas ou mesmo pelo fim do Fies e redução do ProUni. A universidade tal qual ela é, ou mesmo tal qual ela foi durante os governos do PT, não está a serviço do povo trabalhador, e sim a serviço dos capitalistas, que hoje cada vez mais interferem diretamente na UFRGS, seja pelas parcerias que a reitoria firma ou pelo financiamento e patenteamento de pesquisas e do conhecimento produzido.

É também uma visão romântica e até inocente dizer que através do tripé de funcionamento da universidade, de pesquisa, ensino e extensão, "a universidade tem potencial de transformar a realidade brasileira atentando aos problemas do nosso povo", como aponta o manifesto. A importância de defender o caráter público da universidade contra as empresas que interferem, desfrutam livremente e lucram absurdamente com o conhecimento produzido não pode nos fazer ter ilusões de que somente a manutenção da universidade tal qual ela é, ou mesmo tal qual ela foi, pode mudar seu caráter de classe. Pelo contrário, para pensar o potencial da universidade se colocada a serviço dos trabalhadores e do povo pobre, é necessário primeiramente questionar profundamente o que ela é hoje e não se restringir a uma mera “resistência” aos ataques como o Manifesto sugere.

Isso significa questionar a participação das empresas privadas na universidade pública mas questionar também a própria rede privada e os tubarões do ensino superior, que erguem verdadeiros impérios com dinheiro público e com nosso direito de estudar. Questionar o elitismo e racismo da universidade, partindo da defesa das cotas contra qualquer ataque dos governos e da reitoria, e se apoiando na defesa desta conquista do movimento negro para lutar pelo fim do vestibular e a democratização radical do acesso ao ensino superior. Também a estatização da rede privada sob controle dos trabalhadores e usuários é parte de garantir que todas e todos tenham acesso à universidade. Questionar o elitismo da universidade passa também por exigir a efetivação de todos os terceirizado e terceirizadas que fazem a universidade funcionar todos os dias recebendo salários de miséria.

Nada disso pode sequer ser pautado entre os estudantes sem um enfrentamento decidido contra toda a estrutura de poder antidemocrática da universidade. A burocracia acadêmica, encastelada na reitoria, executora dos planos dos governos, não é menos que inimiga dos estudantes e trabalhadores e precisa também ser questionada com medidas que envolvam a abertura imediata de contas da UFRGS mas também a proporcionalidade na tomada de decisões, desfazendo o Consun, onde hoje meia dúzia de burocratas decidem os rumos da UFRGS. Isso significa acabar com a reitoria e constituir uma gestão democrática com a participação proporcional de todos os setores da universidade: estudantes, professores e servidores.

A gestão de 2017 do DCE, encabeçada pelo PT e pela UJS, não só mantém as ilusões petistas de conciliação, como leva à frente um DCE totalmente servil ao reitor, para quem inclusive a UJS fez campanha. Funcionam diretamente como uma secretaria da reitoria. Viram quietos uma série de ataques do governo, se limitando a explicá-los ou, no máximo, colocar uma esperança de que um outro governo, de Lula ou outra figura apoiada por ele, poderia revertê-los. Com cartazes e aulas públicas - que as vezes mais parecem campanha eleitoral - tratam como se os cortes que vivemos na universidade não estivessem diretamente ligados à política nacional, como se a aliança com a reitoria bastasse para barrar os efeitos do golpe na UFRGS. Nada diferente do que fez o PT em seus governos, que se aliou com a direita para governar para os capitalistas, abrindo caminho ao golpe.

Sem esperanças na justiça burguesa e no Estado capitalista e sem alianças com a reitoria, os golpistas e com a direita, defendemos entidades estudantis militantes, que se proponham a fazer a diferença. Uma entidade estudantil que questione essa universidade a serviço dos capitalistas, e que coloque ao conjunto dos estudantes a tarefa de desafiar a miséria do possível em meio ao estreito horizonte da crise capitalista.




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