A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.4

Por que o surgimento do imperialismo significa tempos de guerras e barbárie?

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 5 de setembro| Edição do dia

O imperialismo
Houve uma época – em determinados marcos do nacionalismo do século XVIII e XIX – onde o mercado era interno, a economia praticamente local. Vivia-se os primórdios do capitalismo industrial, do momento histórico em que ele é chamado de concorrencial e conformado por pequenas e médias empresas. Houve, portanto, um período no qual, ainda que o comércio exterior tenha passado a ter enorme importância, a concorrência na esfera industrial, no plano internacional, era quase inexistente.

Nas proximidades do final do século XIX, com o desenvolvimento da concentração e centrali-zação de capitais, surgem grandes corporações, que terão seu desenvolvimento alavancado por forte mercado interno, com o estabelecimento, em momento posterior, da concorrência industrial no mercado externo.

[Em seus tempos iniciais, o capital se assenta na máquina a vapor, no ferro e na indústria têxtil, contando com suas bases mais fortes de organização e desenvolvimento industrial na Inglaterra (1760-1830), França (1770-1860), Estados Unidos (1810-1860), Alemanha (1815-1860) e Japão (1860-1890). Na fase seguinte, o capital em processo de oligopolização, desenvolve processos industriais baseados no aço, eletricidade, petróleo e química].

Nessa dinâmica, o processo de acumulação é intenso no setor de bens de produção. O grande capital impulsiona e se apropria de cada avanço tecnológico, que se converte, em pouco tempo em monopólio de grandes corporações, ou seja, em oligopólios de automóveis, petróleo, telefonia, eletricidade, de máquinas em geral, de meios de produção .
[Na esfera da acumulação do capital, o que está em marcha é o processo de centralização e concentração de capitais, adequadamente analisado por Marx em O capital].

Grandes corporações, grandes massas de capitais centralizados, controle monopolístico de tecnologias e mercados, eis a dinâmica da gênese do imperialismo moderno.

[Nos anos 1850, na Inglaterra, desenvolve-se a tecnologia de produção do aço. A primeira forma barata de fabricação do aço, é um material mais resistente que o ferro (mistura ferro com carbono) mas é seguida da descoberta da injeção de um jato de ar no ferro derretido dentro do alto forno. Naquele mesmo ano de 1849 surge o concreto armado na França, o primeiro poço de petróleo em 1859 nos Estados Unidos; na década seguinte, 1867, surge o motor a combustão que vai ser a base, em 1885, da invenção do automóvel, do motor a gasolina; em 1897 a invenção do motor a óleo diesel. Três invenções alemãs. Em 1886 surge o primeiro processo de fabricação barata de alumínio. Em 1867 surge a primeira máquina de escrever de uso pessoal, em 1876 o telefone, em 1879 a lâmpada elétrica, em 1895 telégrafo sem fio. Aparece, em 1883, um material mais resistente que o aço – liga de aço com manganês: a partir daí os trilhos de trem que duravam nove meses passam a poder durar 20 anos].

O mundo dos negócios – assim como o da política – vai sendo dominado por grandes grupos econômicos, seja na Europa Ocidental, Estados Unidos ou Japão. Na verdade, o mundo inteiro: por cima de governos locais, aqueles grupos financeiros passam a deter o controle quase absoluto das economias locais da África, Ásia e América Latina (chamadas de coloniais, periféricas e, mais tarde, neocoloniais, conforme o autor, a fase histórica ou o foco da análise).

A título de resumo se pode dizer que:

“No período propriamente capitalista, que se estende desde 1750, até nossos dias pode-se distinguir uma primeira fase, de 1750 até o final do século XIX, período de surgimento dos capitalismos nacionais baseados em empresas de tamanho ainda modesto, de uma segunda fase, de princípios do século XX aos nossos dias, no transcurso da qual o capitalismo se constitui como sistema mundial baseado na ação determinante de empresas monopolistas e multinacionais enormes. À primeira fase, (...) denomina-se estágio ascendente, progressista, do capitalismo, ou do capitalismo competitivo; à segunda, estágio avançado do capitalismo, aquele no qual a concentração crescente da propriedade privada dos meios de produção entra em conflito com o caráter cada vez mais social da produção” (GILL, 2002: 54).

Esta segunda fase é conhecida como imperialista.

Desde que se leve em conta que toda definição é relativa e não abarca a totalidade do fenômeno, uma definição simples e geral de imperialismo pode ser – segundo Gill – a seguinte: “o imperialismo é o capitalismo que alcançou seu estágio monopolístico e constituiu-se como sistema-mundo único e integrado” (1983:16). A partir da fusão do capital financeiro com o industrial. E que marcará a humanidade pelas crises brutais na economia, pelas guerras e revoluções.

[O imperialismo não será entendido aqui da forma como às vezes é abor¬dado em certos meios acadêmicos (quando é): como desarranjo ou enfermi¬dade passageira (Hobson); apenas como política da expansão colonial do final do século XIX e, portanto, hoje superada; como forma histórica que vem de antes do século XIX (Braudel); com formação que ficou para trás, foi supera¬da (Schumpeter); como processo que comporte qualquer tendência ao equi¬líbrio econômico ou político (Hilferding). Ou, por H. Arendt, com viés essencialmente político, reducionista.
A realidade histórica da economia mundial não endossa nenhuma destas teorias. Dentre os primeiros e clássicos livros publicados sobre imperialismo destacam-se: Hobson (1858-1940) que publicou o seu “O imperialismo” em 1902. Hilferding (1877-1941) que publicou “O capital financeiro” em 1910. E Lenin (1870-1924) que publicou “O imperialismo, fase superior do capitalismo” (escrito em 6/1916) em meados de 1917, obra seminal para a compreensão dos tempos modernos].

O imperialismo é a economia mundial alcançada pelo capitalismo no século XX, é a fase dos grandes bancos fundindo-se com as grandes corporações industriais e avançando sobre o mercado e a produção internacional, estabelecendo, no limite, um sistema hierárquico ou uma rede econômica planetária dominada pela concorrência entre os grandes oligopólios financeiros dos países mais ricos.

De uma forma mais elaborada, no imperialismo:

“a exportação de capitais adquiriu uma importância de primeiro plano e os trustes internacionais lutam pela conquista e a partilha do mercado mundial e as grandes potências capitalis-tas engajadas em uma luta pela hegemonia, disputam a divisão territorial do globo. Cada nova redivisão torna-se ponto de partida de uma nova e inevitável partilha, como testemunha a história do século XX, época do imperialismo, época de guerras e revoluções” (GILL, 1983: 17).

Portanto, e à guisa de resumo, pode-se dizer que a economia mundializada – em termos produtivos – é uma realidade construída principalmente a partir do final do século XIX e começo do século XX, com base naquelas grandes empresas imperialistas, em seus movimentos, e na divisão mundial do trabalho que foi se estabelecendo através desta dinâmica. Só que também será a época de crise e putrefação de um sistema, em todo caso cada dia mais tecnificado e opressivo, como veremos adiante.

Na virada para o século XX, portanto, chega-se à era dos trusts (fusão de várias empresas em uma gigantesca), das holdings (um grupo que controla várias empresas acionariamente) e dos cartéis (acordos entre mega-empresas para controle comum de preços etc). Em 1901, nos Estados Unidos, um único trust (a United States Steel Corporation) produzia 95 % do aço no país. Posteriormente, por exemplo, o império do grupo Rockefeller passou a ter controle de grandes grupos que iam desde a Colgate-Palmolive, a Eastman-Kodak, a Esso, a Alcoa, a B. F. Goodrich, a Caterpillar, a Sears Roebuck, até o Chase Manhattan Bank, a IBM à General Electric.

Desenvolve-se, nesse processo, uma forte oligarquia financeira centrada nos países capitalistas mais desenvolvidos (imperialistas). Conformam-se como Estados usurários (Estados-rentiers), cuja burguesia vive à custa de exportação de capitais, especulação, de exploração de outras nações. Nesses marcos, a fonte central de mais-valia, de valorização do capital, continua tendo como base os próprios países imperialistas, embora cresça o excedente extraído de outras nações.

Alcança-se a era do capitalismo parasitário, de crescimento mais rápido porém mais desigual e belicista. E começa a imperar a tendência, própria aos oligopólios, à estagnação.

[Monopólios estabelecem preços monopolistas e inibem, até certo ponto e por um tempo, o progresso técnico artificialmente, já que podem atrasar ou sabotar inovações que lhes tragam prejuízos].

Nesta fase, a fronteira nacional – interna a cada país imperialista e também a das demais nações – passa a ser paulatinamente um problema e uma barreira ao desenvolvimento daquelas empresas oligopolísticas.

Haverá uma crescente tensão entre o Estado-sede dessas empresas “mundiais” e outros Estados: guerras aduaneiras, guerras comerciais e a própria eclosão da I Guerra são o retrato desse processo de disputa da economia internacional por tais empresas imperialistas. As fronteiras nacionais de um oligopólio alemão ou norte-americano não mais podem ser as da Alemanha ou dos Estados Unidos.

No auge da formatação da Alemanha como nação unificada, desenvolve-se o processo de expansão europeia de suas corporações, portanto ela já se estrutura na condição de economia crescentemente conflitada com os limites nacionais de suas forças produtivas. Mas não pode haver engano: em sua notória agressividade e militarismo, a Alemanha apenas expressa uma tendência de cada grande nação capitalista, uma tendência que os Estados Unidos expressariam com mais marcada nitidez na segunda metade do século XX. Tendência, portanto, que cada nação imperialista expressaria à sua maneira e de acordo com o contexto de forças mundiais.

A Alemanha já não pode – com seus oligopólios de tentáculos europeus – adotar um projeto econômico de “mercado interno”, os Estados Unidos a mesma coisa, a França idem. Os planos alemães são europeus. Os planos dos Estados Unidos são mundiais. Os do Japão, que se modernizou em bases capitalistas, podiam ser tudo menos japoneses.

Trata-se de uma necessidade que se desprende da própria dinâmica econômica, das grandes empresas, que demandam grandes mercados, que emana da divisão mundial do trabalho, do domínio comercial. É o modo de funcionamento do capital uma vez alcançado determinado ponto.

A I Guerra – carnificina de milhões de mortos - irá revelar a existência necessariamente conflituosa de uma economia internacional – mundialmente interdependente e mundialmente baseada em trustes – permanentemente tensionada e chocada com as fronteiras nacionais.

Economia mundial imperialista
A chegada de algumas economias ao estágio dos oligopólios, das grandes massas concentradas de capitais que se lançam a disputar a parte do leão no mercado mundial e no mundo colonial, mostra, nesse sentido, que o capitalismo chegou à maturidade. Como se verá depois, encerra-se neste ponto histórico, sua fase jovem, de livre concorrência, de crescimento orgânico, de crescimento a partir de suas próprias forças internas (e de quase livre desenvolvimento das crises econômicas como foi dito).

Os tempos atuais são outros e é certo que o imperialismo mudou, de lá para cá, mas o processo imperialista continuou sendo uma chave essencial para se compreender a dinâmica da economia mundial e suas transformações.

A economia internacional sofreu inúmeras mutações e, sem deixar de ser o capitalismo imperialista, engendrou a economia planetária tal como a conhecemos: “as finanças modernas e as grandes firmas, que ainda dominam nossas sociedades, ou seja, toda a estrutura social do capitalismo contemporâneo, nasceram como consequência dessas perturbações” (DUMÈNIL, LEVY: 2000).

Por mais que se dê voltas com terminologias do tipo neo-capitalismo, globalização, capitalismo organizado, a verdade é que o imperialismo, com suas corporações, suas frações dominantes do capital financeiro, continua centralizando a economia internacional, e assumindo formas e tendências evolutivas em direção à barbárie, como argumenta Foster referindo-se aos dias atuais.

“O poder sob o capitalismo pode ser somente esporadicamente imposto por meio do tambor de uma arma. Sua fonte real, entretanto, é o relativo poder econômico, que é, por sua natureza, instável. Isso tudo sugere que a rivalidade inter-imperialista não acabou, como frequentemente se pensou, com a ascensão da hegemonia estadunidense. Muito pelo contrário, ela persistiu na procura de Washington pela hegemonia ilimitada que pode ser rastreada até a lógica subjacente do capital num mundo dividido entre Estados-nações competidores.

Os Estados Unidos enquanto super-poder remanescente, está hoje procurando pela dominação mundial final. (...) Procuram extrair o máximo possível de excedente dos países da periferia, enquanto consolidam uma estratégia de breakout com relação aos principais (ou potenciais) rivais à supremacia global estadunidense. O fato é que tal objetivo irracional e impossível de ser mantido, constitui um fracasso inevitável da geopolítica. (...) O império sob o capitalismo é inerentemente instável, (...) e apontando para guerras cada vez maiores e potencialmente mais perigosas. Sua evolução de longo prazo é rumo à barbárie – armado cada vez mais com terríveis armas de destruição em massa” (2006: 34).

[Continua na Nota n.5, brevemente no ED].
[Crédito de imagem: www.amodelcastillo.blogspot.com.br ]

Referências:
FOSTER, J Bellamy, 2006. A nova geopolítica do Império. In Revista Outubro n.14, 2º semestre 2006, São Paulo, Alameda Editorial, p. 11 a 38.
DUMÈNYL, Gerard, LEVY, Dominique, 2000. Crisis et sortie de crise. Ordre et desordres néoliberáux. Paris: Presses Universitaires de France.
GILL, Louis, 1983. L´economie mondiale et impérialisme. Montreal, Canadá: Boreal Express.

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas].




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