A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ NOTA n.5

Por que o surgimento do imperialismo significa subdesenvolvimento e sangria crônica de países como o Brasil?

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 29 de setembro| Edição do dia

História das relações centro-periferia

Na segunda metade do século XIX, os capitais excedentes das metrópoles procuraram as regiões não-industrializadas do mundo. Continuou ocorrendo, portanto, agora sob novos moldes, o processo de conformação de uma economia mundial, estruturada pelo dinâmico movimento de acumulação do capital centrado na Europa (e, em seguida, Japão, Estados Unidos). Naquela época, a libra é a moeda internacional e a praça financeira de Londres o centro bancário do mundo.

Capitais ingleses – e pouco a pouco norte-americanos – vão inundar várias partes do mundo em todas as direções. É o processo de exportação de capitais impondo-se sem que perca fôlego a exportação de mercadorias. Telégrafo, linhas ferroviárias, navegação a vapor como – já foi mencionado – vão unificando o mercado mundial, pelas mãos do capital, do deslocamento do capital acumulado em busca de rendimentos.

Em fins do século XIX, teve início um processo de industrialização rudimentar e desigual na periferia – em países como Argentina, México, África do Sul etc – que sofreu aceleração na crise econômica mundial de 1930, através de um processo mais conhecido como de industrialização pela substituição de importações, nos marcos da dependência das burguesias locais em relação ao imperialismo.

Após a II Guerra Mundial as grandes corporações das metrópoles industriais, ávidas de lucros lançaram-se sobre a economia internacional e diante do fato de que aquele processo de certa industrialização em alguns países periféricos era irreversível, irão instalar plantas industriais em muitos países da periferia. Esta industrialização de “fora para dentro” será formatada, logicamente, segundo os interesses do capital imperialista:

“A burguesia imperialista introduz o modo de produção capitalista nos países coloniais e semicoloniais de forma muito particular. O modo de produção capitalista não se desenvolve ali de acordo com as necessidades do desenvolvimento econômico industrial dos países em questão, e sim segundo os exclusivos interesses da burguesia imperialista e da própria metrópole” (MANDEL, 1972: 82).

É por essa via que o capitalismo imperialista constrói o subdesenvolvimento. Quando o capitalismo britânico chega à Índia, por exemplo, trata de liquidar a manufatura hindu, então muito forte. Daí se poder afirmar que as condições naturais ou raciais não explicam o subdesenvolvimento hindu e nem de qualquer outro país. É preciso procurar sua lógica no processo mundial de acumulação do capital, sua expansão e suas crises.

Tome-se um exemplo. No mercado mundial de determinado momento, fins do século XVIII e início do XIX, o principal provedor mundial de produtos têxteis não é ainda a Inglaterra em que pese seu boom industrial em tecidos produzidos por máquinas. Os maiores provedores do mundo são a China e a Índia. Seus tecidos de algodão são mais baratos.

A burguesia inglesa não tarda em reagir: irá taxar a entrada destas mercadorias no seu país ao mesmo tempo em que induz a Índia e, mais tarde, a China, a se submeterem a uma abertura indiscriminada dos seus mercados aos têxteis ingleses.
A vassalagem dessas elites coloniais é sua marca registrada desde então; modernizam-se associadas ao imperialismo.

Os capitais ingleses quebram aqueles dois países produtores de tecidos baratos para, em seguida, tratarem de impor à Índia que produza algodão barato para vender às fábricas de tecidos ... inglesas. Resumindo: não há nada de “natural” na conformação da nova divisão mundial do trabalho e da economia sob a égide do capitalismo industrial e financeiro.

Se é certo que países coloniais e semicoloniais possuem abundantes riquezas naturais, também é certo que

“riquezas equivalentes não conduziram a explorações do tipo da monoprodução, da monocultura da Inglaterra, Canadá, Suécia, Bélgica, Boêmia, Silésia, Ruhr etc. Longe de serem `naturais`, a maior parte das vezes as monoculturas foram importadas do estrangeiro (especialmente o café em Java, Ceilão e Brasil; o algodão no Egito e no Sudão; a cana-de-açúcar em Cuba etc). O melhor exemplo a esse respeito é o da borracha natural no Sudeste Asiático” (MANDEL, 1972: 80).

O que coincide com o argumento de Harvey:

“Os antagonismos entre a cidade e o campo, entre o centro e a periferia, entre o desenvolvimento e subdesenvolvimento, não são acidentais e não são impostos de fora para dentro. São produtos coerentes de diversas forças que se entrecruzam e que operam dentro da unidade global do processo de circulação do capital” (HARVEY, 1990: 421).

Desde que consideremos que a pressão capitalista veio de fora, logicamente.
Neste processo, em vez de se encaminharem para uma evolução semelhante à dos mais avançados e de se tornarem, também eles, países imperialistas, o que vai ocorrer com os mais atrasados ou que simplesmente chegam tarde na partilha econômica internacional, é que serão recolonizados pelos países imperialistas. Sua dinâmica será a de organismos ou economias nacionais parasitadas por uma economia capitalista mundial madura, imperialista e, por isso mesmo, elas próprias, combinando crescimento com parasitismo. Elementos combinados com estruturas desiguais.

Chamar a tais países de emergentes ou em desenvolvimento não muda em nada a natureza deste processo. Nem nos autoriza a imaginar que eles vão emergir, tipo o Brasil virar uma França. Nem nos autoriza a imaginar que eles vão emergir, tipo o Brasil se tornar uma França. Mas mesmo essa industrialização desigual das colônias, com o passar do tempo e das mudanças históricas do próprio capitalismo, tende a tornar-se mais um elemento de contradição dentro da totalidade econômica mundial de cada época:

“Essa divisão do trabalho criada em princípio pela exportação de capitais, terminou inevitavelmente minada por ela própria. As terríveis diferenças do nível de vida, a subordinação brutal de uma nação a outra, preparam a revolução colonial que favorece por sua vez a industrialização dos países subdesenvolvidos, acentuando as contradições internacionais do capital” (MANDEL, 1972: 82).

Em cada conjuntura, as frações econômicas locais, dos países atrasados, se deparam com a tarefa de lutar por sua sobrevivência, com fricções, embora prevalecendo, historicamente, a submissão e sua posição subalterna, de sócios menores da economia imperialista. A história de países como o Brasil, por exemplo, não pode ser entendida fora desse foco.

Não há harmonia nesse processo tomado em sua totalidade. Há hierarquias, mas não há um centro ordenador dessa divisão mundial do trabalho. E nem nada parecido com “concerto das nações”, “cooperação entre as nações” e carochinhas do gênero.

O processo é caótico, e essa nova economia mundial é modelada pelos movimentos mundiais do capital em seu processo de acumulação. E o imperialismo o grande beneficiário.

A natureza desse processo caótico que inclui desenvolvimento de certas regiões às custas de outras, homogeneização e diferenciação, é desigual e combinado, jamais homogêneo.
E se conforma segundo o ritmo de forças produtivas que rompem e transbordam as barreiras nacionais em busca da ilimitada e ininterrupta acumulação do capital no espaço mundial. E por isso mesmo, em casos de países como o Brasil, que emergiu para a economia moderna submetido ao imperialismo, sua tendência histórica é a de continuar marcando passo, concentrando renda e desigualdades, sob o jugo do capital imperialista. Ou isso – e disso para pior, para mais concentração de renda, mais devastação ambiental, por exemplo - ou a revolução socialista.

[Continua na Nota n.6, brevemente no ED].
[Crédito de imagem: edteck.com ]

Referências:
HARVEY, David, 1990. Los limites del capitalismo y la teoria marxista. México: FCE.
MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economia marxista, 2 volumes. México: E. Era.

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas].




Tópicos relacionados

Capitalismo   /    Economia internacional   /    História

Comentários

Comentar