A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.19

Por que o neoliberalismo desembocou na grande crise de 2008-09?

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 10 de setembro| Edição do dia

Uma característica de recuperações econômicas como as que se deram em certa fase, já da crise do neoliberalismo (a das bolhas ponto.com e a imobiliária), foi a de uma taxa de acumulação do capital bem mais fraca do que o que seria possível pelas taxas de lucro dadas ou mesmo em relação à grande acumulação do capital alcançada.

Isto é uma expressão patente de que:

“As distintas políticas de reativação encaradas desde o final do boom [pós-II Guerra, GD] e o resultado das ofensivas sobre os assalariados, foram insuficientes. O capitalismo se mantém em uma situação na qual, para sustentar a ‘modesta’ recuperação da taxa de lucro, deve limitar as novas inversões a alguns ramos e regiões, como foi no seu momento a ‘nova economia’ e atualmente vem sendo China e Índia. Em um plano geral, está por baixo do seu potencial, já que é a única forma de não recair em uma situação geral de sobreacumulação” (MERCATANTE, 2008: 201).

Estabilizações e declínio em meio à crise “mal resolvida”

Brenner, referindo-se aos primeiros anos do século XXI, argumentava na mesma direção:

“Mesmo atualmente, há pouca evidência de que a economia mundial, ou a dos Estados Unidos, tenha conseguido superar o longo declínio, isto é, o extenso período de crescimento lento que começou por volta de 1973. Em consequência, a economia americana e, generalizando, a economia mundial, tiveram e continuarão tendo dificuldades para evitar uma volta à estagnação, ou a algo pior” (2003: 17).

As bolhas financeiras, a “preferência” pelos ganhos especulativos, a alavancagem da punção financeira sobre cada nicho da economia “real” tem a ver com esse limite secular do capital.

Ou seja, considerando-se as grandes massas de capitais concentrados, centralizados, considerando-se o maior volume de capital fixo (em máquinas e equipamentos modernos e caros) necessário a cada empreendimento industrial e, frente a isso, a taxa de lucro que rapidamente tende a cair com o aumento da produtividade, o que se assistiu, durante as décadas em que o capital obteve ganhos colossais sobre o preço da mão-de-obra, foram recuperações parciais seguidas de crise (estouro da bolha) mas sem que o sistema tivesse podido romper com o padrão geral de toda uma época, particularmente a que o acompanha desde a crise dos 1970.

Em toda essa época instalou-se uma tendência declinante nas taxas de crescimento do PIB real, como se pode ver na curva a seguir, em relação ao conjunto dos países mais ricos (G7).

[Declínio histórico do PIB mundial]
No caso da economia mais rica, os Estados Unidos, e, ao mesmo tempo, a mais alimentada por endividamento público e gastos militares do planeta, o gráfico das taxas de crescimento também mostra declínio.

É importante destacar que a crise prolongada através dessas décadas não esteve sempre aberta, não foi “crise permanente”. Em outras palavras, é certo afirmar que o capitalismo vive, historicamente, um declínio, mas não é correto pensar em crise estrutural “permanente” ou sempre aberta: há momentos de recuperação, crescimento e, com a ofensiva neoliberal houve relativa recomposição da taxa de lucro expressa em alguns nichos.

O que tais estatísticas não vão revelar de imediato, é a desigualdade e os desequilíbrios no crescimento, o custo social da simples existência da economia mundial capitalista tal como ela é, ou o potencial para as recaídas bem mais profundas.

E muito menos mostrarão que, mesmo a recuperação da rentabilidade para investimentos na produção, não tem produzido mais que bolhas no crescimento.

Examinando-se em perspectiva, a prosperidade financeira dos Estados Unidos nas últimas décadas apoiou-se em pés de barro e um deles foi o crescente endivida¬mento público. Em 1930, a dívida externa norte-americana era de 16 bilhões de dólares.

Em 1939, era de 40 bilhões de dólares. Ao final da II Guerra, era de U$ 270 bilhões. Em 1989, saltou para U$ 2,9 trilhões! Em 2007 a cifra era astronômica: U$ 9 trilhões em relação a um PIB de U$ 13,8 trilhões! O outro pé de barro veio sendo o permanente déficit fiscal e desequilíbrio na balança comercial.

[Escalada da dívida pública norte-americana]

A “dívida pública dos EUA bateu mais um recorde, superando US$ 21 trilhões (R$ 67,2 trilhões), segundo os dados divulgados pelo Departamento do Tesouro dos EUA; uma das promessas eleitorais do presidente atual, Donald Trump, foi a eliminação da dívida pública norte-americana, entretanto, durante apenas um ano de Trump como presidente, a dívida pública aumentou mais de US$ 1 trilhão (R$ 3,2 trilhões)” [1].

Os Estados Unidos gastavam e compravam (e continuam fazendo isto) além da sua capacidade: emitindo dólares e papéis do Tesouro nominados em dólares.
Por isso, trata-se de décadas que arrastaram, cronicamente, uma crise séria.
Na qual o capital se trava a si próprio, esbarra em dificuldades para sua valorização, e para a realização da sua crescente capacidade de produzir mercadorias mesmo quando aparecem oportunidades de boa rentabilidade na produção. Ou de alguma estabilidade política conservadora.

E daí, portanto, “as periódicas crises de sub-produção e sobre acumulação exacerbadas pelo crédito não somente para a produção, como também para o consumo” (CHINGO, 2008: 132).

Por tudo isso, “o risco de grandes catástrofes não desapareceu, mas se estendeu no tempo, ao preço de aumentá-las em proporção e explosão quando [venha a] estourar” (CHINGO, 2008: 130).

Não é possível imaginar a economia mundial, nesse sentido, como uma totalidade em evolução ou superação pacífica, evolutiva e institucional dos seus grandes desequilíbrios.

É tudo ao contrário.

Marcha para crise mais grave
As convulsões econômicas atuais de 2008, através das quais o sistema mergulha na sua mais grave crise em décadas, com magnitude semelhante à de 1929, são cabal amostra disso.

Em crises anteriores, dos anos 80 e 90, o sistema monetário permaneceu funcionando e o padrão de equilíbrio internacional ancorado monetariamente no dólar. Os Estados Unidos atravessaram recessões e voltaram a crescer enquanto outras economias saiam perdendo (Japão, Alemanha) e garantiram, com suas gigantescas reservas em dólar (superávits comerciais) afluindo para os Estados Unidos, que estes não afundassem.

A posição hegemônica do dólar como reserva mundial se manteve e os Estados Unidos continuaram financiando mega-bolhas de consumo interno, de compras internacionais ao Japão, à União Europeia, à China, mesmo na condição de maior devedor mundial e sofrendo uma queda vertiginosa de sua poupança interna.

Já a crise atual da economia mundial é um indicador de que toda essa dinâmica chegou ao paroxismo. E os mega-pacotes públicos dos Estados Unidos são a tentativa, novamente, de sair pouco a pouco da recessão que se instalou – e que tende a não ser resolvida – jogando a crise sobre as massas e nas costas de outras economias.

Mas as dificuldades históricas são outras, há contradições acumuladas de crises anteriores.

As dificuldades históricas para este de’já vu, para manter, diante da crise atual, o padrão norte-americano de saída de crises reiterado nas recentes décadas, são bem maiores. Algumas destas dificuldades, nos marcos desta crise atual de enorme magnitude, podem ser formuladas através de perguntas simples:

1 . Poderão as demais economias do G7 e credoras dos Estados Unidos – e encontrarão condições políticas neste sentido – continuar injetando rios de dólares para sustentar a economia norte-americana (e seu consumismo) e segurar o dólar, sem as consequentes e intoleráveis contrapartidas para os Estados Unidos e para o próprio equilíbrio instável do sistema? (Por exemplo: maiores taxas de juros dos Estados Unidos – com consequente agravamento da recessão).

2 . Como fica a economia internacional com o seu “consumidor de última instância” (os Estados Unidos) gravemente enfermo e com sua economia desaquecendo? Em outros termos, como fica a economia mundial, inclusive os chamados emergentes, com a desaceleração do consumo norte-americano e, por tabela, da maior fonte mundial de extração de mais-valia, e de demanda de commodities, a China?

3 . Poderão as economias do G7 e dos chamados emergentes evitar as tensões e tendências protecionistas, em um processo onde já revelam – por conta da crise global – dificuldade de se coordenarem para ver, no fundo, quem vai arcar mais com o custo de crise?

4 . Tomando o processo de conjunto, até quando a crise mundial, que se arrasta – com vais-e-vens – há décadas sem conseguir, politicamente, promover a limpeza ou saneamento de capitais menos “eficientes”, como vai poder resistir sem essa destruição maciça e sem agravar o militarismo e a devastação social em níveis colossais?

5 . Pesados pacotes de resgate, na Europa e nos Estados Unidos, implicam em maior carga tributária; pois bem, em uma economia mundial que está entrando, sincronizadamente, em longa recessão, até onde irá o impacto daquelas medidas fiscais e de restrição na renda do consumidor? (Ainda mais com desemprego em alta). E também: a tensão entre as grandes economias, os oligopólios internacionais para lançarem a crise uns sobre os outros e, de conjunto e principalmente, sobre as massas, que tensões e convulsões sociais e revolucionárias levantarão?

E mais ainda: até onde irá a tolerância da população sem¬pre espoliada, dos trabalhadores, sob efeito da crise e quando tomarem plena consciência de que o Estado sempre tem trilhões de dólares para salvar a patronal, mas não tem dinheiro para salvar as escolas, a saúde pública, o planeta, a vida e os trabalhadores, aposentados e suas famílias?

Estas questões estão em aberto.

[1] - https://www.brasil247.com/pt/247/economia/347663/D%C3%ADvida-p%C3%BAblica-dos-EUA-bate-recorde-e-vai-a-mais-de-US$-21-trilh%C3%B5es.htm

Bibliografia:
CHINGO, J, 2008. Crise e contradições do ´capitalismo do século XXI´. Revista estratégia Internacional-Brasil, n.3, SP, maio 2008, p. 75 a 144.
BRENNER, R, 2003. O boom e a bolha: os Estados Unidos na economia mundial. RJ: Record.
MERCATANTE, E, NODA, Martin, 2008. Gradualismo y catastrofismo. Lucha de Clases-Revista Marxista de Teoria y Política, n. 8, junho 2008, p. 211 a 226.

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas]. Continua na nota n.20.

Crédito de imagem [adaptada] do site: www.sociology.org




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