Opinião

ELEIÇÕES RIO GRANDE DO SUL

Por que o PSOL gaúcho insiste em se aliar com o PPL?

A conjuntura eleitoral de 2018 coloca uma série de debates no cenário político. A crise econômica, política, social e de representatividade se expressa com força nas intenções de voto (e não voto), e ressalta a necessidade de uma resposta da classe trabalhadora para a situação nacional. O PSOL, que se diz alternativa à esquerda do PT, mais uma vez se mostra incapaz de cumprir esse papel quando aponta para repetir aliança com um partido da classe dominante, o PPL, no Rio Grande do Sul.

quinta-feira 5 de julho| Edição do dia

Foto: PSOL/MES e PPL firmando sua aliança nas eleições de 2016 em Porto Alegre.

No último dia 28 o jornal Zero Hora, da RBS, filiada da Rede Globo no Rio Grande do Sul, fez projeções sobre o tempo de TV dos pré-candidatos ao governo do estado. Na matéria, ao lado de Roberto Robaina (PSOL), passa quase despercebida a sigla do Partido Pátria Livre. Embora o PPL tenha participado do pré-lançamento da candidatura de Roberto Robaina, ambos não confirmaram oficialmente a aliança. Mesmo assim, vale fazer uma retomada acerca do PPL e o que significa a possível repetição dessa coligação com o PSOL no RS.

Aparentemente insignificante na política nacional, o PPL é um típico partido burguês fisiológico. Uma entre tantas siglas que se metem em coligações de todo o tipo e são disputados por outros partidos burgueses para somar tempo de TV. Em sua história recente no estado, o então deputado do PPL Bombeiro Bianchini votou junto ao governo Sartori a favor do Regime de Recuperação Fiscal (PLC 249/2017) de Temer, para que os trabalhadores e o povo gaúcho sigam pagando pela crise. O deputado foi expulso do partido e seguiu seu mandato na Assembleia Legislativa pelo PR.

Alguns de seus fundadores são dissidentes de nada menos que o PMDB de Sartori, Temer, Cunha, etc. Uma ruptura pouco convicta, pode-se dizer, tendo em vista que o PPL apoiou o PMDB em diversos locais nas eleições. Chama atenção, aliás, a quantidade de partidos (burgueses, óbvio) com os quais o PPL se alia Brasil à fora.

É até difícil traçar um mapa completo das alianças dos "patriotas" do PPL. Além do PSOL, em torno da candidatura de Luciana Genro em Porto Alegre nas eleições de 2016, e do PMDB, o PPL já fez alianças e inclusive governou com partidos como PSDB, DEM, PP, PTB, PV, PT, PSB, PR, PHS, PRB, PSL. Em 2014 apoiaram a candidatura de Marina Silva (Então PSB, hoje REDE), assim como também compuseram seu bloco golpista posteriormente. Na disputa presidencial deste ano lançaram como pré-candidato João Goulart Filho, que até ano passado era do PDT.

Com um leque tão variado de nefastas alianças não demorou para que o PPL aparecesse em investigações de corrupção. No DF Telma Rufino e Marco Antônio Campanella, então membros do partido, foram acusados em 2015 de participar de uma rede de estelionato em que parte dos recursos supostamente iam para campanhas do PPL e outros partidos. O próprio PPL chegou a ser acusado de adulterar o processo de expulsão de Telma. Marco Antônio Campanella se manteve no partido. Além deste caso Campanella também foi apontado como um dos 17 envolvidos em irregularidades em contratos de transporte do DFTrans, do qual era presidente. Cabe ressaltar ainda que o PPL também não vacilou em receber dinheiro de empreiteiras investigadas na Lava Jato.

Mas afinal, por que o PSOL gaúcho insiste nesta aliança?

A busca da aliança com o PPL é uma forma de sinalizar aos demais partidos burgueses, e à classe dominante de conjunto, que o PSOL está disposto a fazer governo dóceis, que não ataquem a propriedade privada e sequer a neoliberal Lei de Responsabilidade Fiscal. Embora o MES se mostre, digamos, "envergonhado", do seu golpismo a insistência nas alianças com partidos burgueses e também na defesa da reacionária Operação Lava Jato mostram como simplesmente admitir o golpe não é suficiente para resolver problemas mais profundos. Acabam apontando novamente à confluência com o "golpismo desavergonhado" do PPL no RS. Não porque esse partido vai fazer uma grande diferença em seu tempo de TV ou mesmo porque vai ajudar a eleger candidatos. E sim porque isso é parte de sinalizar claramente o quão inofensivos são à classe dominante.

O PSOL, que se diz alternativa à esquerda do PT, busca repetir suas escolhas eleitorais de 2016, como se naquele ano elas tivessem dado certo. Luciana Genro foi candidata em Porto Alegre em aliança com o Partido Pátria Livre, mas esse não foi o único elemento de direita de sua candidatura. Ela e o MES, sua corrente no PSOL, defenderam terceirização, parcerias público-privada, além da Lei de Responsabilidade Fiscal. Fizeram ainda uma campanha com muita ênfase no tema da segurança pública, defendendo uma maior militarização da Guarda Municipal e sua atuação conjunta com a Brigada Militar do governo do estado, um programa de segurança digno de uma candidatura puramente de direita.

Não se explica por fora da deriva golpista do MES, que envolve sua aliança com esse partido burguês mas também esses elementos de direita na campanha de 2016, o fato de Luciana Genro ter despencado do primeiro lugar nas pesquisas eleitorais para a prefeitura de Porto Alegre para o quinto lugar nas votações. Frente à possibilidade real de vencer, Luciana Genro foi "endireitando" cada vez mais seu discurso para deixá-lo ao gosto das elites. Ao invés de apostar em um perfil de esquerda, Luciana Genro e o MES resolveram, com esse programa de direita, se aproximar mais de concepções da base tradicional da direita, principalmente de Marchezan (PSDB), que foi eleito.

De 2016 pra cá algumas coisas mudaram. Uma delas é que o PSOL vem aprofundando seu curso à direita. A plataforma Vamos!, o Manifesto Unidade Para Reconstruir o Brasil, assinado por representantes do PSOL, mas também PT, PCdoB, PDT e outros, assim como a Frente Pela Democracia que inclui até o PSDB (!) e os liberalóides do NOVO, além de mais setores do golpismo, são alguns dos recentes exemplos desse movimento.

O PSOL, que chegou a falar, em algum passado distante, que não faria alianças com partidos apontados em casos corrupção, mordeu a língua com o PPL em 2016 e agora em 2018 talvez nem arrisque falar isso. Também falavam contra os que recebiam dinheiro de empresas investigadas na Lava Jato, o que neste ano também não deve aparecer no discurso, uma vez que o próprio MES assumiu com bastante tranquilidade manter seu cursinho pré-vestibular com recursos da enlameada Odebrecht. Tendo em vista os movimentos à direita do partido no último período, compartilhando frentes políticas e assinando manifestos com PSDB, NOVO, REDE, PDT, PT, PCdoB e outros, vai se aproximando cada vez mais do PPL. Ao que parece, estão se habituando nesses ambientes em que impera a política da classe dominante.

A aliança com um partido fisiológico como o PPL, no marco de todas essas capitulações do PSOL, reforçam a impossibilidade deste partido ser uma alternativa real para superar o PT pela esquerda. Seguem seu mesmo curso de conciliação de classe. Resta saber se será mais vantajoso para o PPL sair em aliança com o PSOL ou em uma coligação mais puramente burguesa.

Se o PSOL quisesse impulsionar uma candidatura de esquerda essa aliança deveria estar descartada. Além de abrir mão deste tipo de coligação, seria necessário romper com pontos programáticos que Luciana Genro defendeu em 2016 junto com a direita, como a terceirização, fortalecimento da polícia e do aparato repressivo, a defesa das parcerias público-privadas e da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ainda como mínimo para uma candidatura de esquerda, nacionalmente o PSOL precisaria abandonar as frentes políticas e programáticas como o Pacto Pela Democracia, que defenderam junto com PSDB, NOVO e outras organizações da burguesia. Entretanto o PSOL evidencia que uma candidatura de esquerda não está entre seus objetivos, enquanto se adapta e se mostra cada vez mais inofensivo ao regime.




Tópicos relacionados

MES   /    Rio Grande do Sul   /    Eleições 2018   /    Porto Alegre   /    Caxias do Sul   /    PSOL   /    Opinião   /    Política

Comentários

Comentar