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Debates na esquerda | Por que o Alicerce não rompe com o PSOL ao invés de aderir à federação com a REDE e à chapa Lula-Alckmin?

O PSOL vive uma crise histórica sem precedentes após decidir pela Federação com a REDE e a diluição na chapa Lula-Alckmin. Abrimos um debate com o coletivo Alicerce, que é parte desse giro à direita do PSOL.

Gabriela MuellerEstudante de Psicologia UFRGS

quinta-feira 12 de maio | Edição do dia

O coletivo Alicerce lançou recentemente suas pré-candidaturas para o estado do Rio Grande do Sul e do Paraná pelo PSOL e decidiu definitivamente seguir o caminho à direita que o partido vem trilhando junto da REDE. Agora lançaram nota de apoio à chapa Lula-Alckmin já no 1º turno sem apresentar uma gota de crítica ao PT ou ao Lula.

Em dezembro do ano passado, um membro do Alicerce, Daniel Emmanuel, escreveu um texto chamado “PSOL na encruzilhada”, dizendo que diante do apoio no primeiro turno a Lula, o que estaria “em jogo é se o partido ousará evoluir como uma alternativa socialista e radical ou se irá se acomodar como peça de sustentação do regime”. Acontece que o PSOL já caminhou até essa “encruzilhada”, atravessou-a, abraçou Lula e Alckmin no caminho, deu as mãos para a REDE em uma esquina e o Alicerce tomou a decisão consciente de ir junto. Emmanuel estava errado em dezembro ou o PSOL de fato vem evoluindo para “acomodar-se como peça de sustentação do regime”? Acreditamos que a segunda hipótese está certa, que a Federação com a REDE ajuda a temperar essa história, os ataques aos trabalhadores na prefeitura do PSOL, em Belém, engrossam esse caldo e que o Alicerce, apesar das tímidas reclamações, é parte integral desse processo, compondo essa diluição como uma “ala mais ou menos crítica” ou algo próximo disso – ala também bastante funcional à política da direção do PSOL.

Abrimos esse debate pois estamos vivendo um momento divisor de águas na esquerda brasileira. Nós do MRT apontamos um caminho diferente do que o Alicerce e o PSOL trilham e construímos o Polo Socialista e Revolucionário com o intuito de construir uma alternativa independente, dos trabalhadores e da juventude para combater o bolsonarismo, a direita, o regime político golpista e fazer com que os capitalistas paguem pela crise. Inclusive abrimos o Esquerda Diário para esses debates imprescindíveis nesse momento e chamamos os setores críticos a romperem com o PSOL e construir um caminho de independência de classe. As alianças com a direita pavimentaram o caminho do golpe e o crescimento da extrema-direita que hoje arrasa com os trabalhadores e a maioria pobre da população. É na busca por uma política que se enfrente com o bolsonarismo e esse regime político apodrecido que abrimos esses debates na esquerda, também em combate à conciliação de classes que hoje o PSOL e o Alicerce estão seguindo.

Apesar do Alicerce ser uma corrente que historicamente se abstém de debates estratégicos, teóricos ou mesmo políticos e polêmicos entre organizações, nós achamos importante debater com trabalhadores e jovens as contradições e equívocos das políticas em jogo, como sempre fez a tradição do marxismo revolucionário. O objetivo é afinar um caminho revolucionário, não um de adaptação oportunista ao regime burguês, como hoje faz o Alicerce.

Alicerce com a golpista REDE, de Marina Silva, ligada ao Itaú e com aliados de Ratinho Jr.

Na prática, independentemente da vontade do Alicerce ou do que eles gostariam que fosse, eles vão se beneficiar eleitoralmente dos votos da REDE. Suas panfletagens ajudarão a eleger políticos burgueses da REDE e o Alicerce participará de uma aliança político programático com esse partido durante 4 anos. Este é um fato incontornável que apresenta não uma mera contradição, mas um salto de qualidade na adaptação do PSOL à política e a um programa burguês. Com Alicerce junto.

Essa decisão consciente do Alicerce é tão chocante que, na prática, os seus panfletos vão ajudar a talvez eleger um grande aliado do bolsonarista Ratinho Jr. no Paraná. Lá, onde o Alicerce terá 2 candidatos, David Urbano e Mateus Ribeiro, a REDE tem como uma de suas principais figuras Mauro Rockenbach, ex-secretário da Justiça, Família e Trabalho do reacionário e neoliberal governo de Ratinho Jr. (PSD). Agora Rockenbach saiu do governo para se candidatar a deputado federal, que contará com a campanha dos membros da REDE e da militância do PSOL e do Alicerce. Trata-se de um fato objetivo, independente de qualquer malabarismo retórico contrário: por conta da legislação da Federação, a campanha do Alicerce no Paraná vai ajudar a campanha de um representante anti-povo, aliado do bolsonarismo, reacionário que defende ataques contra os trabalhadores. Que espaço há nessa aliança nefasta para os setores que batalham por um projeto revolucionário?

A REDE foi um partido que nasceu como uma espécie de startup da Faria Lima que não decolou, com Marina Silva à frente, financiada por Neca Setúbal (uma das donas do Itaú) e Guilherme Leal, dono da Natura. Nasceu como um partido atrelado às classes dominantes e segue até hoje. O PSOL e o Alicerce em São Paulo, por exemplo, vão ajudar a eleger Marina Silva, que apoiou o golpe, Aécio Neves em 2014, a autonomia do banco central, entre outras barbaridades e outros candidatos burgueses. Plínio Jr. chegou a definir o programa da REDE como algo apenas levemente à esquerda do de Paulo Guedes (!!). A bem da verdade, o programa assinado pelo PSOL e REDE, aliança a qual o Alicerce está aderindo, é um programa burguês e tem a cara de Marina Silva e do Itaú. As mazelas que os trabalhadores e o povo pobre do Brasil estão sofrendo têm responsabilidade compartilhada por esses setores que o PSOL e o Alicerce estão se aliando.

Em Porto Alegre, onde Alicerce tem uma vereadora, a REDE abrigou figuras grotescas como Mauro Pinheiro até bem pouco tempo atrás. Hoje ele está no PL de Bolsonaro, foi líder na Câmara do governo Marchezan e comandou os ataques aos rodoviários em 2020. Apelidado pelos motoristas e cobradores de “Mauro Dinheiro”, o crápula também é amigo do prefeito bolsonarista Melo, tendo apoiado a extinção do cargo de cobrador, bem como a privatização da Carris. É essa a tradição de partido com a qual o PSOL em Porto Alegre, e o Alicerce, se comprometeram programática e politicamente durante os próximos 4 anos. Parece que o Alicerce segue o caminho do MES, que está sempre disposto ao vale-tudo eleitoral para não abrir mão de seus cargos.

Mas essa não é a primeira vez, inclusive, que o Alicerce dá as mãos para partidos burgueses. Nas eleições de 2020 apoiaram a candidatura à prefeitura de Florianópolis, o Professor Elson do PSOL, junto do PDT de Ciro Gomes, do PSB golpista de Alckmin, da REDE, PT, PCdoB e UP. Já naquele momento estavam se preparando para ser a “ala crítica” do governo de uma frente ampla com partidos burgueses, ou algo próximo disso.

A diluição do PSOL e do Alicerce na chapa Lula-Alckmin

Escrevemos esse texto também para dialogar com setores que votaram na Karen, vereadora do Alicerce, por enxergar na sua política a representação de algo diferente da lama da política institucional. Nesse sentido é importante mostrar como o PSOL e o Alicerce caminham em direção cada vez maior nesse sentido.

Agora o PSOL encontra-se no caminho de não só se diluir por completo na chapa Lula-Alckmin, como compor governo. Ainda está aberto se, em eventual vitória de Lula, o PSOL terá ou não cargos no governo. O Alicerce, como de praxe, não se posicionou sobre isso, mas ao que tudo indica seguirá no PSOL mesmo com um novo salto de qualidade à direita, como esse de diretamente administrar o Estado burguês junto a neoliberais e reacionários como o racista do Alckmin, Campos Neto (bolsonarista presidente do BC que Gleisi já afirmou que vai manter se Lula vencer) e outros. Ou seja, além de o Alicerce raramente criticar publicamente o programa ou a política do PT ou mesmo apresentar um programa diferente, eles seguem num partido que talvez esteja governando o Estado burguês no ano que vem. Estão se beneficiando eleitoralmente desse partido e dessa política.

O Alicerce é uma organização regional, concentrada no Rio Grande do Sul e poucos militantes em alguns poucos estados do Brasil. Se no restante do país eles possuem peso diminuto, qualquer crescimento regional que tenham tido se deu na proporção direta ao curso à direita do PSOL dos últimos anos. Isso tudo sempre de forma bastante acrítica ao programa e política do PT, como mostra a coexistência pacífica entre eles na câmara municipal, ou mesmo a completa ausência de qualquer diferenciação ou crítica ao PT ou Lula em suas redes sociais. Apesar de na nota que soltaram contra a REDE eles criticarem a “adesão acrítica ao lulo-petismo” pelo PSOL, é necessário uma lupa de alto alcance para encontrar qualquer menção crítica à política de conciliação de classes do PT e de Lula em suas páginas nas redes sociais, nos panfletos que soltam ou mesmo na de sua principal figura, a vereadora Karen Santos.

A nota que soltaram em apoio à chapa Lula-Alckmin mais uma vez não apresenta nem uma sombra de crítica. Sequer ao racista Geraldo Alckmin há uma crítica muito desenvolvida. Nessa nota, eles apontam que “não restou alternativa real que não chamar voto em Lula já no primeiro turno” e em outro momento afirmam que há figuras e militantes do PSOL indo à direita ou “ao isolamento”, se referindo aos que se negaram a seguir a política direitista da maioria do PSOL. É impressionante como as declarações deles se contradizem, pois até ontem apoiavam a candidatura de Glauber para a presidência – e agora os que propõem outra candidatura e outro caminho estão indo ao “isolamento”? Como podem mudar radicalmente de uma hora para a outra um posicionamento e sequer explicar essa mudança? E criticam a “adesão acrítica ao lulo-petismo” em uma nota, mas na nota de adesão à campanha do Lula-Alckmin não soltam nenhuma crítica (!!). Na tese para o Congresso do PSOL, afirmam que “está em curso uma aproximação acrítica do PSOL em direção ao PT, colocando em risco o próprio projeto do PSOL como parte da construção de uma alternativa política que supere os limites do reformismo burocrático. A possível candidatura Lula reforça essa tendência”. Mas eles mesmos se aproximam do PT de forma totalmente acrítica, sem soltar sequer uma linha de delimitação com a política e o programa do PT… um zigue-zague oportunista que evidencia a fragilidade da elaboração política do Alicerce – uma lógica semelhante à do MES, que se contradiz sistematicamente a fim de não se enfrentarem com as contradições da realidade e surfarem na onda da vez. Nós do MRT construímos o Polo Socialista e Revolucionário justamente com o intuito de apresentar uma alternativa real à conciliação de classes petista e um programa operário para a crise.

Por isso nós do MRT apresentamos uma série de propostas político-programáticas para o combate ao bolsonarismo e para o enfrentamento da crise, como a revogação imediata de todas as reformas neoliberais, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial para atacar o desemprego, o reajuste salarial de todas as categorias de acordo com a inflação, o não pagamento da dívida pública a fim de construir um plano de obras públicas para gerar empregos e dar conta das demandas de saúde e educação, entre outros pontos. É preciso erguer um programa que se enfrente com os capitalistas e sirva de bandeira para que os trabalhadores, auto-organizados, possam avançar de forma independente da burguesia.

O desenvolvimento do Alicerce está bastante ligado à ausência de delimitação com o PT que está se preparando, junto do PSOL, para administrar o regime do golpe. Apesar de afirmarem, na tese enviada ao Congresso do PSOL, que “é preciso superar a práxis e o programa herdado do petismo”, na prática o Alicerce não constrói uma alternativa que busque superar o PT pela esquerda, mas uma política que se desenvolve adaptando-se ao PT, ao reformismo e às práticas fisiológicas de partidos da ordem capitalista.

E quem acha que essa adaptação só se dá na política institucional está enganado. À frente de uma importante entidade estudantil, como o DCE da UFRGS, o Alicerce se subordina à política do Juntos!/MES, sem apresentar nenhuma alternativa a não ser dar volume à política do MES, UP, Resistência e PCB. Nos últimos dois anos e meio, enquanto o DCE da UFRGS deixava de batalhar com todas as forças para organizar a comunidade acadêmica contra a intervenção, os cortes e a permanência, canalizando e desviando as lutas para os órgãos institucionais da Universidade onde os estudantes não têm voz, como o CONSUN, política da qual o Alicerce foi parte, Bolsonaro e seus ministros arregaçavam com as universidades Brasil afora. É preciso urgente uma alternativa que aposte na luta de classes, na auto-organização dos trabalhadores e dos estudantes que apresente uma política independente e dos trabalhadores, da juventude, negros, mulheres e povo pobre.

Como expressamos em outro texto, de Flávia Telles, o caminho que o PSOL vem trilhando é o de tentar impedir o surgimento de uma alternativa de independência de classe para os trabalhadores no país. Aos militantes que não querem ser parte dessa derrocada, chamamos a romper com esse partido e construir um Polo de independência de classe que busque reagrupar a esquerda revolucionária brasileira. É com essa perspectiva que atuamos no Polo Socialista e Revolucionário, defendendo que esse reagrupamento possa servir para fortalecer cada luta que é sufocada pelas burocracias sindicais, busque levantar um programa para que sejam os capitalistas que paguem pela crise e também apresentar uma alternativa política de independência de classe nessas eleições.

- Chamado: Aos militantes do PSOL: É preciso romper com o PSOL e sua política de apoio a uma chapa Lula-Alckmin




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