UNICAMP

Por que nós, estudantes da Faculdade de Educação, devemos que lutar contra a prisão arbitrária de Lula?

Nas últimas semanas acompanhamos no Brasil a prisão arbitrária de Lula, simbolizando que estavam tirando até mesmo um mínimo de direito que a população tem na democracia dos ricos, que é o de decidir em quem quer votar. O golpismo quer preparar o terreno para atacar ainda mais a juventude e trabalhadores desse país. Quero discutir aqui, o que nós, estudantes da Faculdade de Educação, temos com isso.

domingo 22 de abril| Edição do dia

Em um cenário de polarização entre petistas e golpistas, vimos o judiciário arbitrário, que ninguém votou para estar ali, prendendo o pré-candidato à presidência que estava em primeiro lugar nas intenções de voto, o que não é por acaso, pelo contrário: é a expressão explícita da continuidade do golpe institucional de 2016, que hoje segue seu curso atacando o direito ao voto da população. Por outro lado, vimos que o PT, seguindo sua tradição de conciliação, não organizou luta alguma para enfrentar esse absurdo. Ao mesmo tempo, o STF e o golpismo querem preparar o terreno para atacar ainda mais a juventude e trabalhadores desse país. E o que nós, estudantes da Faculdade de Educação, temos com isso? 

O que a educação tem a ver com a prisão arbitrária de Lula? Como isso se reflete dentro da Unicamp?

Todo governo interfere na educação. Desde os governos do PT, já vínhamos de um projeto muito falho para esse setor. As próprias alternativas que Lula deu de ingresso às universidades, que são tão reivindicadas, foram sustentadas com base no endividamento da juventude, como se deu com o principal programa, o FIES. Não foram com base em políticas educacionais consistentes, capazes de estruturar um sistema permanente de educação. Quando vem uma crise, todas as políticas públicas vão por água abaixo, como acontece hoje com os programas falhos de educação oferecidos pelo PT. Queremos uma educação que seja, de fato, garantida à toda a juventude, pública para que não encha os bolsos dos empresários, e que não soluce junto com a economia. 

O governo golpista, no entanto, aprofundou ainda mais projetos falhos de educação, como podemos ver com a reforma do ensino médio, que separa ainda mais o trabalho manual do trabalho intelectual. Além disso, veio a PEC que congela o orçamento por 20 anos para saúde e educação, fechamentos de salas de aula, reforma curricular nas universidades paulistas, e projetos reacionários como o escola sem partido, impedindo qualquer debate crítico não só de política ou de esquerda, mas também impedindo que os estudantes olhem cientificamente para sua própria realidade, com setores que defendem até mesmo o criacionismo. 

Essas medidas contra a educação representam uma continuidade do golpe institucional, que assim como quer acabar com o sistema de ensino público, implementou a reforma trabalhista e a ampliação da terceirização, colocou uma intervenção federal no Rio de Janeiro que matou Marielle, avançando cada vez mais com a repressão, e com um judiciário que se utilizou de métodos arbitrários para prender Lula. Dentro da Unicamp, o avanço do golpe é o ponto de apoio para o reitor Knobel, abra hoje novos processos contra os estudantes que lutaram na greve de 2016 e contra o aumento do bandejão votado com a proteção da guarda universitária, processos que querem punir os estudantes que lutam se utilizando de um estatuto herdeiro da ditadura militar.

Além disso, a reitoria não amplia a moradia e corta bolsas, agora vinculadas ao andamento do curso. Afirma estar faltando verba e até votou no Conselho Universitário, instância de decisão da Unicamp antidemocrática, a não contratação de novos professores e funcionários. Ou seja, se algum trabalhador se aposentar, não poderão contratar outro para entrar em seu lugar. Alguns institutos, como o de Artes (IA), já estão sofrendo as consequências, além de diversas outras questões estruturais. Outros institutos estão com outros problemas, como o IEL (instituto de estudos da linguagem), que ameaçou fechar a biblioteca no período da manhã por falta de funcionários, e a FE (faculdade de educação) que é o que mais tem mães que estudam no período noturno, e não é sequer oferecida uma creche para seus filhos ficarem no período da aula.

Como responder a todos os desafios?

Os professores foram extremamente atacados, mas estão respondendo a isso. Um dos maiores exemplos que temos atualmente é o da greve dos professores municipais de São Paulo, que teve 100% de adesão contra a reforma da previdência privada de Dória e, com apoio da população, dos alunos e dos pais, deram uma grande aula de como defender nossos direitos e venceram o prefeito. Outro grande exemplo é a greve que segue em Minas Gerais dos professores estaduais que, apesar do freio do seu sindicato, se enfrentaram com a polícia de Pimentel (PT) e mostraram muita disposição de luta. Temos que nos inspirar com a luta dos professores que mostraram que podemos nos organizar contra essas reformas que precarizam nossas vidas, e vencer.

E para vencer, diante de todos esses ataques, é necessário termos um movimento estudantil à altura dos desafios colocados, que queria se enfrentar contra cada ataque da reitoria e dos governos, exigindo da UNE, a maior entidade estudantil da América Latina e do nosso DCE que são dirigidos pela UJS (PCdoB) e aqui na Unicamp pelo Apenas Alunos, que hoje vende nossa entidade às empresas, que rompam com sua paralisia, exatamente porque são parte da estratégia de contenção petista da mobilização dos estudantes, e organizem nossa luta. Também acreditamos que é necessário hoje abrir um debate fundamental com a esquerda, e precisamos ser categóricos com duas perguntas. Em primeiro lugar: estamos vivendo a continuidade de um golpe? Em segundo: uma alternativa de esquerda para enfrentar a crise se dá pelas vias do petismo? 

Setores da esquerda como a CST (vamos à luta) e o Primeiro de Maio (Enfrente) falham imediatamente na primeira ao negar antes de tudo que foi um golpe o que vivemos, e portanto o que hoje ocorre é uma continuidade deste. Não veem que a burguesia chutou o PT do governo porque estes não serviam mais para os níveis dos ataques que a crise capitalista requer, portanto com o objetivo de arrancar ainda mais o sangue da classe trabalhadora. Além disso confiam no aparato da justiça para prender todos os corruptos, abraçam a lava-jato, sem dar uma saída de fundo para a corrupção e para a crise pelas mãos da classe trabalhadora, mas pelas mãos de Moro e Cármen Lúcia.

Apesar de se pintarem de vermelho contra o que significou os governos do PT, acabam por ser coniventes com a saída que aponta o próprio Lula, que é de não lutar contra o golpe e sua prisão, esperar as eleições burguesas e seguir confiando nessa justiça podre. 

Outro setor da esquerda, incluindo o Mais e boa parte do PSOL, apesar de se posicionarem contra o golpe, caem na segunda. A showmissa em São Bernardo do Campo, demonstrou que não é interesse do PT organizar a classe trabalhadora e a juventude, pelo contrário, preparam seu palanque eleitoral, junto a Manuela D’ávila (PCdoB) e Boulos (PSOL/MTST). Esse setor da esquerda, ao não oferecer nenhuma resposta independente e um programa de enfrentamento ao capitalismo, caem na tentativa reconstrução de nosso degradado regime político, com o PT como ator importante que serve como contenção também qualquer expressão de resistência na luta de classes. O que esquecem, no entanto, é que esse é o mesmo PT que foi também responsável pelo ascenso da direita e do golpismo, que governou para os empresários e que, como Lula mesmo disse em seu discurso, acredita na justiça burguesa.

Nós, da Faísca e do Pão e Rosas, entendemos que todos os ataques dentro e fora da Unicamp não estão desligados, e que não existe outra forma de enfrentar eles sem ir contra a prisão de Lula, que é mais um capítulo do golpe de 2016, mas sem cair na ilusão petista. Acreditamos em totalidade na força da classe trabalhadora, sem nenhuma confiança no judiciário golpista e racista que serve aos empresários. Se é pra julgar os corruptos, que seja por júri popular, para que os trabalhadores decidam, e não por uma justiça racista e burguesa. Outros institutos da Unicamp, como o IFCH e o IA, mostraram suas posições políticas contra a prisão arbitrária de Lula em suas paralisações no dia 12/04, e até na Argentina já foi convocado ato contra esse absurdo que presenciamos no Brasil. 
 
Nós, estudantes da Faculdade de Educação e futuros professores, precisamos debater profundamente sobre o significado disso para assumirmos uma posição contundente, pois a neutralidade não existe. Se não debatermos, ignoramos de onde vem todos os ataques que foram aprofundados na educação e em nossas vidas, o que torna quase impossível termos uma política de luta consequente, pois nos cega para ver quem é nosso verdadeiro inimigo, e, no fim, acabamos fortalecendo os golpistas, o judiciário e os conciliadores. 

O reitor nos diz que estamos passando por uma crise, mas se tem uma crise, nós devemos questionar porque os estudantes não podem ver as contas da Unicamp para ver com o que o dinheiro é gasto. Porque nós, junto aos trabalhadores, não podemos decidir da onde vai sair o dinheiro para a contratação e construção de mais creches? Também acreditamos que a universidade pode ser gerida não por uma reitoria elitista e por esse Consu antidemocrático, que só serve para aqui dentro manter o privilégio de poucos, regados à supersalários, mas por estudantes, professores e funcionários de acordo com seu peso real. Só assim, o conhecimento produzido aqui pode sair das mãos das empresas e servir à população e aos trabalhadores. Também defendemos que a Unicamp abra seus portões à toda a juventude, por isso acreditamos que o filtro social do vestibular que deixa mais de 80 mil estudantes para fora tem que acabar, junto a estatizar as universidades privadas, que enriquecem os grandes empresários com o endividamento da juventude. Se quase metade dos estudantes hoje que tem FIES não consegue pagar a sua dívida, defendemos então que todos sejam perdoados, a educação não é mercadoria e vale mais que os lucros dos tubarões da educação, como Kroton e Anhanguera. 

Mais do que nunca, nossas entidades estudantis, como o CAPMF (Centro Acadêmico da Pedagogia – Marielle Franco), não podem ter confiança na justiça e nas instituições burguesas, e sim devem promover debates sobre o que está acontecendo e para que os estudantes vejam a enorme ligação entre a continuidade do golpe, que avança sobre os direitos democráticos mais elementares, e cada demanda sentida aqui dentro da FE e da Unicamp. E assim possa avançar para que cada um não só veja isso, mas que tome as rédeas da política nas suas mãos com um programa que realmente possa responder à crise capitalista que hoje os golpistas tentam descarregar nas nossas costas.




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