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Por que nem o dia 16 nem o dia 20 servem aos trabalhadores dos Correios?

Os atos do dia 16 foram chamados por setores da direita, que defendem abertamente a privatização e a precarização do trabalho; os do dia 20 buscam se travestir de pautas contra os ajustes para no fim defender o mesmo governo que os aplica.

quinta-feira 20 de agosto de 2015| Edição do dia

O último domingo (16) foi marcado pelos atos convocados por PSDB e outros setores da oposição de direita ao governo do PT, que buscavam canalizar o justo descontentamento popular para se fortalecer. Entretanto, apesar da crise política e da grande insatisfação das massas, expressa na enorme queda de popularidade do governo, as marchas da direita não conseguem ser alternativa a Dilma e ao PT.

Ainda assim, é possível notar nas redes sociais certo apoio por parte de alguns trabalhadores dos Correios a esta via de oposição. Algumas páginas e vídeos convocavam os trabalhadores a participar das marchas. E de fato na cobertura da mídia foi possível notar a presença de alguns trabalhadores da nossa categoria, com bandeiras contra a corrupção no Postalis, por exemplo. De modo geral, esses setores de trabalhadores significaram muito pouco na composição dos atos. Segundo os dados do Datafolha sobre os participantes, da Avenida Paulista 76% tinha nível superior. Apenas 14% ganham menos do que R$ 2364,00, enquanto mais da metade ganha mais de R$ 7000,00. Era difícil achar um negro, mesmo nos estados mais negros do país. O oposto da composição dos trabalhadores dos Correios. Ou seja, ainda que se possa afirmar que muitos trabalhadores críticos ao governo possam ter se incorporado, o que dizem as pesquisas é que a proporção se setores de classe média e privilegiados hegemonizaram os atos e também suas pautas. Não havia cartazes em massa pedindo emprego, saúde, educação e contra os ajustes e demissões, por exemplo, mas apenas um genérico apelo contra a corrupção e um histérico fora Dilma.

Mas por que numa categoria tão precarizada, com baixos salários, e maioria negra, que mora nas periferias das grandes cidades, como é o caso dos ecetistas, existe simpatia por esses atos de classe média branca?

O desgaste do governo petista é muito grande entre os ecetistas e já vinha se expressando em todas as últimas greves, muito antes da crise do PT, mesmo com os principais sindicatos sendo dirigidos por burocratas sindicais ligados a CUT e a CTB, que são o braço sindical do mesmo governo. Esse descontentamento veio de uma compreensão correta de que o PT não fez nada do que prometeu em relação à empresa e à categoria. Continuou existindo corrupção, avançou a privatização e a terceirização, as contratações foram insuficientes. Ou seja, tudo que foi criticado durante o governo FHC (que chegou a aprovar a privatização da ECT), seguiu durante o governo petista, um pouco disfarçado no começo, mas agora já está escancarado. Por isso o ato do dia 20, convocado pelas centrais sindicais governistas e pelo PT também não representam realmente os interesses dos trabalhadores.

Sendo assim, a insatisfação com o PT para os trabalhadores é porque não suportam mais a corrupção, mas também não suportam mais as perdas salariais e de direitos, a privatização que só visa ao lucro de uma meia dúzia enquanto os trabalhadores são superexplorados, a falta de condições de trabalho decente, o caos da saúde pública (e privada também!), a precariedade da educação. Onde a oposição de direita se contrapôs a isso?

Aécio Neves, do PSDB, foi um dos que convocou o ato do dia 16, e tem tentado se alçar como alternativa, porém o que o PSDB faz onde governa? Só pra dar um exemplo, o estado de São Paulo, governado por Geraldo Alckmin, do PSDB. Na educação, foram fechadas centenas de salas de aula, e os professores já precarizados e sem aumento foram duramente atacados. Pra falar de privatização e corrupção, e inclusive corrupção nos fundos de pensão, não faltam denuncias dos metroviários. O que parece é que a aparente simpatia dos trabalhadores com os atos da direita, que sequer defende as pautas dos trabalhadores, mesmo em discurso, já que são a favor de privatizar a saúde e a educação, e a ECT, e aprofundar a terceirização e os ajustes do mesmo modo do que o PT, na verdade é uma falta de alternativa que realmente atenda seus interesses.

Falta uma saída à esquerda, mas não falta base para construí-la. Os trabalhadores dos Correios, que estão em meio à campanha salarial, poderiam ser ponta de lança de um movimento que busque os trabalhadores de outras categorias, como metalúrgicos que estão enfrentando demissões, bancários, petroleiros, professores e tantos outros, que diferente da classe média do dia 16, vive o mesmo drama e descontentamento, para surgir um movimento real de trabalhadores, que seja uma alternativa tanto contra o governo quanto à oposição oportunista de direita. Como no chamado feito pelos trabalhadores da USP e o chamado que o MRT fez ao PSOL.

A importante greve dos metalúrgicos da GM, cujos empregos estão ameaçados, aos quais se somam agora os trabalhadores da Volks, este deve ser o exemplo de quais saídas buscamos, de organização e luta contra os ataques, contra os ajustes, pelas pautas da nossa categoria mas também as pautas da população.




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