Política

MULHERES EM COMBATE À DIREITA

Por que mulheres defendendo ideias revolucionárias incomodam tanto?

“Sua burra". "Comunistinha fedida" "É até bonitinha, mas cabecinha oca”. Estes foram alguns dos comentários que o vídeo da militante da Faísca “Juventude anticapitalista e revolucionaria” e coordenadora do CAELL – Letras USP, Jessica Antunes, recebeu por ter denunciado o capitalismo e sua cara nacional plasmada na polarização frente ao impeachment e o PT.

Fernanda Inês

São Paulo

quinta-feira 14 de abril de 2016| Edição do dia

Não se dissocia as verbalidades machistas do conteúdo do vídeo. Pelo contrario mostra a funcionalidade mais escrachada do machismo para defender o capitalismo, ou seja, o que incomoda realmente aqueles que atacaram o vídeo são as ideias que nele se defende, a possibilidade de centenas de jovens lutando por uma sociedade sem exploração e opressão, onde as riquezas não fiquem mais nas mãos de poucos, mas sim seja expropriada pelos trabalhadores, aqueles que realmente produzem tudo.

São ideias que se enfrentam diretamente com as ideologias e a base material dessa elite que se beneficia da divisão de classe e da exploração de milhares de trabalhadores, por isso esses setores liberais do ILISP se enfureceram tanto. Para eles não se impressionam com a crise dos imigrantes vagando e sendo reprimidos nas terras europeias (antes o suposto “capitalismo que deu certo, sem fronteiras”, que ironia da história!), tão pouco às centenas de demitidos dia a dia, ou a opressão as mulheres e LGBTs que não podem desenvolver sua sexualidade, e muito menos ao racismo diário em cima de jovens haitianos, a trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas e aos jovens mortos pela polícia.

Fechar o olho para todos esses fatos e concluir que é uma dinâmica natural da vida, onde o capitalismo abre a todos as mesmas possibilidades, “basta agarrá-la”, só é possível por mentes vazias, mortas de humanidade, e que no lugar se encontram apenas a sede por mercadorias e os próprios privilégios. A estes que veem o mundo por fora da história, das contradições e das lutas, deveria restar apenas o mausoléu do esquecimento. Mas para tanto, antes disso é preciso enterra-los.

Sim, vai ter mulher defendendo o marxismo revolucionário

Uma mulher defendendo ideias de combate e revolucionárias, se colocando como sujeito político e dominante sobre as próprias opressões, incomoda não só porque em si é um combate aos setores que querem as mulheres caladas, presas ao mundo domestico, mas também porque quando as ideias revolucionarias ganham carne nos setores mais precários e oprimidos, ai sim se tem uma matéria explosiva. Não por acaso, o lançamento da juventude “Faísca – Anticapitalista e Revolucionária” tinha na grande maioria LGBTs, mulheres e negros, justamente porque ao contrario que dizem, que o marxismo é uma teoria de séculos passados, mais uma vez ela prova sua força e vitalidade pela capacidade de atrair os mais jovens e vividos, e foi essa teoria que fez a revolução de 1917, e as leis mais avançadas para a questão da mulher.

Isso porque o marxismo tem a capacidade de dar uma saída de fundo aos problemas que sentimos dia a dia, ao contrario de atribuir as dores da opressão a características individuais e psicológicas apenas, o marxismo leva a conclusão que é não é uma questão do individuo, mas sim do sistema de produção. Enquanto a existir a divisão sexual do trabalho, mulheres e negros ganharem menos, enquanto as mulheres garantirem as tarefas domesticas para a reprodução da vida, ao invés do estado, ou seja, enquanto a opressão puder ser um instrumento para tirar mais lucro direta ou indiretamente, ela vai ser perpetuada das mais diversas formas, seja pela igreja, pela mídia e pela moral.

O PT não pode levar essa tarefa a frente, apesar de Dilma usar do discurso da primeira mulher no poder, governou sob acordos com as bancadas religiosas, mantendo direitos elementares como a legalização do aborto, proibidos, para manter a chamada governabilidade. Da mesma forma que agora durante a crise, buscam impedir o impeachment com acordos com os setores mais reacionários.

O debate sobre opressões vem se tornando mais sensível não porque o capitalismo deu certo, e esta buscando ser mais democrático, pelo contrario, por contra da crise desse sistema, onde as pessoas não conseguem mais se realizar e vem se tornando mais cotidiano os problemas financeiros, o desemprego a precariedade das questões sociais, que os problemas da “alma” se afloram, a vontade de se libertar somada a um sistema em crise, começa a colocar em questão também toda sua moral. Assim os debates são parte da pressão para acabar com a opressão.

E dentro desse movimento vem surgindo várias alternativas que tentam canalizar essa revolta nos marcos do capitalismo, seja políticas empresariais como campanhas da AVON, ou por teorizações que igualam a presidente Dilma ou Angela Merkel, a uma trabalhadora ou jovem comum. Claro que todas as mulheres sofrem com a opressão, a diferença é que a presidente e a diretora de uma empresa cumprem o papel social de perpetuação do sistema, e por conseguinte, perpetuar a opressão. A sexualidade não pode definir uma aliança na luta, mas sim com qual política e estratégia se combate a opressão.

Por isso a fala da Jéssica Antunes incomodou tanto, porque carregou consigo o espírito da revolta dos oprimidos, ligado a uma política de combate na situação nacional da direita e do impeachment, mas também do governo do PT dirigido por uma mulher e seus ajustes. Com uma estratégia revolucionária, na qual busca a partir das lutas atuais fazer surgir um sujeito que possa não só libertar a si mesmo da exploração mas levar consigo os interesses de todos os oprimidos, para não só revolucionar o sistema, mas também libertar a arte, o amor e a vida.




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