Teoria

ENGELS/FEUERBACH

Por que fomos feuerbachianos? Por que deixamos de ser feuerbachianos?

Momentaneamente nos transformamos em feuerbachianos. O que Engels quis dizer com isso?

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 16 de setembro| Edição do dia

No momento em que Marx e Engels dão seus primeiros grandes passos no pensamento filosófico e social, a Alemanha, aquela dos anos 1830 para os 1840, era, na esfera do pensamento filosófico, hegeliana. Vivia-se uma atmosfera intelectual dominada pela hegelomania, Hegel era o grande referente [tinha morrido em 1831], embora é certo que seus seguidores já estivessem divididos em correntes que se enfrentavam entre si, isto é, os jovens hegelianos de esquerda de um lado, a direita hegeliana em outra posição.

Era o reinado da especulação filosófica, e quando Feuerbach desponta, em 1841 [com o seu A essência do cristianismo] seu efeito vai ser como se fosse uma bomba. Rompendo com Hegel, Feuerbach vai afirmar um particular materialismo. O homem, a sociedade humana, com sua cultura e filosofia não derivam da Ideia, de nenhuma força fora da matéria. Sua origem é a matéria, a fisicalidade. Vai afirmar o primado materialista da evolução da matéria, até chegar aos humanos, em direção à civilização, sem qualquer apriorismo conceitual, diz ele [veremos que também ele tem seu apriorismo ideal mais adiante].

O entusiasmo foi geral entre os hegelianos de esquerda: a realidade não é uma expressão da Ideia, o real não está subsumido à ideia. Engels dirá “O entusiasmo foi geral – e momentaneamente todos nós nos transformamos em feuerbachianos”. Era uma ruptura com anos da linguagem nada amena de Hegel, continua Engels, e também com “tantos anos de hegelomania abstrata e abstrusa”, e com o “insuportável domínio do pensamento puro”.

Feuerbachianos por um momento, Marx e Engels tecem críticas a Feuerbach, já carregam suas reservas em relação ao feuerbachianismo. E rapidamente farão sua travessia de Feuerbach, a uma concepção filosófica de sociedade que Marx chamou de “novo materialismo” em suas Teses sobre Feuerbach, e logo se popularizaria como materialismo histórico. O problema na pauta desta breve nota é: por que os dois camaradas deixaram de ser feuerbachianos?

Que elemento Feuerbach deixa mal resolvido na sua concepção de mundo? Por que ele não consegue ser um materialista consequente? Que elemento da sua estrutura filosófica o leva, mais adiante, depois de criticar o cristianismo com competência, a abraçar uma “estratégia”, no final de contas, de aperfeiçoar a religião, de mudar o “coração do homem”, de pregar o amor universal e coisas no gênero daquilo que hoje chamaríamos auto-ajuda?

Certamente a reflexão sobre essa questão é bem mais complexa e multifacetada do que estamos procurando formular aqui.

Mas uma questão-chave que vai travar o grande passo adiante dado por Feuerbach em relação a Hegel, isto é, retirar o debate das alturas do pensamento abstrato e subsumido à Ideia e trazê-lo para o terreno da materialidade social e histórica, tem a ver com o fato de ele não se fazer [e, portanto, não responder] a seguinte pergunta: que forças movem a sociedade humana? Por que a sociedade humana se transforma ao longo do tempo histórico?

Ou formulando diferente: já sabemos que para Hegel, o homem ou a humanidade é o espírito, a ideia, em oposição à natureza, negando-a; e na vida real, no cotidiano histórico, ele apenas percebe um espírito humano que evolui, uma “fenomenologia do espírito”, uma ideia [prévia, portanto] que vai tomando forma “fenomênica”. E também sabemos que, para Feuerbach é tudo ao contrário, o ser humano ou a humanidade é apenas continuação da natureza e a própria consciência veio da matéria, é uma forma desenvolvida da fisicalidade.

Certamente Marx e Engels vão concordar com isso, contra a concepção idealista de Hegel que concebia o mundo objetivo como alienação do pensamento abstrato sob a forma de Espírito ou Ideia. Marx também já vinha de criticar a religião e conta-se que com seu amigo B. Bauer, e também Feuerbach, pensam em fundar a revista Arquivos de ateísmo. Sendo que Marx já estudara Epicuro, com sua crítica à religião tradicional e muito mais.

E qual será uma das principais críticas que Marx e Engels realizarão a Feuerbach? O caráter contemplativo e ahistórico do seu materialismo.

Feuerbach sustentava como tarefa dos tempos modernos o trânsito da filosofia desde a teologia em direção à antropologia. Diferentemente das distintas variantes do idealismo e do pensamento clerical, queria uma filosofia em cujo centro estivesse o homem, concebendo o “gênero” ou essência humana, como unidade do homem com o homem, superando a alienação religiosa. Esta ideia de “gênero” ou “essência” jogaria um importante papel nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 de Marx.

No entanto, esta ideia de homem era, por si mesma, abstrata, já que fazia abstração das relações sociais, da atividade prático-crítico-revolucionária [como assinala Marx em suas Teses sobre Feuerbach] e da história em geral. Por sua vez, Feuerbach concebia as mudanças históricas como resultado das mudanças religiosas. Daí que Marx e Engels argumentem, na A ideologia alemã, que Feuerbach “enquanto é materialista, não leva em conta a história e quando tem em conta a história, não é materialista”.

A concepção materialista de Feuerbach termina deixando uma brecha para a ambivalência, uma janela para a dualidade matéria-espírito.

Senão vejamos.

Mecanicamente falando, se a humanidade chegou onde chegou por evolução gradativa, por acúmulos quantitativos, por uma tendência evolutiva natural, de onde vem a inteligência? Da evolução natural? Isto é, a consciência humana simplesmente brota, acontece? E por que ela surge, nos humanos, e termina por conduzir a uma situação nada inteligente, para dizer o mínimo, onde humanos assassinam humanos aos milhões como nas guerras mundiais? E o papel da maldade, de onde ela surge e por que? [tema, aliás, que Hegel vai explicar bem melhor]? E a religião, tão criticada por Feuerbach, como ela aconteceu? Os homens são capturados pela religião por que ela vem de fora – isso Feuerbach não aceita – ou porque foi criada pelos humanos? E sendo criada por estes, por que se converte em instrumento de opressão? A cultura, a ciência, a religião, criação dos homens, por que se tornam meios de opressão?

Poderiam ser feitas mais e mais perguntas, todas apontando para uma básica, seminal e que não é do interesse de Feuerbach: que forças orgânicas, internas à sociedade, explicam o desenvolvimento, a evolução? Sob que lógica se desenvolve o vir-a-ser dos humanos?

Sob que forças chega a ser o que é? E que forças acionar na direção de outro vir-a-ser, para transformar a miséria reinante, a favor do ser humano, esta vai ser a pergunta de Marx a partir do pressuposto materialista de Feuerbach.

Marx põe de pé a ideia – presente em Hegel, ausente em Feuerbach – da mediação; a inteligência, a consciência e, no limite, a cultura e a ciência, aquilo que somos, se desenvolve através da mediação, da contradição entre forças materiais, sociais.

Hegel tinha exposto de que modo uma ideia se transforma em outra: o movimento de um conceito se converter em outro é dialético [embora, no seu caso, sempre a partir do mundo espiritual]. Hegel traz a lógica do movimento. Feuerbach não está preocupado com a lógica do movimento da matéria, ou da sociedade na história.

Por isso que o humanismo de Feuerbach, pretendendo superar o sagrado, não o consegue: e justamente o problema virá de que em seu lugar entra o homem abstrato [sem concretude histórica ou social], logo o homem burguês ou, se se quiser, o “sagrado” na forma do homem abstrato. E por isso mesmo, ao contrário do que ele fala e promete, a realidade concreta e sensível não entra, de fato, no lugar da especulação filosófica.

Marx entra por esta porta, vai desvendar as forças materiais que, em seu conflito, explicam o movimento, o automovimento. O materialismo histórico será a crítica ao positivismo contemplativo de Hegel e ao materialismo também contemplativo de Feuerbach. E vai desvelar a mediação concreta, material e dialética que explica a relação consciência-matéria. E resolve a dualidade dos filósofos tipo Hegel e anteriores, do idealismo, mas também aquela dualidade ainda presente, embora sob disfarce, em Feuerbach.

Feuerbach deixa de pé, ou em aberto, a questão de como entender que os humanos sejamos espírito, isto é, desenvolvimento da consciência – na arte, cultura, na teoria científica etc – e sejamos também matéria, isto é, originados da matéria em estado bruto. Ou seja, fica de pé a ideia problemática de que “o homem tem dois lados”.

Claro está que somos um ser biológico [material] e também consciente. Mas o problema está em que a relação dialética que construiu um no outro, que faz com que tenhamos uma natureza inorgânica e também uma consciência, se não é explicada, deixa em aberto a porta para a religião e novamente para o idealismo e o faz na medida em que não responde: como a inteligência se desenvolveu na matéria? Através de qual mediação na relação de certo ancestral nosso com a natureza, se desenvolveu a inteligência?

A resposta definitiva de Marx: se desenvolveu através do trabalho!

Evitar discutir mediações e simplesmente dizer que “tem dois lados” não explica nada. A materialidade engendrou a consciência através de um lento processo no qual sujeito e objeto incidem um sobre o outro, dialeticamente, pela mediação do trabalho.

Foi assim que a “fisicalidade” ganhou consciência. Na relação animal-natureza o trabalho foi a força motriz.

Por aqui se esfuma a dualidade, e vai ficando definido o processo orgânico, materialista, de transformação do símio em homem. E que mais adiante engendrará as classes sociais – a partir da insuficiência dos meios de produção etc – e a luta de classes vai se convertendo no motor da história e da civilização como ela veio se tornando. E chegamos ao materialismo histórico.

O tacape que dá passagem à lança, que é seguida pela flecha e mais adiante pela bala da arma de fogo, é um dos processos que exemplifica a consciência social se desenvolvendo, pela via da dialética trabalho/consciência e consciência/trabalho, em um movimento onde uma geração engendra determinados meios de produção sobre os quais a geração seguinte desenvolve sua produção, sua capacidade de transformar o mundo e a consciência do mundo.

E assim sucessivamente. A força motriz é o “mundo do trabalho” e, na era da propriedade privada, são as classes sociais; e sempre, o trabalho humano, e na era de classes, a classe que vive do trabalho.

Não existe uma ideia prévia que tudo explique, ou um sentido teológico ou teleológico seminal. Não adianta procurar a divindade. No início simplesmente está a ação, o trabalho.

Por um lado é isso, mas por outro, tampouco a matéria se desenvolve de forma gradual, por acúmulo quantitativo, onde entraria um Feuerbach com sua ideia de aperfeiçoar a consciência, mas com plena ignorância de que forças motrizes fizeram a humanidade ser o que é [inclusive dilacerada] e, portanto que forças há que impulsionar para transformar o mundo na direção ou a partir do seu potencial real atual, que os meios de produção já permitem. A essa altura, Feuerbach já foi completamente deixado para trás.

Até porque se é certo, por exemplo, que existe uma rocha que não tem consciência e essa é a natureza que nos precede e nos cerca, e por outro lado, existem, hoje, os humanos que agem com seu grau de consciência, mas nada disso se explica apenas com o olhar feuerbachiano de que os homens são continuação direta e orgânica da rocha, da natureza e ponto final. Essa perspectiva, na verdade, exclui o homem em seu papel de sujeito, ignora a subjetividade e seu papel histórico. Feuerbach termina sinalizando para uma nova religião, pretendendo “religar” os homens entre si, através do amor ao próximo, mesmo sem a divindade.

Ou seja, a subjetividade, expulsa da história humana, por uma operação intelectual mecanicista, vem de volta, inevitavelmente, no caso através do artifício da religião “humana”. Expulsa pela porta da frente, volta pela dos fundos.

Sem saber explicar as contradições materiais que engendram o autodesenvolvimento da humanidade, Feuerbach terminou contemplativo como Hegel, e pior posicionado que Hegel [na questão do como a matéria e a sociedade se transformam]. Ele não vê a contradição, não pode entender a lógica da transformação. Seu viés de materialismo iluminista terminou prevalecendo, na medida em que, ao contrário de Marx, rejeita tudo de Hegel. Ele não supera Hegel, simplesmente o rejeita. E sua total rejeição inclui a dialética de Hegel.

Por essa via, empobrece seu materialismo, que para não ser mecanicista, necessitaria ser pensado dialeticamente.

E aqui já estamos em Marx e Engels: mesmo que Feuerbach não tenha disso consciência, sua moral, como diz Engels, “é feita sob medida para a atual sociedade capitalista”, que deixou de ser criticada por ele.

Ou, em resumo, Feuerbach, um “materialista por baixo, mas um idealista por cima” que errou em simplesmente rejeitar Hegel como algo inútil, terminou trazendo de positivo nada mais que “uma balofa religião do amor e uma moral pobre e impotente”. Em uma sociedade que, para ele, evolui gradualmente.

Sem dialética, seu olhar sobre a questão de como o homem se desenvolveu não inclui saltos, revoluções, nem a atividade da ideia que transforma.

Como transitar da realidade que Feuerbach examina e não aprova – na verdade ele critica sobretudo a religião – para outra, inclusive não mais religiosa? Qual a diferença da transição não-dialética de Feuerbach para a transição dialética de Marx e Engels?

Neste ponto, Lenin, em suas anotações filosóficas sobre Hegel é totalmente pertinente em sua crítica ao gradualismo. A tentativa de explicar o desenvolvimento como um processo gradual, no final exclui a explicação do próprio desenvolvimento. O que distingue a transição não dialética da dialética é o salto, a contradição, a interrupção da gradualidade, como bem argumenta Lenin. Nas suas palavras: “Explicar um nascimento ou um desaparecimento pela gradualidade da mudança tem o incômodo da tautologia; uma tal explicação pressupõe que o que está nascendo ou desaparecendo está dado previamente e faz da mudança um simples deslocamento de uma diferença exterior e, por isto, não é realmente mais que tautologia”.

Para Lenin, há duas concepções básicas de desenvolvimento, a primeira que entende a mudança como se dando apenas por um aumento ou decréscimo gradual, ou repetição, e a segunda, a mudança como resultado da luta entre opostos. A primeira deixa oculta a causa última da mudança, ou então a atribui a algo externo ao sistema, tipo Deus. A segunda, a verdadeira solução dialética para o problema da mudança, aponta para a contradição interna e, portanto, para o “auto-movimento”.

Esta segunda explicação, argumenta Lenin, por si só fornece a chave para o “auto-movimento” de tudo que existe; ela por si só fornece a chave para os “saltos”, para a “quebra de continuidade”, para a “transformação no oposto”, para a destruição do velho e a emergência do novo. O materialismo, certamente um mérito de Feuerbach diante de Hegel, não poderia passar por fora da própria lógica da matéria e da sociedade humana, a da dialética. E, portanto, em última instância, da álgebra da revolução social.

Referências – Cadernos sobre a dialética de Hegel, Lenin, 2011, Ed UFRJ; The algebra of revolution, J Rees,1998, Routledge; Ludwig Feuerbach e o fim da filosófica clássica alemã, Engels, 2016, C Cultural, Brasília. Nosso agradecimento a Juan dal Maso pela preciosa contribuição ao texto.




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