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Por que estudantes e trabalhadores devem lutar contra os cortes na UNICAMP?

Nas últimas semanas, estudantes e trabalhadores da UNICAMP vieram enfrentando um pacote de ataques proposto por Knobel e aprovado, em grande parte, pelo Conselho Universitário. Na última sessão, conseguimos impedir a votação do aumento do preço do bandejão. Essa conquista deve ser ponto de apoio para combatermos e revogarmos todos os cortes na UNICAMP, em aliança com os trabalhadores.

quarta-feira 11 de outubro| Edição do dia

Não é de hoje que a reitoria da UNICAMP se vale do discurso da crise para atacar. Em 2016, a maior greve estudantil do último período, à qual funcionários e professores também se somaram, teve como um de seus eixos, junto às cotas étnico-raciais e à permanência, a luta contra um contingenciamento de R$ 40 milhões. Quanto a isso, a reitoria Tadeu, na época, foi intransigente e autoritária e, ao final da greve, chegou a declarar em sessão do Conselho Universitário que deveriam ter sido R$ 200 milhões, anunciando que novos cortes viriam.

Não tardou. A própria coordenadora geral da UNICAMP, Teresa Atvars, classifica que o novo pacote de ataques de Knobel, aprovado em duas sessões do CONSU nas últimas semanas, atinge pontos “estruturantes” da universidade e contingenciariam, incluindo o aumento do bandejão, R$ 25 milhões. Entre eles, foram aprovados: o fim da reposição automática de docentes, a não contratação de funcionários e pesquisadores, corte nas gratificações, concurso de livre-docência somente se houver realocação de recursos e fim das premiações.

É fato que nem mesmo os 9,57% do ICMS, imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços, têm sido repassados pelo governo Alckmin às universidades estaduais paulistas, assim como que existe uma queda na arrecadação que acompanha a queda no consumo dos trabalhadores e da população em tempos de crise. Ao mesmo tempo, no cenário nacional, as universidades federais sofrem as consequências dos ataques golpistas à educação, que tiveram início com nada menos do que a PEC do Teto dos Gastos. O não pagamento das contas de luz, de água, dos serviços terceirizados tem sido notícias recorrentes em várias federais, sendo a estadual do Rio, UERJ, um símbolo da crise que assola os estados.

Nesse cenário, não é menor que, ao mesmo tempo em que é eleita a melhor da América Latina, esteja sendo proposto um pacote de ataques de caráter “estruturante” à UNICAMP. Isso porque, partindo de que de fato existe uma crise colocada para as universidades, o que está em xeque é o projeto de universidade levado a frente pelas reitorias. Não à toa, na revista FAPESP que comemora a UNICAMP como número 1, afirma-se que a universidade ultrapassa a USP pela maior relação com as empresas na produção do conhecimento. Nesse sentido, o argumento da crise é utilizado para aprofundar esse projeto, preservando os lucros das empresas e os privilégios da alta burocracia da UNICAMP, enquanto aumenta a desvalorização de cursos historicamente sucateados, como o Instituto de Artes e as licenciaturas, ataca a permanência dos estudantes pobres e as condições de trabalho na universidade.

A crise na Unicamp e o avanço da reitoria contra os estudantes e trabalhadores

Desde o ano passado, discute-se o sucateamento do Instituto de Artes, cuja necessidade de equipamentos e infraestrutura, como o teatro prometido há anos, é condição para a realização dos cursos. Também cursos como a Midialogia sofrem de histórica falta de professores, sendo inclusive ameaçado de não existirem mais. Os cortes impostos por Knobel, sem nenhum debate, aprofundam esses problemas, remarcando a não contratação de professores, prejudicando as condições de trabalho nas oficinas e sobrecarregando funcionários. Não é detalhe que sejam os cursos não considerados “lucrativos” a serem os mais atacados. O mesmo vale para o Hospital das Clínicas, principal via de atendimento da população na universidade, que tem sofrido com falta de materiais e sobrecarga dos trabalhadores todos os anos, aprofundando a precarização da saúde.

Nesse sentido, é preciso ficar nítido que não existe pesquisa e ensino de qualidade se os trabalhadores da universidade estão sendo atacados. Além do não reajuste imposto neste ano, a reitoria está promovendo uma reorganização das funções na universidade, de modo a cortar postos. Assim, conforme os funcionários se aposentarem, essas funções não serão repostas e deixarão de existir, sobrecarregando o conjunto dos trabalhadores.

A proposta, barrada pelos estudantes, de aumento do bandejão escancara o ataque às condições de permanência, dando prosseguimento ao papel que hoje cumpre o filtro social do vestibular. Não à toa, já não são todos os estudantes que precisam que são contemplados pelas bolsas, embora muitos sejam “deferidos” pela universidade, e a moradia segue superlotada. Também a permanência das mães, estudantes e trabalhadoras, continua ameaçada pelos horários de funcionamento das creches - além das demissões na Dedic deste ano, que seguem o exemplo do Zago, avançando contra as creches. Na FE, a diretoria do instituto avança contra as mães ao proibir que fiquem com seus filhos na sala de aula, e permitir que os professores as expulsem da aula por estarem com seus filhos.

Essas medidas propostas por Knobel atacam diretamente a conquista histórica das cotas no ano passado. Ao mesmo tempo em que a reitoria finge ser a favor da cotas na Unicamp, aparecendo com o discurso de “reitoria da diversidade”, fruto da mobilização de estudantes e trabalhadores, tenta diminuir essa conquista ao atacar a nossa permanência. É fundamental barrar os ataques para garantir a entrada e permanência dos estudantes cotistas no próximo período e lutar contra o elitismo da universidade.

Nossa luta

Logo, é preciso acabar com qualquer noção de suposta “neutralidade” na reitoria. A forma com que o pacote de ataques foi encaminhada, imposto com menos de uma semana de antecedência e sem nenhum debate e tendo a reitoria depois ameaçado colocar a PM no campus contra os estudantes e trabalhadores que ocuparam o CONSU em sessão, não se desliga do conteúdo político dos ataques. Um exemplo é que votaram que o CONSU é a nova instância de negociação das pautas dos trabalhadores da UNICAMP, enfraquecendo a organização estadual via CRUESP e Fórum das 6. Materialmente, essa medida não produz nenhum impacto econômico. Entretanto, trata-se de um grande ataque contra a mobilização dos trabalhadores. Além disso, Knobel também avança contra a autonomia do movimento estudantil. A partir da proposta da chapa discente Apenas Alunos, retirou a autonomia estudantil na escolha de seus representantes do Consu, impondo uma votação online na qual controlará o processo eleitoral, e segue punindo os estudantes que participaram dos processos de luta em 2016.

Com isso, Knobel mostra que tem um projeto de universidade bem definido: aberto para as empresas e para a privatização, e fechado para os trabalhadores e estudantes negros e pobres. Contra o autoritarismo da reitoria, que está disposta a tudo para impedir que nos organizemos, devemos lutar pela revogação dos cortes que já foram aprovados e pela abertura das contas da universidade para que possamos ver onde de fato está a crise e decidir sobre o orçamento da UNICAMP. Se estudantes e funcionários somos maioria, que sejamos maioria também, proporcionalmente, nas decisões sobre os rumos da universidade. Apenas a partir de fortalecermos nossas entidades, enquanto ferramentas da nossa luta por nós mesmos e nossos métodos, e de uma aliança profunda entre estudantes e trabalhadores, unificados, conseguiremos impedir os ataques da reitoria e impor um projeto nosso, dos trabalhadores e da juventude, de uma universidade de fato pública, sem vestibular, onde os terceirizados sejam efetivados sem necessidade de concurso público, para acabar com o trabalho precário e esses mesmos trabalhadores possam estar na sala de aula estudando conosco, e que nosso conhecimento sirva aos interesses da população e dos trabalhadores.




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