ECOLOGIA / MARXISMO /

Por que é necessário criticar um certo “marxismo ecológico” [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 16 de julho| Edição do dia

Parte II

Se pensamos na devastação ambiental em curso, o problema não é que o capitalismo não está destruindo o planeta e os recursos naturais em escala crescente e acelerada. Está. E tampouco se pode negar a possibilidade do capitalismo ir até o fim nessa empreitada. Pode ir, sim, se não for barrado antes pela revolução socialista.

O problema está em pensar que o desastre ambiental engendra uma crise sem saída para o grande capital ou que ele possa temer qualquer movimento ambientalista que não seja encabeçado pela classe operária [em defesa da sua estratégia de poder].

E o problema também se encontra em se pensar que ao se levar um combate – necessário em todo caso - contra a degradação ambiental [pressionar para que o sistema internalize seus custos ambientais] se está atacando o verdadeiro ponto fraco do sistema.

E tem um problema a mais, que diz respeito à leitura de Marx.

É um erro considerar que Marx imaginava a produção agrícola, para tomar um exemplo ambiental, como sustentável no capitalismo.

Já em seu tempo, a partir dos anos 1840-50, era visível a decadência de solos agrícolas, que tinham que ser enriquecidos com fezes de aves ou com ossos; o solo era roubado pela agricultura capitalista. A seguir veio a era dos fertilizantes sintéticos para o solo, baseados no petróleo [um bem finito].

Pois bem: e sem o petróleo? E a devastação provocada, de todo ponto de vista, pela monocultura?

Marx não via compatibilidade capitalismo-agricultura.

A verdade é que não se trata apenas de que Marx via esse problema, do empobrecimento do solo no capitalismo. Era mais: Marx entendia que a revolução era necessária também para reverter a relação do capitalismo com a natureza, que criava problemas de sustentabilidade, de sobrevivência, se a “racionalidade” capitalista do lucro não fosse sustada.

A sociedade comunista significa outra relação com a natureza. Outra indústria, outra relação agrícola com o solo, da cidade com o campo e assim por diante. Não vamos transitar para o socialismo com esse mesmo tipo de indústria, de agricultura [ou de medicina].

Marx entendia isso e mais de uma vez voltou ao tema. Também Engels.
Marx se baseava no químico Liebig que considerava a mais avançada agricultura capitalista como um “sistema de roubo” por seus efeitos no solo. Um processo de disrupção da relação do solo com seus nutrientes. E que Marx via – reiteramos - como um problema de insustentabilidade no capitalismo.

É da essência de O capital mostrar que a acumulação desenfreada de valor de troca se opunha aos valores de uso. Essa é uma das razões pelas quais, por exemplo, Marx e Engels puseram tanta ênfase – já desde o Manifesto Comunista – na defesa do fim da separação cidade-campo. Eles enxergavam essa relação como um antagonismo.

Neste ponto é preciso ter claro que isso significava, de parte deles, romper com o capitalismo, mas também com o limitado horizonte econômico do proletariado em suas primeiras lutas ou nas lutas salariais, econômicas.

A alienação em relação à natureza era pauta de Marx e Engels.

Obviamente hoje chegamos a um ponto, nessa esfera, que Marx jamais poderia imaginar nem de longe.

Mas o que estamos tentando chamar a atenção é para o argumento de que Marx não era um economista, ou um analista estrito da crise econômica. Se fosse assim, não haveria porque bater de frente, como ele fez desde seu primeiro grande texto, na necessidade de dissolver a contradição da cidade com o campo ou a monstruosidade das grandes metrópoles. Sua ótica não era apenas a da crise econômica.

E hoje, por exemplo, analisar a crise econômica mundial apenas na esfera econômica, por fora da luta de classes, da fricção entre os Estados, seria um reducionismo. É certo que a economia e sua crise é a base, toda a estrutura social é fundada nela.

Não é possível entender a totalidade econômica, portanto, separando a crise econômica de fundo, capital-trabalho, de outra crise econômica [da “segunda contradição”], determinada por fora da crise de acumulação do capital.

Qualquer dualidade, nesse terreno, que tire o foco do antagonismo seminal que mantém o sistema de pé [burguesia-proletariado], mesmo em nome de combater o risco do capitalismo destruir o planeta e as condições de produção, sugere muito mais um desvio do que um enriquecimento do pensamento marxista.

Sugere muito mais uma perda do papel estratégico do proletariado como o sujeito – liderando os demais movimentos – capaz de por fim à barbárie capitalista, do que o reforço da sua centralidade estratégica.

E também alimenta a ilusão de que o sistema poderia ser abatido a partir da luta ecológica. Ou então se autodestruir por suas contradições na economia.

Pretendendo ser uma espécie de “marxismo ecológico”, essa teoria da crise econômica ecologicamente induzida, pode estar apontando para mais um reducionismo econômico de novo tipo, agora verde.

Foster [2002] destaca as vantagens dessa tese da “segunda contradição” e do porquê ganhou influência no pensamento verde socialista, e não socialista também: fornece um argumento lógico simples, que une degradação econômica, crise econômica e o crescimento dos novos movimentos por mudanças sociais.
Mas é preciso destacar seus limites.

E seus equívocos teóricos como o de A. Rudy, que na linha de J. O´Connor, afirma que a “análise de Marx do papel da crise ecológica na crise do capitalismo” permaneceu em um nível “subdesenvolvido”. E de que, por conta disso, seria preciso “completar” Marx, “ampliar” o marxismo [esverdeá-lo], para que ele se torne um “marxismo ecológico”.

O argumento de Foster [2002] vai na contramão:

"Em última instância, a força da análise marxista nunca residiu principalmente na sua teoria da crise econômica, nem mesmo na sua análise da luta de classes em si mesma, mas se enraíza muito mais profundamente na sua concepção materialista da história, entendida como verdadeiramente humana e natural, como um processo sem fim, contingente e dialético. Isto significa superar em uma perspectiva não reducionista a fratura entre a ciência natural-física e a ciência social que se tornou um dos produtos intelectuais mais alienados da sociedade burguesa".

Em outras palavras, a degradação econômica é da natureza do capitalismo. Sem liquidar o capitalismo é a nossa sobrevivência e dos demais seres vivos que está ameaçada [nunca esqueçamos, por exemplo, da ameaça nuclear].

Mas isso não nos leva a outra teoria que possa ser levantada a partir, especificamente, da decomposição ambiental, ou de qualquer outro elemento de degeneração do capitalismo.

Por mais que entendamos de que se trata – a crise ambiental - de um problema que nos pode levar, deixado ao léu, sem a revolução proletária, a uma situação terminal, como civilização. Ou como destaca Foster:

"No caso da degradação ecológica nós estamos lidando com um problema de primeira ordem do capitalismo, não de segunda ordem [e não apenas do capitalismo]. A degradação ecológica, como a própria existência do imperialismo, é tão básico para o capitalismo como a busca do lucro em si mesmo [...] Nem o problema ambiental deve ser visto estritamente através do prisma econômico no sentido de que ele deriva seu significado da extensão com que ele gera crise econômica pra o capitalismo. Como Rosa Luxemburgo indicou, os pássaros que cantam estão morrendo não porque eles sejam diretamente parte do capitalismo, ou de suas condições de produção, mas simplesmente porque seu habitat foi destruído no processo de expansão implacável do sistema. Luxemburgo corretamente não conectou esse fenômeno à crise econômica, mas isto não a deteve de lutar contra a destruição do que ela chamava ´essas pequenas e indefesas criaturas”.

Crédito de imagem: www anti-k.org

Rudy, Alan, 2001. Marx´s ecology and rift analysis, in Capitalism, Nature, Socialism 12 [june 2001], p. 61.
Kovel, 2002. The enemy of nature. London: Zed Press.
Luxemburgo, Rosa, 1917. Carta de Luxemburgo a Sonja Liebknecht, de 2/5/1917. [Publicada em Letters, R. Luxemburgo, New Jersey: Humanities Press].
Foster, John Bellamy, 2002. The nature of the contradiction. In Monthly Review, volume 54, Issue 04 [September]. As traduções são nossas [GD].




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