Educação

ENEM 2015

Por que aplaudir o ENEM, se milhões seguem fora das universidades?

O ENEM apresentou um conteúdo progressista no tema de sua redação, mas isso é motivo para se comemorar uma prova que segue excluindo da universidade milhares de mulheres, LGBTs, negros e pobres?

Flávia Toledo

São Paulo

segunda-feira 26 de outubro de 2015| Edição do dia

Em meio a um levante de secundaristas que estão indo às ruas para que suas escolas não fechem por todo o estado de São Paulo, ameaça de fechamento de escolas no Sul do país e problemas de mesma ordem em diversos outros lugares do Brasil, o grande assunto e a grande comemoração de alguns setores da esquerda na internet é o tema da redação do ENEM. Esses setores reivindicam que a redação, sobre a “Persistência da Violência Contra a Mulher no Brasil”, seria um avanço para o país. Será?

Mesmo indo na contramão do vestibular da UNESP, por exemplo, que anos atrás chegou a usar um texto do economista e ex-colunista da Veja, Rodrigo Constantino, e tendo usado este ano como referência grandes pensadores como Simone de Beauvoir, Hobbes, Nietzsche, Milton Santos, Paulo Freire e Agostinho Neto, não podemos nos esquecer que o ENEM é uma prova seletiva, um vestibular. Ainda que essa prova, especificamente, tenha características que a fazem ser considerada mais “democrática”, uma vez que permite que o estudante se inscreva para o processo seletivo de diversas instituições pelo país e obtenha o certificado de conclusão do Ensino Médio quando necessário, o ENEM traz consigo os mesmos problemas que todas as provas seletivas para o ensino superior: Seleciona e excluí. Desde a sua ampliação, “para promover um acesso mais democrático à universidade”, a prova ficou maior, mais difícil e sua inscrição mais cara. Ele é, como todo vestibular, um filtro social, criado para manter grande parte da população fora da universidade.

A REDAÇÃO: MACHISTAS NÃO PASSARÃO?

Muito tem se comentado que “machistas não passarão no ENEM desse ano”, principalmente pelo tema da redação e pela questão que citava Simone de Beauvoir no primeiro dia. Precisamos nos questionar sinceramente: quem é prejudicado pela redação do ENEM? As estudantes de escola pública tiveram acesso à teoria de Beauvoir? Quantos estudantes negros já conheciam o poema do líder angolano Agostinho Neto e conseguem trabalhar com a interpretação textual? O que os corretores da prova buscarão no texto da redação? Com certeza, não um discurso que rompa efetivamente com a ideologia burguesa que se utiliza da opressão para superexplorar.

A pontuação da redação nada terá a ver com o posicionamento político do candidato. Quem estiver melhor preparado para realizar a prova terá, como sempre, mais condições de entrar na universidade. Quanto mais simulados, aulas preparatórias, horas sendo ensinado a escrever sobre qualquer assunto que a prova pedir, maiores as chances de ir bem na redação. Em outras palavras: quem foi preparado para fazer a prova, ou seja, quem esteve nas escolas particulares e cursinhos, segue com mais chances de entrar no ensino superior.

Os alunos que vêm da escola pública, as mesmas que os governos agora querem fechar, que sofreram abalos pelos bilhões cortados nacionalmente da pasta de educação, que não receberam nos últimos anos nenhum kit pedagógico de combate à homofobia e à opressão de gênero, propostas barradas pelo governo que aplica o ENEM, esses alunos não conhecem os critérios de correção da redação. Não sabem, diferente daqueles que assistiram às aulas de cursinho recheadas de “piadas” opressoras, que existe um número mínimo de linhas, que não pode fugir do tema, que tem de apresentar uma proposta de resolução… Em compensação, muitos que em nada se comprometem com os direitos humanos (pensemos, por exemplo, nos universitários envolvidos em casos de estupro e trotes racistas) foram avisados de que qualquer comentário que fizesse apologia à violência lhes eliminaria na prova, e sabiamente não lançaram mão de argumentos que utilizam na internet.

Passarão nessa prova os mesmos que passariam se a redação fosse sobre energia sustentável, ciclovias, alimentos transgênicos… Porque o intuito dessa prova não é estabelecer um debate. Pelo contrário, é excluir dos debates que ocorrem nas universidades de todo o país principalmente os filhos dos trabalhadores. Essa é a razão de existência do vestibular.




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