MAIS MÉDICOS

Por que a medicina brasileira nunca abasteceu os rincões do país?

A saída dos médicos cubanos do país após imposições de Bolsonaro nos faz questionar: O que faz os médicos brasileiros historicamente ignorarem os rincões do Brasil? Desde a criação dos Mais Médicos 700 cidades receberam assistência médica pela primeira vez.

sábado 17 de novembro| Edição do dia

Foto: Cynthia Vanzella/ A Notícia

Jair Bolsonaro sequer assumiu a presidência oficialmente, e seu governo já começa implementando medidas mostrando para o que veio. Durante toda sua campanha, foi um grande defensor da reforma da Previdência, proposta que era rechaçada por 72 % de seu eleitorado, segundo pesquisa do Poder360, já mostrava uma parte de seu objetivo que é atacar os trabalhadores, para manter os altos lucros dos capitalistas fazendo com que seja a classe trabalhadora que pague pela crise.

As ameaças ao programa Mais Médicos não são novas, como confirmou um vídeo de Bolsonaro, em diálogo com médicos da PUCCAMP, afirmando que iria expulsar os cubanos do país para que ocupassem Guantânamo, presídio para presos políticos em Cuba, e que lá pudessem atender os petistas que seriam mandados pra lá. A tentativa de implementar mudanças ameaçadoras ao médicos cubanos fez com que eles se retirassem do programa, e estima-se que mais de 20 milhões de pessoas fiquem sem atendimento.

O programa não é exclusivo para médicos cubanos, ao contrário, veio primeiramente com um outro programa que tentava atrair os médicos brasileiros para as regiões mais afastadas do país, com salários que chegavam a ser 10 vezes maiores que para o restante dos cargos que poderiam ocupar. O incentivo não foi o suficiente, uma vez que 94,3% dos médicos formados procuravam se estabelecer nas capitais, recusando ir para o interior. Esse programa, o PROVAB teve apenas 350 médicos inscritos em 2012, mostrando um completo fracasso em tentar fazer com que os médicos brasileiros ocupassem o interior do país, assim, o programa foi modificado para o Mais Médicos, permitindo então que médicos de outros países pudessem concorrer.

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Esse chamado veio quando prefeitos estimavam que as cidades precisavam de mais de 10 mil médicos, e com o programa em seus moldes anteriores 2/3 das vagas não foram preenchidas. Ao contrário do que afirmam, o programa Mais Médicos sempre teve como prioridade os médicos brasileiros, que tentaram fraudar o programa após a seleção abranger também médicos de outros países.

A baixa de médicos brasileiros no programa sempre foi uma constante, o que coloca às claras uma das principais características da formação profissional e acadêmica dos médicos brasileiros: uma profissão de elite, ocupada pelos filhos da burguesia, formados sob a lógica da medicina do capital. O rechaço aos médicos cubanos mostram também outra importante faceta importante de parte da categoria médica: higienista, racista e xenófoba.

Os usuários do SUS afirmavam dezenas de vezes que os médicos cubanos eram melhores que os médicos brasileiros, e porque isso?

A saúde em Cuba, apesar de todas as contradições de um país que passou por um processo revolucionário deturpado, a saúde cubana é 100% pública e se pauta por fora da lógica de assistencialismo muito mais do que a saúde brasileira. É focado na prevenção das doenças, que Cuba foi capaz , por exemplo, de ser o único país da América Latina à atingir a meta proposta pela OMS e pela OPAS de erradicar a transmissão de HIV de mãe para feto.

Um dos pontos mais sensíveis apontados pelos usuários em relação aos médicos cubanos era a atenção no momento da consulta. A medicina do capital tem o único objetivo de identificar doenças, fazer diagnósticos e medicar o cidadão para que retorne o mais rápido possível para as suas funções, principalmente de trabalho. Em um estudo realizado em 67 países, o médico brasileiro teve uma média de duração da consulta médica de 7 à 8 minutos, mostrando a precariedade que do atendimento médico, do SUS e de todo aparato importante para a saúde.

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Não é possível entender a quais riscos estão expostos os pacientes, suas condições de vida para entender as melhores formas de prestar assistência em apenas 7 minutos.

A saída de milhares de médicos cubanos deixará uma parcela imensa dos brasileiros, das regiões mais precárias e vulneráveis, totalmente desassistida. A falha no sistema de saúde mostra a necessidade imediata de questionar a medicina capitalista, que identifica e medicaliza pacientes, que reduz a saúde aos interesses das industrias farmacêuticas, atuando como uma "fast-food" de diagnósticos e combos de medicamentos. O direito à saúde passa, pra além de acesso à médicos e boas consultas, mas por colocar abaixo a lógica de saúde do capitalismo que trata saúde como mercadoria.

Cidades estão apreensivas com o fim do Mais Médicos

Criado em 2013, o Mais Médicos viabilizou que 700 cidades tivessem médicos pela primeira vez. Algumas cidades que são atendidas hoje quase exclusivamente por médicos cubanos estão apreensivas com o fim do programa. Maria Dalva dos Santos, secretária de saúde de Embu-Guaçu, a 47 quilômetros de São Paulo, em entrevista ao El País relata a dificuldade de atrair médicos brasileiros para a cidade: “A gente fazia os concursos, mas pouca gente participava” (...) “Vamos perder quase 100% dos nossos médicos”, diz ela. “Estamos muito inseguros por não saber como vai ser. Ficaremos totalmente descobertos na atenção básica.” E completa: “A gente está muito preocupado porque não conseguimos candidatos em todas as nossas tentativas anteriores de contratar médicos. A gente espera que o Ministério tome uma atitude fidedigna e consiga repor essas vagas”.

Na cidade, todos os 18 médicos são provenientes do programa federal. 16 deles cubanos e dois brasileiros formados no exterior. Ela relata ainda a queda de índices importantes na saúde da população local: "Nossa rede virou realidade pelo programa. De 2016 pra 2017, nós tivemos uma redução de mortalidade infantil de 14% para 6%”.

A pesquisadora Melissa Spröesser Alonso (Sanitarista e Mestra em Estado, Governo e Políticas Públicas pela FLACSO) acompanhou a implementação do programa em uma cidade vizinha, Mauá, que também sofrerá com a ausência de médicos. 33 dos 46 retornarão a Cuba: "O médico formado no Brasil, com o CRM do país, normalmente quer estar mais perto de um grande centro, onde pode também ir pra iniciativa privada com propostas melhores".

Segundo Mário Scheffer professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, em pesquisa recente, apontou que 84% dos recém-formados em medicina têm nas condições de trabalho o principal fator determinante para fixação em uma instituição ou cidade após a graduação ou residência. A segunda condição mais apontada foi a qualidade de vida, seguida pela remuneração. Por isso, as vagas em locais mais distantes, geralmente com infra-estrutura mais precária, costumam ser ignoradas como opção para os médicos brasileiros.

Felipe Proenco, ex-Coordenador do Mais Médicos deu declarações em seu Twiter explicando detalhadamente a problemática do fim do programa. Veja Aqui:




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