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SEMANÁRIO

Por que a juventude negra deve se organizar sob a bandeira do trotskismo?

João Salles

Mathias Nery

Renato Shakur

Samuel Rosa

Por que a juventude negra deve se organizar sob a bandeira do trotskismo?

João Salles

Mathias Nery

Renato Shakur

Samuel Rosa

Como parte dos debates rumo ao Encontro Nacional da Faísca, buscamos por meio deste texto retomar alguns pontos fundamentais da estratégia formulada por Leon Trótski na Teoria da Revolução Permanente, visando pensar os desafios que temos em nosso tempo e o papel decisivo das negras e negros, com o potencial explosivo da juventude, na luta contra o sistema capitalista, contra o governo Bolsonaro-Mourão e o conjunto dos ataques.

“O capitalismo, seja autoritário ou liberal, se demonstra incapaz de apresentar solução à miséria e angústia da juventude trabalhadora” [1]. Para possuir qualquer perspectiva de futuro, a juventude, principalmente os jovens negros e negras, deve tomar em suas mãos a tarefa de destruir esse sistema que só nos reserva miséria. A alta da inflação, do desemprego, com as filas do osso e o retorno da fome, está diretamente ligada à política nefasta dos racistas Bolsonaro e Mourão, quem mais sofre com isso são a população negra e os setores mais oprimidos da sociedade. São os negros e negras que estão nos piores postos de trabalho e enfrentam amargamente o desemprego, são aqueles que convivem diariamente com a violência policial e que não possuem o direito a educação, tendo suas identidades reprimidas e violentadas diariamente.

A juventude negra quer o direito de conhecer a sua própria história, porém os livros dos historiadores capitalistas a nega; queremos o direito à educação fundamental, básica e superior com qualidade para explorar nossas potencialidades, no entanto, a precarização fornecida pela burguesia esvazia as escolas e não nos deixa entrar nas universidades com seu filtro social e racial que são os vestibulares; queremos o direito a empregos dignos, mas nos deparamos com o desemprego, trabalhos precários e a super exploração, como telemarketing, entregadores de aplicativos e outros trabalhos intermitentes; queremos o direito ao lazer, a conhecer nossas culturas, nos expressar artisticamente, queremos levantar nossos Blacks, praticar esportes e sermos o que desejarmos, mas o capitalismo só nos garante a repressão, a marginalização, o encarceramento em massa, a retirada de liberdade e os assassinatos pelo estado; queremos o direito a amar sem amarras, a busca para desfrutar o melhor da sexualidade, mas o engodo da cultura burguesa nos sufoca em “caixinhas” pré-estabelecidas.

Por todos estes anseios e contra o reacionarismo que Bolsonaro e seus aliados representam, contra esse regime degradado que culpa mulheres por serem estupradas (como o STF que criou o conceito de “estupro culposo” no caso de Mari Ferrer) e contra os agentes de diverso partidos do Congresso nacional que passam diariamente os ataques contra a classe trabalhadora (como a reforma da previdência), buscamos questionar esse sistema de conjunto e lutar por uma saída verdadeiramente revolucionária. Nos apoiando na luta negra nacional e internacional que, como dito por CLR James, é revolucionária mesmo antes da perspectiva comunista. A história de Zumbi, do Quilombo de Palmares, da Revolução haitiana, etc. são grandes exemplos disto, embates que foram contra um sistema econômico suas elites escravocratas.

Buscamos aqui debater uma estratégia revolucionária que possa levar à frente a luta por nossas reivindicações e por uma sociedade livre de qualquer opressão, pensando uma perspectiva no Brasil do Século XXI e o papel da juventude negra em particular. Não queremos meia liberdade ou soluções simplesmente temporárias, queremos destruir a sociedade de classes que nos esmaga. Por isso defendemos a perspectiva comunista, e portanto procuramos a tomada do poder pela classe trabalhadora como necessária para este objetivo. Queremos retomar a história do marxismo revolucionário, nesse sentido, a Revolução Russa se torna um marco estratégico para os futuros processos revolucionários. Trótski, que fez parte do processo de outubro ao lado de Lênin, generaliza o processo revolucionário russo e a estratégia bolchevique no marco de um novo momento do capitalismo, em sua fase imperialista, onde novos desafios estavam se colocando perante os revolucionários, e em frente ao processo de stalinização da terceira internacional.

Desta forma, a Teoria da Revolução Permanente é desenvolvida para pensar a estratégia revolucionária e o programa nos diferentes aspectos particulares dos Estados nacionais, seja de países avançados ou atrasados, e unificando com a “grande estratégia" da revolução comunista internacional. Portanto, esta teoria tem um valor imensurável para todos aqueles que desejam romper com o sistema capitalista e para o conjunto da população negra que luta diariamente contra este sistema. Buscaremos, neste artigo, apresentar a relação entre ambas as questões, discutindo em especial o potencial explosivo da juventude negra, cada vez mais precarizada e proletarizada, como uma contribuição aos debates sobre a refundação de nossa agrupação (Juventude Faísca - Anticapitalista e Revolucionária) e a construção de nosso Encontro Nacional nos dias 10, 11 e 12 de Dezembro, para o qual queremos convidar a todas, todos e todes.

A TRP apresenta três aspectos fundamentais para pensar a revolução em um novo contexto do capitalismo:

A passagem da revolução democrática para a revolução socialista

O primeiro destes aspectos é que as lutas por reivindicações democráticas dos países atrasados, devido a incapacidade de suas próprias burguesias nacionais de realizá-las plenamente, devem conduzir à ditadura do proletariado. Essa primeira lição está diretamente ligada à luta negra ao redor do mundo. As demandas do povo negro, por saúde, educação, igualdade salarial, pelo fim da polícia e suas operações assassinas, pela demarcação dos territórios indígenas e quilombolas entre outros, são reivindicações que só podem ser levadas à frente através da luta contra a burguesia e o capitalismo.

Para entendermos melhor este aspecto, é necessário retomarmos em que marco Trótski generaliza esta concepção. Os bolcheviques, com Lênin e Trótski à frente, debatiam desde 1905 o caráter da revolução na Rússia, considerando a submissão da burguesia russa pela burguesia internacional imperialista, e que mantinha um Estado czarista aristocrático e atrasado como polo da reação internacional na Europa. Entretanto, a contradição que se desenvolve na fase imperialista do capitalismo, que viria a ser analisada e desenvolvida nos conceitos do desenvolvimento desigual e combinado de Trótski, demonstrava como ao mesmo tempo em que avançava para grande concentração industrial, financiada pela exportação de capitais imperialistas, o regime mantinha os camponeses em uma situação não muito diferente da servidão formalmente abolida, conservando a aristocracia dos grandes latifúndios. Podemos observar esta mesma dinâmica na formação socioeconômica brasileira, onde a herança escravista do latifúndio no país se combina com aquilo que há de mais avançado em termos de técnica e maquinário para gerar lucros recordes ao agronegócio e os especuladores do capital financeiro, sobretudo imperialista.

Ou seja, a revolução russa contava com a necessidade de responder não só aos interesses da sua jovem classe operária que se concentrava em milhares nos polos industriais do país, mas também da massa camponesa arruinada, e sua luta pelo direito à terra, contra a herança feudal da servidão. Neste sentido, o partido bolchevique vê a necessidade de que a classe trabalhadora tome para si a luta pelas demandas dos camponeses pobres, como o fim dos latifúndios e a divisão das terras com uma reforma agrária radical, batalhando assim pela hegemonia da classe trabalhadora para com o conjunto dos setores explorados e oprimidos, forjando na luta de classes e nos organismos de autodeterminação das massas ㅡ como os sovietes ㅡ, as alianças para derrotar as estruturas de dominação burguesa, e que mantinham os traços de atraso em sua formação socioeconômica como mecanismos para intensificar a exploração capitalista. Sendo assim, a conquista dessas demandas necessitava de um programa e estratégia revolucionários, que se confrontassem diretamente com a burguesia. No Brasil atual, tais lições são muito necessárias, pois além do fato de questões democráticas elementares da luta antirracista se entrelaçarem às tarefas socialistas (pelo caráter atrasado do capitalismo dependente que se apoia no racismo para se manter vigente e que aprofunda seus traços semicoloniais), as reivindicações operárias são também as reivindicações do povo negro, exatamente por serem parte integral e majoritária da mesma.

Este elemento estratégico é de suma importância para a luta negra. Sabemos como o racismo e o capitalismo estão intrinsecamente ligados e, portanto, a burguesia brasileira, herdeira de latifundiários escravistas, se utiliza do racismo para manter seus interesses de super exploração, marginalização do povo negro e fragmentação das fileiras de trabalhadores. Sendo assim, apenas uma classe pode levar essas demandas a frente, a classe trabalhadora. Estando nos piores postos de trabalho por conta do racismo que, junto ao patriarcado, aumenta a exploração destes setores, o povo negro já demonstrou a sua força explosiva nas principais categorias onde estão presentes. Um exemplo disso são as paralisações dos entregadores de 2020, uma camada formada majoritariamente pela juventude negra, que sem possibilidade de entrada no mundo do trabalho formal, acaba por compor postos de trabalho uberizados. É neste marco que devemos entender que a luta negra faz parte do movimento da luta de classes, e que a luta contra o racismo e todas as suas mazelas deve ser uma luta feita sob hegemonia operária.

Neste sentido, as reivindicações da população negra devem ter espaço dentro do movimento operário e do movimento estudantil. As grandes centrais sindicais, como a CUT e CTB, devem levantar a bandeira de igualdade salarial entre negros e brancos, e junto com a UNE (que são dirigidas pelos mesmos partidos, PT e PCdoB) lutar por direito aos empregos, visando retirar a juventude da miséria. Além disso, lutar pelo direito mínimo dos jovens estudarem nas universidades públicas com a ampliação das cotas raciais e rumo ao fim do vestibular, dentre as muitas outras reivindicações do movimento negro. A separação das lutas, como faz o PT que conta com a adaptação de grande parte da esquerda opositora e do movimento negro, onde uma coisa seria a luta negra, outra seria a luta operária, serve apenas para fragmentar as fileiras da classe trabalhadora e separá-la da juventude, impedindo que as lutas se desenvolvam contra o inimigo comum: os grandes capitalistas que despejam a crise em nossas costas, além de desviarem a força explosiva desta luta para a via eleitoral, invocando uma falsa esperança de que seria possível um avanço dentro do parlamento sem independência de classe.

Portanto, queremos construir uma agrupação de juventude que batalhe nos locais de estudo e de trabalho pela unificação das nossas demandas, que frente ao marasmo que o capitalismo nos proporciona, ter uma coluna de jovens que está lado a lado dos trabalhadores na luta por suas demandas é essencial para a esquerda brasileira. Mostrar que lutar por salários iguais e dignos, contra os ataques das patronais e dos governantes e pelo direito a pleno acesso e permanência nas universidades públicas no Brasil, está ligado intrinsecamente a levantar a bandeira antirracista e anticapitalista, contra a precarização que as mulheres negras são sujeitadas, contra os lucros exorbitantes a custo da super exploração da juventude, e pelo combate ao desemprego dos jovens.

Uma juventude que, em um momento tão reacionário como o que vivemos, tenha como objetivo colocar as ideias do marxismo revolucionário à frente (que em nossa época não pode ser outra coisa, senão o trotskismo), buscando fincar posições firmes pela revolução socialista no ME e no movimento operário, se preparando para momentos de acirramento da luta de classes onde o movimento real da classe trabalhadora possa confluir com as ideias do marxismo e da revolução.

O caráter “permanentista” caracteriza o próprio movimento da revolução

O segundo aspecto essencial pode ser traduzido no fundamento de que as tarefas da revolução não terminam com a tomada do poder, isto é apenas dez por cento das tarefas revolucionárias. Trótski, ao desenvolver este aspecto, demonstra a inexistência de países maduros e não maduros para a ditadura do proletariado, contra toda concepção stalinista que afirma que dentro do terreno nacional cada país teria que se desenvolver até determinado estágio capitalista para comportar uma revolução. Ao contrário disso, nos baseamos na análise internacional do capitalismo que se encontra em sua fase imperialista, e onde a espoliação e a dependência entre a burguesia mais fraca em relação aos países mais desenvolvidos colocam barreiras para que o desenvolvimento das forças produtivas sejam mais elevadas nos países periféricos. A própria dinâmica internacional do capital assegura que a burguesia de países dependentes e semicoloniais mantenham a classe operária e a população dos seus países na miséria, para que elas permaneçam existentes e úteis ao imperialismo.

Tendo esse ponto em vista, países como o Brasil possuem um grande potencial revolucionário, pois desde seu início foi amargado com a irracionalidade capitalista. A exploração do Brasil enquanto colônia de Portugal se apoiou no racismo, fase em que Marx chama de acumulação do capital, que respaldou a desumanização de milhões de africanos. Como parte do “novo mundo”, o território brasileiro guardou dentro de si uma parte fundamental para o desenvolvimento capitalista, a burguesia portuguesa viu a oportunidade perfeita de produção em massa com os plantations e com a gigantesca mão de obra garantida pelo racismo.

Desta forma, um ponto de vista marxista do processo de constituição do capitalismo brasileiro, já observa a relação entre os escravizados e a classe trabalhadora. O processo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil ocorreu de forma a marginalizar o povo negro escravizado, tendo em vista os recorrentes processos de resistência, rebeliões e lutas contra os senhores de engenho. Vale ressaltar que, mesmo antes da abolição, começou a ser utilizada mais mão de obra assalariada imigrante em determinados setores, o que com a abolição da escravidão em 1888 se intensificou.

Sendo assim, era horrorizado pelas elites escravocratas brasileiras ,que já se constituíam como uma burguesia atrasada, a ideia de uma grande classe trabalhadora negra, com um histórico de lutas contra o sistema nos principais setores do trabalho. Portanto ,no início do século XX, com a chegada ainda maior de mão de obra imigrante branca e assalariada, a burguesia nacional se utiliza da ideologia do branqueamento para apagar a luta negra.

Todo este processo veio de encontro com a ideologia da "Democracia Racial”, uma forma de negar a identidade negra dentro do marco da constituição cultural do Brasil. Tal ideologia se caracteriza por negar a existência do racismo no Brasil, o colocando como um “paraíso racial”, e que contém em si, as contribuições da cultura negra para o país, além de tentar esconder a posição subalterna deixada aos negros no capitalismo brasileiro e os processos de luta que eles travaram ao longo da escravidão, mediante a ideia de que o Brasil seria um país miscigenado.

Essa farsa fora combatida pelo movimento negro e por diversos intelectuais, principalmente na segunda parte do último século, tendo como ponto primordial a luta pela auto declaração, o entendimento de que pretos e pardos são negros, isso como uma identidade politica, e ainda a denunciarem as sistemáticas violências do Estado para com a população negra, sua marginalização, a pobreza, a criação das favelas, os ataques aos terreiros, às rodas de sambas e aos bailes blacks, além da política de guerra às drogas pelas mão da polícia. De toda forma, é a burguesia brasileira que tenta eliminar a identidade do povo negro, exatamente pela sua força explosiva e subversiva que a ameaça, principalmente durante a ditadura militar, onde o movimento negro, junto com o movimento estudantil e operário, forma linha de frente no enfrentamento ao regime.

Já na constituição de 88, uma constituição totalmente tutelada pelos militares que resguarda entulhos da ditadura militar, houveram algumas conquistas graças a força do movimento negro e do movimento operário como a criminalização do racismo e com a demarcação de territórios quilombolas e indígenas, mas esses avanços são insuficientes para combater o racismo intrínseco ao capitalismo brasileiro. Desse modo, nos anos que o PT esteve no poder, tiveram de responder às reivindicações da luta negra, contudo, de forma totalmente insuficiente e de maneira controlada, características de uma estratégia reformista de conciliação de classes, posto que não colocou as reivindicações dos negros por igualdade salarial dentro de seus sindicatos. O governo petista auxiliou na criação das cotas raciais para as universidades, entretanto, não sendo elas proporcionais ao número de negros em cada Estado, além disso, criou o Estatuto da Igualdade Racial sem promover ações contra a violência policial. Vale ressaltar que fora durante o governo do PT que foram fundadas as UPPs, órgãos responsáveis pelas atuações nas favelas do Rio de Janeiro e que aumentaram em muito a violência contra os moradores, em sua maioria negros e pobres, continuando, assim, o sistemático genocídio da juventude negra.

Com o golpe institucional de 2016, houve uma guinada à direita em relação aos avanços conquistados no último período. Posteriormente, com a eleição de Bolsonaro, houve um verdadeiro choque à direita nas relações raciais (tese que trabalhamos em diversos artigos no Ideias de Esquerda), onde o reacionarismo mudou a correlação de forças e o regime passou a superar pela direita o mito da Democracia Racial. Exemplo disso foi o discurso do Bolsonaro dizendo que um negro quilombola pesava 15 arrobas, nos comparando a bois, e que “aqui no Brasil ninguém é negro”, pois supostamente “há um povo brasileiro”, como afirma Mourão, são a escória que nega a herança escravocrata e o caráter racista do Estado burguês. Os esforços são diversos para taxar a população negra que denuncia a barbárie que vive cotidinamente como louca ou para dizer que os “os negros que fazem o próprio racismo”. Querem tentar justificar o aumento dos assassinatos realizados pela polícia, onde a maior parte dos assassinados são negros, a saída cada vez maior de jovens negros das universidades graças a falta de auxilio estudantil, ainda a perseguição de MCs e a criminalização do funk e cultura negra, como meras coincidências, escondendo a mais clara verdade: sempre fomos o alvo da burguesia brasileira.

Estes elementos para pensarmos o Brasil e como o racismo impacta diretamente no capitalismo do país só pode ser superado na luta de classes e nos processos revolucionários. Como na experiência bolchevique em relação ao machismo e a luta das mulheres, pelo direito elementar ao aborto, ao divórcio, a igualdade salarial e por creches e lavanderias públicas contra o trabalho doméstico e a dupla jornada, os elementos reacionários do racismo só podem ser superados com a mudança concreta do modo de produção e por fim dos costumes reacionários oriundos da burguesia.

Como caracteriza Trótski, a tomada do poder são 10% da revolução socialista, pois entre outros fatores, como a necessidade da internacionalização, os costumes da ideologia burguesa, não somem da sociedade instantaneamente. Porém sem a tomada do poder pela classe trabalhadora, as batalhas por igualdade nos direitos, de salários, de ser livre para expressar sua cultura e identidade nunca serão reais, sempre estarão sujeitas aos ataques e à manipulação da burguesia. Sendo assim, vemos no Brasil a necessidade de construir uma juventude que batalhe junto com a classe trabalhadora para que cada passo seja no sentido da tomada do poder político e econômico pelos trabalhadores, caminhando para destruir efetivamente tudo de mais atrasado da cultura burguesa.

Este combate deve ser levado adiante com uma estratégia que não se adapte ao Estado burguês, como fez o PT, mas sim, com uma estratégia que fomente a auto-organização, e a necessidade de um partido revolucionário baseado na experiência bolchevique na Rússia, erguendo uma política da independência de classe e que não tenha nenhuma ilusão que dentro do capitalismo seja possível superar tal contradição. Nisso, a teoria da revolução permanente demonstra uma forma de lutar, com a independência dos trabalhadores, e procurando superar os atrasos regidos por estes sistema.

O caráter internacionalista da Revolução Socialista

Por fim, o último aspecto da Revolução Permanente é seu internacionalismo proletário. Para Trótski, a revolução socialista se inicia dentro dos limites nacionais, necessitando do desenvolvimento de outras revoluções no plano internacional, mas só pode se consumar em escala mundial. Esse prognóstico de Trótski corresponde à organização mundial do capital e sua fase imperialista. O capitalismo se organiza em escala mundial, pois então a vitória sobre ele só pode existir nesta mesma escala.

Com isso, devemos entender como o racismo e a exploração da população negra, já nasce como uma questão internacional. Os processos revolucionários sempre ecoam em escala global, e um dos maiores exemplos isto é a própria revolução haitiana, em que, sobre a influência da revolução francesa e pelas revoltas internas contra o regime escravista, o povo negro da colônia de São Domingos lutou por sua liberdade e emancipação realizando a primeira revolução no continente americano totalmente composta por escravos insurretos.

O povo negro realizou grandes embates revolucionários nos países africanos durante o século XX na luta anticolonial, entretanto, suas direções stalinistas, reivindicadas por correntes de juventude como é o caso do Movimento Correnteza (Unidade Popular) e UJC (PCB), trataram de subordinar a luta às direções burguesas ou pequeno-burguesas, e com sua política da conciliação de classes abriram caminho para a restauração do capitalismo, isso quando não apoiaram diretamente a formação de Estados capitalistas supostamente “soberanos”, bloqueando a dinâmica permanente da revolução. É necessário tirarmos lições dessas experiências, buscando uma estratégia revolucionária que possa levar à frente a tomada do poder por parte da classe trabalhadora de seus países, com as negras e negros na vanguarda da luta contra o capitalismo.

Tivemos diversos exemplos recentes da potencialidade e força da luta negra. No último ano, observamos os atos do Black Lives Matter nos EUA, que se elevaram contra a violência policial, unificando negros e brancos, tendo o apoio de setores da classe trabalhadora na luta contra o racismo e a polícia. Tivemos também atos na França com o mesmo caráter, e ainda greves de trabalhadores na Nigéria, greve dos trabalhadores da construção civil na África do Sul. Todas essas lutas são exemplos da força do povo negro e da classe trabalhadora e devem servir de exemplo para toda a juventude negra que está cansada das mazelas deste sistema.

Para isto é necessário ser levantado um programa que leve em frente todas essas reivindicações. A resposta para crise que vivemos não pode se dar em unidade com a direita, com nossos inimigos de classe, mas sim com uma politica de independência de classe, essa é única possibilidade para avançarmos com as reivindicações do povo negro no país. E indo além, imaginem a força moral do povo negro e dos trabalhadores em escala mundial ao ver triunfar uma revolução socialista no maior país negro fora da África, com as negras e negros em sua vanguarda. Um elemento como este certamente tiraria o sono da burguesia pelo mundo todo, podendo ser o estopim para novos ascensos da luta de classes que colocassem em xeque a dominação capitalista.

A Revolução Permanente, portanto, é a teoria-programa para a dissolução das classes sociais e com isso também todas as opressões, inclusive o racismo. É a única estratégia que coloca até o fim a necessidade de independência política do proletariado, tivemos alguns vislumbres disto com a história do Quilombo dos Palmares e de Zumbi em sua luta irreconciliável com a Coroa portuguesa e a elite escravista. Como já dito por CLR James, o lugar o povo negro é na vanguarda da luta revolucionária, nossas reivindicações não têm espaço no Brasil de Bolsonaro e Mourão, e nem dentro do sistema capitalista, nossos desejos e sonhos são muito maiores. A luta pela liberdade do povo negro, se levada até o final, é uma luta pra destruir este sistema que objetivamente e subjetivamente nos massacra. A nossa luta é pelo fim das classes sociais e pelo fim desse sistema de opressão, a nossa luta é pelo comunismo, e por uma sociedade onde não teremos mais correntes.

Por isso, nós militantes da Juventude Faísca e do Quilombo Vermelho, chamamos a todos companheiros que vêm a necessidade de construir uma alternativa revolucionária a debaterem e estarem com a gente no Encontro Nacional “Ideias Trotskistas para Revolucionar o Mundo” nos dias 10,11 e 12 de dezembro, no Rio de Janeiro. Buscamos desenvolver ainda mais a teorias elaboradas da tradição revolucionária para pensar nosso desafios atuais, frente ao reacionarismo nojento que somos jogados devemos responder com a força da nossa classe, dos negros, das mulheres, dos LGBT’s e de todos os setores oprimidos contra essa burguesia nefasta, que sustenta esse sistema escravista e racista.

Como já foi dito, queremos resgatar a história da nossa classe, da luta negra contra todo tipo de opressão e exploração, apoiando-se nos exemplos internacionais mais profundos de revolta e de independência de classe, como vemos a FIT-U na Argentina, que deixa um exemplo a ser seguido pela esquerda brasileira. O Século XXI é marcado por lutas e revoltas de uma geração que não aguenta mais sobreviver neste sistema capitalista, precisamos juntar todo o ódio que guardamos historicamente com o mais avançado da estratégia revolucionária: o trotskismo.

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FOOTNOTES

[1TROTSKI, Leon. Plataforma de luta da juventude trabalhadora. 1° de setembro de 1938.

João Salles

Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP
Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP

Mathias Nery

Estudante de Filosofia - USP

Renato Shakur

Samuel Rosa

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