Teoria

A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.13

Por que a economia mundial quebrou em 1930?

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 8 de fevereiro| Edição do dia

Terminada a I Guerra, a economia mundial – Estados Unidos, sobretudo – estará diante de breve crescimento seguido de nova crise, uma enorme crise.

O mercado mundial, portanto, depois de um crescimento espantoso na era do auge imperialista, que se estendeu até 1914, sofrerá, ao final dos anos 20, arrefecimento, por conta do impasse na esfera da própria economia, mas também da explosão de contradições no seio do capitalismo, que incluem – agora na esfera da luta de classes - a Revolução Russa, revoluções coloniais, além da industrialização parcial de certos países periféricos para onde afluíam capitais metropolitanos.

No núcleo da crise está a própria dinâmica econômica do sistema.

O livre desenvolvimento da crise do capitalismo, sistema que já não se encontra em crescimento orgânico, revela, dessa forma, para a liderança política da economia mundial, a emergência de novos tempos. Tempos nos quais o processo da acumulação do capital deixado ao seu livre desenvolvimento remete o sistema para a estagnação com sequelas sociais politicamente insuportáveis, que desestabilizam e/ou põem em risco o sistema. Ratificando os estudos de Lenin, o dado histórico é claro: a era do imperialismo se instalara de vez, em sua plenitude e na plenitude da sua crise.

Grandes crises como a dos 1930, dos 1970 e a atual [desde 2008] serão expressão desse processo de fundo, de senilidade de um sistema que acumula contradições.

A partir daquele momento histórico, não é mais possível entender a economia mundial a não ser como um todo orgânico em crônica e grave crise; seja por conta da incapacidade das economias ricas de se limitarem às fronteiras nacionais, como também por conta da impossibilidade da economia mundial de desenvolver qualquer dinâmica racional e equilibrada em meio à cega disputa dos grandes oligopólios capitalistas, conforme veio sendo analisado nas notas anteriores.

Esta dinâmica fundada nos oligopólios imperialistas impede qualquer razão "humana", qualquer planejamento na economia.

Naquele momento, a Inglaterra não mais conseguia impor-se dentro da economia mundial e o seu mais forte rival, os Estados Unidos, tampouco conseguiram “resolver” esta questão - de quem é o verdadeiro hegemon - na Grande Guerra de 1914. Aqui havia um impasse.

O cenário para novas catástrofes estava armado. A economia internacional acumulará mais produção, mais riqueza, novos patamares tecnológicos, mas – vale repetir - jamais reencontrará um padrão de equilíbrio (instável) sequer semelhante ao de antes.

As tensões econômicas seguem.

As contradições citadas se agudizam, a pujança da economia norte-americana se acentua e o baque vem em seguida, com a mais poderosa economia do capitalismo quebrando em 1929 com o conjunto da economia mundial marchando para a Grande Depressão. Chegada a crise, o comércio mundial irá crescer menos que a produção, menos que a população. Tudo ao contrário da época do auge imperialista.

A economia mundial na era da Grande Depressão
Os anos 20 começaram com fortíssima turbulência social em países centrais do capitalismo, com o triunfo da Revolução Russa e uma evidente crise econômica no país capitalista hegemônico, a Inglaterra, crise que se refletia na moeda internacional, a libra, que só foi estabilizada graças à intervenção da economia mais rica, os Estados Unidos. Estes, detentores de quase todo o ouro do mundo, ao controlarem e, em algum grau, estabilizarem a moeda inglesa, procuravam avançar em sua hegemonia, sobre a economia mundial.

De toda forma, a zona de turbulência estava instalada.

Naquele período a luta de classes alcançou altos patamares na Inglaterra; também na Alemanha, na França, na Espanha, na China.

Mas no final da curva o sistema colapsou: a Bolsa de New York veio abaixo.

Pensando em perspectiva, tanto a I Guerra, quanto a Grande Depressão expressam duas grandes rupturas globais, da unidade da economia mundial. Na I Guerra, as economias em crise vão para o confronto militar. Mas em 1930, com o crack econômico sistêmico, observa-se uma espécie de autarquização das nações. Os grandes países fecham-se, deflagra-se a corrida armamentista dali a pouco e as forças econômicas da Alemanha, do Japão, então sufocadas, partem para o segundo confronto mundial, no seio dos países imperialistas e agora contra a URSS.

[Nada disso, nem as duas Grandes Carnificinas puderam deter a crise como elemento estrutural e recorrente no capitalismo. Quando, pouquíssimos anos depois da II Guerra, a economia mundial afundou, por volta de 1973, a começar dos Estados Unidos, já se acumulavam mais contradições na economia – agora sem o lastro-ouro, por exemplo - como também na esfera das fricções entre os Estados e por conta da eclosão de múltiplos processos revolucionários].

Se é certo que os anos 20 - e a belle époque norte-americana - desembocaram no crack, e este na Grande Depressão, também é verdade que o sistema, para poder sair do seu próprio atoleiro, para engrenar algum crescimento mais adiante, precisou, antes, contar com o travamento da Revolução Russa e o fracasso político das revoluções europeias dos anos 1920 e 30 [uma vitória da revolução na Alemanha teria mudado o curso da história, por exemplo].

Naquela Grande Depressão, a taxa de desemprego extrapolava os 20% - um em cada quatro norte-americanos estava desempregado, ao mesmo tempo em que o PIB norte-americano derreteu em quase um terço. O governo norte-americano comprava toneladas de alimentos para incendiá-los. A produção industrial caiu pela metade. Houve conflitos no campo e na cidade contra o exército e, ao mesmo tempo, um boom de sindicalização.

Até que Roosevelt girou a economia para a produção] de armas...
Ali houve um divisor de águas no sistema. Histórico.

Os quadros mais lúcidos da economia mundial capitalista – a exemplo de Keynes - aprenderam, nos marcos daquela tormenta, que o mercado mundial já não podia ser deixado solto, no seu auto-movimento, como naqueles últimos cem anos. Ou se lançava mão do Estado ou o sistema afundaria.

E assim passou a ser.

A economia mundial não mais voltou àqueles marcos: mesmo na sua trajetória neoliberal recente, das últimas décadas do século XX e nos nossos dias, o Estado nunca teve tanto peso na vida macroeconômica das grandes nações capitalistas, seu endividamento público nunca foi tão grande, seu PIB bélico tão avantajado. (Aqui pouco importa o discurso ideológico de Estado menor: o Estado norte-americano – e cada um dos europeus – nunca foi tão pesado, tão grande, tão intervencionista). E as massas trabalhadoras nunca foram tão dependentes do crédito e submetidas ao pagamento de somas brutais de impostos.

Portanto, vale enfatizar: a crise de 30 foi um marco da economia mundial não apenas porque ali a totalidade econômica mergulhou em um processo estagnacionista aberto que não tinha qualquer precedente, não apenas porque instalou-se a já mencionada fragmentação do mercado mundial (uma espécie de autarquização transitória das nações) mas porque desembocou no nacionalismo militar de cada país imperialista, na conflagração militar entre as economias mais fortes e, finalmente na rearrumação mundial e recomposição violenta dos países mais ricos na esfera do espaço econômico e geopolítico mundial.

Tudo na contramão da lenda keynesiana cultuada nas faculdades de economia burguesas [de que o keynesianismo civil faz a economia crescer de forma sustentada].

O crack de 1929 foi o desfecho de um processo de anos a fio em que o sistema – ou a economia mundial – não mais encontrava seu equilíbrio dinâmico para a acumulação ‘normal’ do capital como encontrara antes, na sua fase de crescimento orgânico, prévia à I Guerra Mundial. Por sua vez, a existência da jovem URSS agravava os problemas próprios do capitalismo.

Problemas essenciais para o grande capital, como o de reencontrar a rentabilidade para grandes investimentos (em quê investir se a produção ‘normal’ não alentava investimentos?) complicavam-se. Problemas do funcionamento do capitalismo como sobreacumulação de capitais e queda tendencial da taxa média de lucro, aumento da composição orgânica do capital foram se impondo. Em resumo: as dificuldades para a valorização do capital ganhavam dimensões dramáticas.

Naqueles anos, mesmo com o bônus do fracasso da revolução socialista alemã [1923; e, em 1933, a capitulação do PC alemão diante do ascenso de Hitler], mesmo com os Estados Unidos tendo disponível uma enorme capacidade produtiva instalada, a crise na economia não encontrava solução. A depressão persistia. Os Estados Unidos, mais ricos, não tinham hegemonia política sobre o conjunto da economia capitalista (sobre mercados, sobre fontes de matérias-primas, por exemplo). E não conseguiam, pelas vias econômicas “normais” [e, como foi dito, nem com o keynesianismo civil], sair do fundo do poço da depressão econômica.

Aqueles anos foram os da mais grave crise do sistema jamais vista: da prosperidade para o fundo do poço, com o crescimento levando, ele mesmo, à crise, o que é da natureza e da lógica do capitalismo. Que ali estava exposta a céu aberto.

Para, logo em seguida, mais uma vez, vencedores e vencidos da I Guerra, as frações da grande burguesia mundial se lançarem em outra grande carnificina. Não sem antes procurarem esmagar e desviar politicamente o movimento operário. Para isso contaram com a ajuda política fundamental do stalinismo [o exemplo da organização da derrota de revoluções como a chinesa do final dos anos 20, da revolução espanhola nos anos 30 e, finalmente, a vitória de Hitler, são terminantes a esse respeito].

[Como o sistema superou aquele crack é o tema da próxima nota].

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas]. Continua na nota n.14.




Comentários

Comentar