A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.2

Por que a economia do mundo capitalista começou na Europa?

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 4 de agosto| Edição do dia

A “segunda” economia mundial

No momento em que alcançamos a era industrial-inglesa, haverá uma inversão de “papéis” em relação à fase anterior: agora a Europa passará a exportar produtos manufaturados para as regiões extra-europeias. Através da ação do seu Estado, dos seus capitais, da hegemonia inglesa em termos de produção industrial mundial, a burguesia europeia irá forçando a especialização das colônias em produtos primários (alimentos e matérias-primas para a industrialização das metrópoles do capital). E irá inibir/destruir sua industrialização, ou modelar seu tipo de industrialização, como veremos mais adiante.

Este processo – a chamada industrialização em moldes mercantis – notoriamente dirigido e estruturado pelo nascente capitalismo, pode ser definido, em sua es¬fera mais profunda, como de acumulação ampliada do capital. Seu comando estará nas mãos daqueles que detinham maior massa de capitais acumulados, portanto, aptidão para investir fortemente em plantas industriais, em máquinas e mão-de-obra.

Marx (em 1848) argumentou que

“a burguesia, durante seu domínio de classe, apenas secular, criou forças produtivas mais numerosas e mais colossais que todas as gerações passadas em conjunto. A subjugação das forças da natureza, as máquinas, a aplicação da química à indústria e à agricultura, a navegação a vapor, as estradas de ferro, o telégrafo elétrico, a canalização de rios (...) que século anterior teria suspeitado que semelhantes forças produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?”

Como também já explicou Marx n’O Capital:

“Não há dúvida que as grandes revoluções do século XVI e XVII, assim como as descobertas geográficas e suas con¬sequências no comércio e no desenvolvimento do capital mercantil, constituem um fator que acelerou a passagem do modo de produção feudal ao capitalista... A base deste último é o próprio mercado mundial. Por outro lado, a necessidade imanente do capitalismo de produzir numa escala cada vez maior, incita uma extensão permanente do mercado mundial, de maneira que não é mais o comércio que revoluciona a indústria, mas o contrário”. A “ indústria moderna estabeleceu o mercado mundial, para o qual a descoberta da América preparou o terreno”, argumenta este mesmo autor (1998: 145).

Com a revolução industrial e a veloz e concentrada acumulação do capital industrial na Europa, a pilhagem direta dos países do além-mar continuou sendo importante em termos de explicação para a prosperidade da nova classe dominante europeia, mas este elemento passou a segundo plano, frente à dinâmica do capital industrial.

“O grande comércio pré-capitalista era exclusivamente externo. Extraía seus recursos do desenvolvimento econômico desigual entre diferentes regiões do mundo. Com o impulso do modo de produção capitalista, o comércio internacional alcançou uma amplitude que jamais tinha visto. Mas a natureza deste comércio modifica-se à medida em que ele se generaliza. Em outra época era essencialmente comércio de luxo, agora se converte antes de mais nada em comércio de bens de consumo corrente, matérias-primas, meios de produção” (MANDEL: 184).

O século XIX assistirá ao surgimento de uma eco¬nomia mundial unida pelo crescente fluxo de mercadorias, capitais e pessoas:

“O fato maior do século XIX é a criação de uma economia global única, que atinge progressivamente as mais remotas paragens do mundo, uma rede cada vez mais densa de transações econômicas, comunicações e movimentos de bens, dinheiro e pessoas ligando os países desenvolvidos entre si e ao mundo não desenvolvido” (HOBSBAWM, 1988: 95).

A unificação mundial, as metrópoles e colônias do capital
Crescentes massas de riqueza passam a ser extraídas do chão de fábrica (antes eram arrancadas quase que apenas através do saque, da fraude e do lucro comercial) ou seja do montante geral de mais-valia produzido pelos operários.

[Mais-valia é a riqueza produzida pelo operário e não paga pelo capitalista. Pelo trabalho de 8 horas, o operário só recebe o equivalente, em mercadorias, a um mínimo de horas, a depender do grau de exploração da sua força de trabalho. O capitalista – proprietário das máquinas, matérias-primas, ferramentas e meios financeiros fica com as demais horas. Gratuitamente].

Continuam sendo extraídos super-lucros das colônias e semi-colônias a partir das economias mais industrializadas pelo capital, agora sob novas formas: a desigualdade do desenvolvimento econômico, exacerbada pelo capitalismo, revela-se uma grande vantagem para os detentores mun-diais do grande capital. No argumento de Mandel:

“O modo de produção capitalista, a exportação de mercadorias industriais produzidas pelos primeiros grandes países industriais, unifica, de fato, o mercado mundial. Mas está longe de unificar a produção mundial, suas condições técnicas e sociais, seu grau de produtividade média do trabalho. Pelo contrário a unificação do mercado mundial realizada pelo capitalismo é uma unificação de elementos antagônicos contraditórios. A distância entre a produtividade média do trabalho de um camponês hindu e aquela do operário americano ou britânico, é bem mais rebaixada do que a distância entre produtividade do trabalho na maior empresa romana de escravo e a do camponês nos limites do império. Essa desigualdade de desenvolvimento se converte, no modo de produção capitalista, em uma fonte particular de sobre-lucro” (p. 184).

A partir da produção por meio de máquinas, a Europa, sobretudo a Inglaterra, concentrará a produção industrial e irá determinando a mencionada especialização dos países chamados periféricos:

“O resto do mundo tornou-se um complexo de territórios coloniais e semicoloniais que crescentemente evoluíam em produtores especializados de um ou dois produtos primários de exportação para o mercado mundial, de cujos caprichos eram totalmente dependentes. A Malásia cada vez mais significava borracha e estanho; o Brasil, café; o Chile, nitratos; o Uruguai, carne; Cuba, açúcar e charutos. Na verdade, à exceção dos EUA, mesmo as colônias de povoamento branco fracassaram em sua industrialização (nesta etapa), porque também ficaram presas na gaiola da especialização internacional” (HOBSBAWM, 1988: 95).

Esta nova ordem, ou divisão internacional da produção, do trabalho, será conduzida a partir do grande capital industrial inglês, que leva todas as vantagens:

“o comércio entre um país economicamente avançado – que goze de um avanço ou de um monopólio de produtividade – e um país economicamente subdesenvolvido, representa uma mudança de menos trabalho contra mais trabalho ou, o que dá na mesma, uma transferência de valor do país atrasado para o país adiantado” (MANDEL, 185).

Em especial há uma transferência de valor – segundo a análise de Shaikh sobre as vantagens absolutas – associada ao comércio entre os mesmos ramos (onde a mesma mercadoria, em países que a produzem com diferente composição orgânica, beneficia aos países de maior composição orgânica).

Aqui pela primeira vez surge uma unificação do mundo sob bases econômicas e sob direção dos grandes capitais europeus e paulatinamente norte-americanos e japoneses. O auge ainda é britânico, a moeda internacional ainda é a libra, mas, como parte do processo de desenvolvimento desigual entre as diferentes economias, Estados Unidos, Alemanha e Japão disputam à Inglaterra terreno de inversões e de influência em escala de mundo. Transcorria a segunda metade do século XIX.
O mundo foi política e economicamente dividido precocemente e em torno das potências industriais que mais rapidamente se estruturaram como tais; a resultante foi que restou pouco espaço global para dividir (elevando-se a tensão entre os países mais avançados) e acentuou-se a distância ou o desequilíbrio entre estes e os mais atrasados, de baixa taxa de crescimento e baixa demanda por mercadorias industriais. Agravou-se a desproporção entre os países.

Trava-se uma concorrência do capital no espaço-mundo. A produção inglesa não pode ser consumida (vendida) na Inglaterra. É preciso criar consumo mundial, buscar capitalistas e assalariados pelo mundo afora para consumirem seus produtos. Os negócios não podem parar, movidos pela acumulação do capital.
Os empréstimos para as economias periféricas vão ser contratados junto com a obrigação de compra de manufaturados da Inglaterra. Os beneficiários dos empréstimos devem comprar a produção dos credores. A elite colonial – na condição de sócio menor – se associa vantajosamente a este pacto, que distorce e espolia o desenvolvimento das economias locais, mas engorda essa burguesia nativa “globalizada”.

O mercado mundial é a válvula de escape para a produção industrial crescente nas metrópoles:

“a contradição entre a tendência do desenvolvimento ilimitado da produção e a tendência a uma limitação constante do consumo popular é uma das manifestações essenciais da contradição fundamental do modo de produção capitalista. O prodigioso desenvolvimento da indústria capitalista, sobretudo da indústria inglesa, na primeira metade do século XIX, só foi possível porque para além do mercado nacional existia um mercado internacional que parecia não ter limites a ser conquistado” (MANDEL: 185).

Dessa forma, cada massa de capital que aflui para a periferia não-industrializada, além dos ganhos em juros, se traduz em investimentos industriais na Inglaterra, fornecedora de produtos para a economia periférica endividada. Os rivais mundiais da Inglaterra seguem o mesmo caminho da exportação de capitais. Na altura de 1914 enquanto a Inglaterra exporta 87 bilhões de francos (franco-ouro de 1913) para o mundo, a França exporta 20, a Alemanha 40 e os Estados Unidos 15. O mundo é “inglês ”.

Está dada a largada para a gestação de crises econômicas que transcenderão o espaço nacional para eclodir sob a forma de crise global. A concorrência entre os grandes oligopólios assume a esfera mundial como arena de disputa com os Estados em representação aos seus grandes grupos burgueses –, o que equivale a dizer que tal dinâmica prepara-se para assumir a face do confronto militar global.

[Continua na Nota n.3, brevemente no ED].
[Crédito de imagem: www.english.cntv.cn ]

Referências:
MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economia marxista. Ediciones Era, México.
MARX, Karl, 1968. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
HOBSBAWM, Eric, 1988. A era dos impérios. 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas.




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