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VIAGEM OBAMA

Por que Obama visitará Cuba e a Argentina?

Obama realizará uma histórica visita a Cuba e depois viajará para a Argentina em Março. A viagem revela uma tentativa de consolidar os avanços imperialistas na ilha e um forte respaldo ao governo de Macri e ao avanço regional da direita.

terça-feira 23 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Fotografia: Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, viajará para a Argentina nos dias 23 e 24 de Março, informou a Casa Branca na quinta-feira. Antes realizará uma histórica visita a Cuba, sendo o primeiro presidente estadunidense a visitar a ilha em 88 anos.

A viagem do presidente Obama a Cuba busca avançar no processo de restauração capitalista da ilha, assim como mandar uma mensagem ao Congresso dos EUA e aos candidatos que concorrem na interna presidencial de ambos os partidos de que o processo é "irreversível" e que têm de derrubar o bloqueio.

No final de seu segundo mandato, Barack Obama planeja reunir-se com seu par argentino, Mauricio Macri, "para aprofundar os esforços para aumentar a cooperação entre nossos governos em uma série de áreas, incluindo comércio e investimento, energia renovável, mudança climática e segurança pública", afirmou o comunicado da Casa Branca. A data escolhida para sua viagem à Argentina, 23 e 24 de Março, parece uma provocação. No dia em que se completam 40 anos do golpe militar genocida no país sul-americano, Obama estará reunido com o chefe de um governo cujos funcionários falaram de "terminar com o mínimo dos direitos humanos" e acaba de promulgar um protocolo que reprime e restringe o protesto social. Uma verdadeira demonstração de cinismo imperial do presidente estadunidense que já foi visto pelos próprios governos pós-neoliberais da região como a possibilidade de que os Estados
Unidos tivessem um presidente progressista.

A última visita de um presidente estadunidense à Argentina foi em 2005, quando George Bush participou da Cúpula das Américas, lembrada na região pelo enfrentamento dos governos da Argentina, Brasil e Venezuela com a tentativa de extensão da ALCA que os Estados Unidos propunham.

Um forte sinal imperialista de apoio ao giro à direita na região

A boa recepção da burocracia castrista à notícia da viagem de Obama a Cuba vem para consolidar o giro restauracionista que tem se aprofundado desde a abertura de negociações para o fim do bloqueio estadunidense na ilha.

Somado a isso, a visita do presidente Obama à Argentina se liga à que, em poucos dias, realizará o Primeiro Ministro francês, Hollande. Após a vitória em novembro, o governo Macri recebeu a aprovação das principais potências do mundo. O giro marcado à direita do novo governo argentino, as medidas econômicas de corte neoliberal e o ajuste pela dívida com os hold outs, foram tomadas como sinais claros de mudança em um dos principais países da região.

A viagem à Argentina é um forte sinal a favor do governo de Macri, que recebeu outros gestos da parte dos Estados Unidos, como o anúncio de que ampliaria seu veto aos créditos de parte dos organismos internacionais. Além disso, o Departamento de Estado já enviou funcionários, para melhorar as relações políticas e comerciais.

Segundo anunciaram desde Washington, "o presidente (Obama) vai discutir uma agenda de reformas e buscar contribuições para a defesa dos direitos humanos na região". As reiteradas declarações do novo presidente argentino dizendo que o país deve abrir-se ao mundo, expandir seus acordos comerciais à União Europeia e aos Estados Unidos, junto ao apoio manifesto a favor das reivindicações da oposição de direita na Venezuela, mostram o sentido da agenda que seguramente tratarão Obama e Macri, uma com um marcado giro em relação aos anos anteriores.

O apoio a uma nova estabilidade regional

Como analisamos na nota "Giro à direita e luta de classes na América do Sul" da revista Estratégia Internacional, "o ano de 2015 termina com importantes avanços da direita a nível político: o triunfo opositor nas eleições legislativas da Venezuela, o acesso à presidência de Macri na Argentina, o fortalecimento da direita tucana e a tentativa de impeachment contra Dilma no Brasil". A visita do presidente Obama à Argentina, imediatamente após passar por solo cubano onde buscará consolidar o avanço imperialista na ilha, é uma amostra da aposta imperialista de fortalecer uma nova perspectiva política na região, marcada por um giro à direita frente ao declínio dos governos pós-neoliberais. Mas isso não será tarefa fácil para Macri, já que tem seus próprios problemas: a relação de forças existente lhe impõe ter que medir seus ataques contra as conquistas alcançadas pelos trabalhadores e pelo povo na última década, somado a que o cenário imediato de "chuva de dólares" que pretendia para apagar o incêndio econômico vem sido postergado.

A visita de Obama vem dar um respaldo a quem considera sua política mais afinada para estar no governo, porém isso está ainda longe de resolver os problemas internos de Macri e menos ainda de posicionar Macri como um organizador regional.
A aposta imperialista parece buscar que a "nova direita" continental, cujo ponto mais forte se encontra no novo governo argentino, se consolide como uma opção nas revoltas águas regionais, em especial após a crise política no Brasil e a crise econômica e política venezuelana.

A aposta ainda não é segura, em especial porque o giro copernicano nas políticas oficias pode gerar um maior rechaço e enfrentar a mobilização dos trabalhadores e do povo pobre. Contudo o imperialismo não só tomou nota do giro à direita da superestrutura política regional, como também aparece disposto a fortalecê-lo. Nesse marco, torna-se relevante a visita do presidente estadunidense.




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