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Por que 70 000 trabalhadores e trabalhadores nas fábricas mexicanas estão em greve?

Na cidade de Matamoros, no norte do Mexico, 70 000 trabalhadores e trabalhadoras da indústria maquiladora entraram em greve por salários. É um feito histórico, por sua magnitude, e essa luta se ampliou devido às assembleias, com questionamentos à burocracia, afetando a produção nos Estados Unidos.

quarta-feira 23 de janeiro| Edição do dia

A cidade de Matamoros, no norte do México e na fronteira com os EUA abriga mais de 100 empresas maquiladoras (nome pelo qual são conhecidas as indústrias de montagem e produção baseadas em mão de obra barata que produzem para os Estados Unidos, Canadá e Ásia).

Com somente 600 000 habitantes, mais de 150 000 são empregados nas "maquilas" de forma direta ou indireta. Durante anos eles sofreram todos os tipos de abusos, em condições precárias de trabalho e sem a possibilidade de se organizarem. Seu trabalho está intimamente ligado à produção das principais multinacionais que dependem das maquilas para reduzir seus custos e maximizar seus lucros. É por isso que a greve que explodiu há mais de uma semana, depois de anos de calmaria, preocupa os industriais dos EUA, o governo López Obrador (AMLO) e a própria burocracia sindical mexicana.

A seguir, alguns pontos-chave para entender o conflito:

1. Os setenta mil trabalhadores que entraram em greve em Matamoros, no estado de Tamaulipas, exigem o pagamento do bônus correspondente e um aumento nos salários depois que o governo de Andrés Manuel López Obrador elevou o salário mínimo na fronteira para 9,27 dólares por dia.

2. O aumento de 100% do salário mínimo na fronteira norte pelo governo não só não cobre o custo da cesta básica recomendada, que cresceu para mais de 264,84 pesos mexicanos - 13,94 dólares diários em média, sem contar que na região da franteira o custo de vida é mais elevado - mas tampouco inclui os custos de trasporte, habitação, ou vestimenta.

3. Esse aumento trouxe algumas repercussões negativas, como a eliminação de bônus adicionais ao salário que compensaram o alto custo de vida na região. Por sua vez, os empregadores não fazem ajustes proporcionais aos salários dos trabalhadores que ganham acima do mínimo, que praticamente ganham o mesmo que antes. Antes das paralisações, houve algumas demissões injustificadas de trabalhadores apenas para perguntarem o que aconteceu com o bônus e o aumento.

4. O descontentamento se generalizou entre as operárias e operários das maquilas. Frente a recusa de mobilização por parte de Juan Villafuerte Morales, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Diários, Trabalhadores Industriais e da Indústria Maquiladora, os trabalhadores o desconsideraram e decidiram iniciar uma paralisação de suas atividades.

5. No sábado, 12 de janeiro, trabalhadores de 9 maquilas paralisaram. Na segunda-feira 14, já havia 45 e entrando na segunda semana de greve, neste 21 de janeiro, completou mais de 55 fábricas paralisadas. A mobilização apesar da recusa de seus dirigentes é característica das lutas dos últimos anos nas maquilas do norte, porém a greve atual, por suas características e amplitude, é um fato histórico. Isso aumenta a confiança nas forças dos trabalhadores de base e prepara-as para lutar pela liderança independente da burocracia sindical (uma burocracia associada ao narcotráfico, em um dos estados mais violentos do país). A rejeição dos dirigentes sindicais também se expressa na demanda pela redução da cota sindical, já que dizem que não fazem muito pelos trabalhadores.

6. Tamaulipas é um dos estados onde a militarização e a guerra contra o tráfico de drogas impuseram um clima de violência contra a classe trabalhadora e os setores populares. A violência continua, com o resultado de que o primeiro massacre registrado no novo governo AMLO foi precisamente neste estado, do qual o número exato de vítimas ainda não é conhecido.

7. Sua demanda inicial foi de 100% de aumento para todos. Eles então reduziram para 20%, em troca de manter os bônus adicionais que os patrões agora se recusam a pagar. Exigem que as paralisações sejam reconhecidas como legítimas, que os dias de paralisação sejam pagos, que não haja represálias contra os trabalhadores que participam da paralisação, pedem um aumento não inferior a 20% do piso do setor, independentemente do novo salário mínimo de 176,22 pesos (9,27 dólares). Que a quantia de 88,36 pesos (4,65 dólares) seja efetivada como bônus, o que corresponde a um bônus anual de 32.251,40 pesos (1.698,33 dólares).
As greves e mobilizações pressionaram o delegado sindical a gerar uma petição para essas demandas que não haviam sido retomadas pelo sindicato.

8. Além dos delegados sindicais, e tendo em vista a insatisfação que estes geraram entre a base, os trabalhadores votaram seus próprios representantes desde as fábricas para participar da mesa de diálogo - que surgiu devido à extensão da luta dos trabalhadores - e para garantir que a voz da base trabalhadora seja ouvida. Em alguns casos, os trabalhadores votaram diretamente em seus companheiros de turno ou da linha de produção.

9. Em face da intimidação, assédio e pressão dos empregadores e até mesmo das forças armadas - os trabalhadores denunciaram a presença da policiais federal e de militares para intimidar-los - os trabalhadores permanecem firmes em suas posições até que suas exigências sejam atendidas. Eles contam com a solidariedade das famílias e vizinhos da região que apoiaram com alimentos e diferentes sinais de solidariedade para fortalecer a luta. Mesmo esses sinais simples de apoio de motoristas que passam, buzinando e cumprimentando o enorme exemplo dos trabalhadores da maquila.

10. Enquanto isso, o governador Francisco Cabeza de Vaca, do Partido da Ação Nacional (da direita ligada à Igreja Católica), declarou ser "respeitoso com os acordos e propostas que os setores empresariais e sindicais tomam para resolver a revisão salarial dos contratos coletivos ". Seu alinhamento com os empregadores é evidente, beneficiando-se da precarização do trabalho e dos baixos salários que prevalecem no México.

11. Na segunda-feira, 21 de janeiro, os trabalhadores realizaram um dia de mobilização chamado "Dia sem trabalhadores" e marcharam até a praça principal, onde exigiram a presença do prefeito Mario López, do Movimento de Renovação Nacional (partido do presidente López Obrador), a quem eles exigiram resposta às demandas dos trabalhadores. Numa autêntica manobra para lavar as mãos, Mario López respondeu que não tem competência para isso.

12. Menos de dois meses desde o início do governo de López Obrador, esta greve mostra que a classe trabalhadora no México está farta da degradação de suas condições de vida e está disposta a lutar por uma vida melhor, apesar da burocracia sindical, dos partidos do congresso e da militarização. A luta dos trabalhadores das maquilas não requer apenas solidariedade dos dois lados da fronteira, mas pode inspirar a classe trabalhadora mexicana a por de pé e defender suas demandas.

Traduzido de La Izquierda Diario por Alexandre Miguez.




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