Sociedade

MINISTRO DA SAÚDE

Por benefício a planos privados e denúncias de favorecimento, Mandetta não merece confiança

Mandetta, apesar de ser mais sério com a ciência (o mínimo para um Ministro da Saúde), não merece nossa confiança na luta contra o coronavírus. Seu histórico de beneficiamento aos grandes empresários confirma.

sexta-feira 20 de março| Edição do dia

Imagem: Vinícius Loures / Câmara dos Deputados

Diante do desprezo de Bolsonaro à crise do coronavírus, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), vem se destacando e sendo reconhecido pela mídia e setores da população como figura “sensata” e “racional” do governo federal por tratar a crise com mais seriedade. No entanto, no combate efetivo ao vírus, Mandetta merece nossa confiança para superá-lo?

Acreditamos que não, e por motivos que vão além dele ser um mero ministro do governo de Bolsonaro. Antes de ser ministro, Luiz Henrique Mandetta atuou na vida política, tanto como deputado quanto secretário de saúde em Mato Grosso do Sul, como representante dos interesses econômicos das santas casas, das empresas de planos de saúde e das organizações sociais de saúde (OSS). Além de ser formado em ortopedia, Mandetta presidiu a Unimed de Campo Grande, capital de MS, entre 2001 e 2004. Em evento organizado por entidades empresariais associadas à Confederação Nacional da Saúde, agrupando santas casas, planos de saúde, farmacêuticas, etc., o ministro declarou que o SUS “é um sistema que se impõe”, mas que “está olhando o sistema privado com muita atenção”. A atenção para o qual ele se referia é a condição precária de atendimento e estrutura da maioria das redes de saúde privadas, elogiadas por ele como exemplos de “fazer mais com menos”.

Não à toa, apoiou com todo entusiasmo a aprovação da Emenda Constitucional do Teto dos Gastos Públicos e a reforma trabalhista do governo golpista de Temer. O teto dos gastos públicos é reconhecidamente uma medida criminosa de restrição dos investimentos do Estado na saúde pública, agravando muito a sua estrutura já precária e completamente terceirizada.

Apenas com esse pequeno histórico percebe-se que estamos diante de alguém que, visto as suas ligações com empresas que agem pelo desmonte dos serviços públicos (como no caso mais flagrante das OSS em diversos hospitais), não deseja e nem pode fortalecer a saúde pública gratuita e de qualidade, elemento fundamental para vencer essa crise sanitária que tem grande probabilidade de se agravar.

Por outro lado, seus atos e histórico de corrupção também não deixam dúvida de que não podemos confiar nele. Em 2014, quando ocupava o cargo de secretário de saúde da Prefeitura de Campo Grande, respondeu por inquérito de suspeita por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa 2 em que teria sido suspeito de operar um esquema de desvio de verba para empresas de saúde que teriam de instalar equipamentos em diversas redes hospitalares, porém o pagamento foi feito e o sistema nunca instalado. Nesse mesmo ano, quando foi reeleito deputado, Mandetta recebeu da operadora de plano de saúde Amil uma doação de R$ 100 mil.

E se você acha que essas suspeitas apenas recaem em seu passado engana-se, pois há nesse exato momento novas suspeitas de que Mandetta novamente está beneficiando velhos amigos às custas da crise do avanço do coronavírus. Aproveitando a declaração do estado de calamidade, que permite ao governo fazer contratações sem a realização de licitação, o ministro autorizou a compra de aventais hospitalares no valor de R$ 700 mil da empresa Prosanis Indústria e Comércio de Produtos Médicos e Hospitalares, em que a Cirumed Comércio é uma das suas principais sócias. Por sua vez, a Cirumed é uma das maiores doadoras de Mandetta em suas empreitadas políticas, porém também tem em sua marca um histórico de irregularidades apontadas por órgãos de fiscalização, em sua maioria a prática de sobrepreço nas licitações, causando prejuízos financeiros ao Estado de garantir o fortalecimento da saúde pública.

Apesar de ser importantes as pequenas atitudes de precaução individual para que se retarde a transmissão de um vírus ainda muito desconhecido pela ciência, e que são corroboradas pelo ministro da Saúde, por outro lado, Mandetta se constitui como um grande obstáculo na efetividade do combate ao coronavírus. É sabido que as redes do SUS são deficitárias para atender à população, e que o aumento na contratação de pessoal e na compra de insumos também são insuficientes, como temos visto no desespero de funcionários da saúde pública em países europeus com casos mais graves como a Itália e a Espanha.

Diante desse problema se faz urgente, para que se atenda com eficiência toda a população, sobretudo os membros do grupo de risco, que os espaços de saúde privados sejam expropriados imediatamente e sem pagamento. É preciso unir as instituições de saúde privadas ao restante do sistema público para que seja conformado um único plano de saúde, controlado pelos comitês de trabalhadores dos hospitais e de seus usuários, e não por comitês de crise formados por governos que atuaram justamente para a destruição do serviço público. Diante dessa necessidade social, Mandetta se mostra incapaz, pois é impossível a ele ir contra os lucros multimilionários das empresas privadas da saúde, lucros que serão com toda a certeza afetados com medidas de confisco dos materiais e serviços dessas empresas. Portanto, um plano emergencial à altura para a defesa da saúde pública não pode ser realizado por nenhuma empresa capitalista e nem pelos seus governos, que mesmo com a crise da magnitude que passamos, coloca na frente de todos os seus interesses os seus próprios: manter seus bolsos cheios de dinheiro; conservar seu poder de competição com outras empresas e não gastar dinheiro com o povo pobre por atitude deliberada, ao menos que sejam obrigadas a isso pela mobilização dos trabalhadores e da população.




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