Sociedade

POLÍTICAS HIGIENISTAS

Políticas de Dória são higienistas e dificilmente vão mudar vida de pessoa em situação de rua, dizem especialistas

Há cerca de uma semana a gestão de João Dória (PSDB) instalou telas em volta do viaduto da Av. Nove de Junho, no centro de São Paulo. O grupo que dormia nas calçadas da cidade foram levados para lá após a encenação da varredura do Dória trabalhador gari gestor na Praça 14 Bis.

quarta-feira 18 de janeiro de 2017| Edição do dia

A ação é parte do programa almejado por Dória de zeladoria de São Paulo, e chama-se Cidade Linda. De acordo com publicação no portal R7 da internet, os mesmos constatam situação degradante das pessoas que vivem lá.

Especialistas do assunto dizem que as políticas adotadas por Dória, são higienistas e que dificilmente vão mudar a situação de vida dessa população.

A professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Analise G. Estivalet, afirma que as propostas do tucano já foram e são utilizadas em outros governos, e não há nada de inovador, bem como não alterou a realidade dessa população.

— Não vai modificar a situação da população de rua. Qualquer política tem que estabelecer um vínculo entre um profissional do governo e a pessoa que está em situação de rua. Não é o que eu vejo na política do novo prefeito. Quem é da área sabe que não vai mudar.

Pra ela, o nome de zeladoria torna-se preocupante, e aponta a tendência de exclusão de algumas pessoas. Diz ainda que as telas para esconder a população de rua, foram pensadas apenas para quem está do lado de fora.

— A cidade só é linda sem uma população de rua? Me incomoda. Não que a gente não queira que a nossa cidade seja linda, mas para a gente cuidar da cidade a gente precisa cuidar das pessoas, não somente da fachada. Você colocar uma tela fica muito mais aprazível esteticamente, mas é algo que é feito para quem está de fora e que não quer enxergar. Porque a gente sabe que [a população de rua] existe, mas não quer ver.

Analise critica a política do novo prefeito, e diz que as pessoas parecem estar sendo tratadas como meros objetos, sem a possibilidade de atendimento humanizado e ainda menos do atendimento efetivo à suas necessidades.

— É uma política higienista. O que a gente sabe é que não adianta querer fazer uma limpeza, porque são pessoas. Você limpa aquilo que é objeto. É uma política que trata como se fosse uma opção uma pessoa estar na rua. Não é uma opção. Esse é ultimo caminho.

Para o integrante do Concepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Ariel de Castro Alves, a situação da população de rua vem se agravando devido à falta de ações sociais efetivas e articuladas, que envolvem além da assistência social, saúde, trabalho, educação, habitação e o apoio da iniciativa privada.

— As primeiras ações do programa Cidade Linda indicam tendência higienista e de limpeza social. Ocorreram alguns abusos contra moradores de rua nas proximidades da praça 14 Bis e no parque da Mooca. A atual gestão não vai conseguir fazer milagre resolvendo da noite pro dia um problema social gravíssimo e complexo.

O secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Filipe Sabará, tenta rebater as críticas dizendo que a sua vida é baseada em fazer a inclusão social da população de rua. O Fundador da ONG ARCAH (Associação de Resgate à Cidadania por Amor e Humanidade), afirmou ao R7 que o termo higienista não esta em seu dicionário, e que é injusto a gestão ser referido desse modo.

— Estamos melhorando a estrutura dos centros de acolhida. Estamos nos esforçando ao máximo, mas fica difícil se esse pessoal de fora quiser fazer a interlocução falando mais alto do que eles.

Sabará garante que as pessoas que estão debaixo do viaduto foram ouvidas e concordaram em ir para lá, bem como foram avisadas com um mês de antecedência sobre a ação que iria ocorrer, ainda que não tivessem nenhuma alternativa a propor.

Já Arial de Castro, do Condepe, alerta que são necessárias ações específicas para crianças e adolescentes em situação de rua, uma vez que há famílias inteiras que necessitam de auxílio, inclusive com bebês.

— Temos [também] crianças e adolescentes em situação de abandono em todas as praças e faróis do centro expandido. São necessárias ações específicas de abordagem, educação social, acolhimento e enfrentamento do trabalho infantil. Basta uma volta entre a praça da Sé e vale do Anhangabaú pra verificarmos que temos mais de 100 crianças e adolescentes vivendo nas ruas só naquela região.

De acordo com o psicólogo Thiago Calil, as falas utilizadas pelo prefeito, ainda na disputa eleitoral, já demonstravam com tom preconceituoso a questão dos moradores de rua, bem como as problemáticas com os usuários de drogas. O especialista que tem mestrado em saúde pública e faz o trabalho de redução de danos na região da Cracolândia há 12 anos, dentro da ONG É de Lei, afirma a importância de considerar que este problema não é simples o suficiente para ser resolvido de forma imediata.

— É uma questão social que acontece ali por mais de 20 anos, acho bem complicado acabar do dia pra a noite. [A fala de Doria] era quase como uma urgência de dar uma resposta, somado a uma disputa política e que coloca o cuidado com as pessoas em segundo plano.

Para o estudante de jornalismo Vinícius Lima, organizador do SP Invisível, projeto que conta as histórias de moradores de rua, argumenta que as telas instaladas nos viadutos não foram nada convincentes. Para ele, toda a ação foi para deixar “o visual mais bonito para quem passa lá”.

— O próprio nome Cidade Linda diz isso. A cidade é bem mais bonita, mas meio que está botando para debaixo do tapete. Pessoa não é sujeira. Está até meio batido [o termo], mas eu achei higienista.

Segundo Analise, é preciso que se entenda caso a caso de cada uma dessas pessoas que, por motivos diversos, estão em situação de rua.

— Elas vêm de vários locais e em virtude de vários problemas. Existe uma proposta de oferecer um trabalho, mas é difícil oferecer um trabalho para uma pessoa que está com a estrutura de vida comprometida.

Calil concorda e afirma que cada pessoa tem uma história, e é preciso olhar com cautela para os especialistas e entender como poderão atender dos que necessitam de uma diversidade maior de possibilidades.

— Acho que dá mais trabalho olhar caso a caso, mas que é um jeito que vai trazer mais ganhos sólidos para essas pessoas. Quando você impõe uma forma de controle de vida das pessoas, as afasta desse cuidado.

Para ele, uma boa estratégia para resolver a situação das pessoas que vivem na Cacrolândia, seria manter os pilares do programa Braços Abertos, como a moradia e o emprego, de modo a aprimorar algumas outras questões. Calil afirma que é preciso pensar um programa sólido e duradouro, para que uma iniciativa que foi boa e trouxe bons resultados, não se perca ao longo do tempo.

— O Doria tem a ideia das internações e acho que elas são válidas, mas como uma última estratégia. Tenho receio da ideia de muitas internações. Acaba anulando um pouco o sujeito. Elas são importantes em casos extremos, mas não colocaria como uma prática. A internação é uma exceção quando não se tem alternativa.

O idealizador do SP Invisível, Vinicius Lima, também reafirma a necessidade de políticas especificas a cada pessoas, “uma história não tem nada a ver com outra”. O governo, por exemplo, oferece apenas um oficio para as pessoas dessa situação, o que não aproveita o potencial que elas podem oferecer.

— Na rua tem advogado, engenheiro, artista... você não pode falar de uma forma heterogênea.

A Prefeitura de São Paulo pede tempo

O secretário-adjunto afirma que a situação de cada um dos moradores de rua que estão debaixo do viaduto, foi catalogada a fim de fazer atendimento especifico e personalizado, mas que a nova gestão só tem duas semanas de trabalho e que encaminhar cada uma dessas pessoas para a melhor área, levará tempo.

— Seria muito positivo a sociedade deixar a gente ajudar e não tentar atrapalhar. [Queremos] construir em conjunto com a sociedade civil.

A frase contraditória de não querer que especialistas exponham suas opiniões sobre as recentes abordagens, ao tempo que reafirma querer construir em conjunto com a sociedade civil, o melhor modo, só expõem a demagogia dessa gestão que já vem fazendo efetivando de forma imposta, mudanças concretas na vida da população, não só em situação de rua, mas também em outras áreas.

A professora da UFRGS diz que só oferecer uma vaga de emprego para uma pessoa em situação de rua, sem um vínculo estabelecido, fará com que comece a ir aos primeiros dias, mas por volta do décimo, já desistirá. Para ela, é preciso que a estrutura de vida das pessoas sejam mudadas.

— Eu acredito que [a solução] é o fortalecimento da rede de atendimento de saúde. [É preciso] cobrar dessa questão uma manutenção desses espaços e a ampliação. E que os profissionais tenham condição de ajudar a ter uma continuidade. É cobrar essa continuidade é cobrar o reforço e a ampliação desse atendimento.

Só é lamentável que, a vista das propostas para solucionar questões tão agravadas como estas, estejam a caminhar justamente na contramão do que é apontado por especialistas da área. A discussão acerca da população de rua perpassa o problema crônico de habitação da população, que junto à especulação imobiliária, e a falta de emprego, tendem a excluir cada vez mais as pessoas que tem mais necessidades das políticas públicas. Ainda ontem, cerca de 700 famílias foram despejadas sem lugar para morar, na região de São Matheus, na Zona Leste, de São Paulo. A defasagem de 800 profissionais Assistentes Sociais na Prefeitura de SP, também permanece sem mesmo ser citado/informado, essa receita conjunta leva a um caminho bastante incerto para população, na mesma medida em que Dória propõem zeladoria para deixar a cidade mais linda, e esconder ou fechar os olhos, para a população que vive cada vez mais em situações degradantes.




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