Política

ERNESTO ARAÚJO

Política externa de Bolsonaro? Segundo seu chanceler, ajudar Trump a salvar o Ocidente

Ernesto Araújo, novo chefe do Itamaraty, é um político à imagem e semelhança de Bolsonaro: ajoelha como um servo no altar de Trump.

sexta-feira 16 de novembro| Edição do dia

Segundo Maquiavel, a Itália renascentista, assaltada pelos reinos mais diversos, rogava a Deus que enviasse alguém pra redimi-la das crueldades e insolências dos estrangeiros. Temos de reconhecer que Ernesto Araújo, ilustre novo chanceler de Bolsonaro, tem uma ambição maior que o florentino: roga a Deus que salve o Ocidente de toda a insolência do "globalismo".

E este Deus, contrariamente à má sorte de Maquiavel, veio rápido e já existe para Araújo: segundo o chanceler, o "Deus vivo na história" é Donald Trump, que salvará as culturas nacionais ocidentais, inclusive a brasileira e o valor mais cultivado por ela: a submissão servil no altar de Washington.

O ilustre chanceler, entretanto, tem uma relação muito especial com a ignorância: os Estados Unidos é, para Araújo, todo o Ocidente. Mas é sabido que os Estados Unidos foram os maiores beneficiados pela expansão global do neoliberalismo capitalista, superexplorando a força de trabalho mundial que agora incluía a Rússia e a China, especialmente a partir de finais da década de 80 e inícios da década de 90. O próprio Trump precisa reconhecer isso, atendendo os interesses dos monopólios norte-americanos que exploram mão de obra no mundo inteiro, inclusive na China, "inimiga do desenvolvimento ocidental", segundo o ilustre chanceler.

Aqui fizemos um estudo arqueológico das cavidades escuras na mente desse ilustre chanceler, imagem e semelhança de Bolsonaro (e das Cruzadas), e fazendo justiça à definição de Clóvis Rossi, "um Cabo Daciolo com um pouco mais de livros". Nos Cadernos de Política Exterior, Ernesto Araújo escreve que “somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – inclusive e principalmente a nação americana”. E conclui: “Trump pode ainda salvar o Ocidente”. Cada um tem o herói que as condições lhe permitem.

Não se sabe se a sala do novo chefe do Itamaraty ficará em Brasília ou em Washington. Mas o cérebro deste ilustre já foi se instalar na Casa Branca. Segundo Araújo, o “globalismo” tem entre seus projetos “transferir o poder econômico” do Ocidente para a China. A China, com seu capitalismo robustecido pelas amistosas relações comerciais com os EUA nos últimos 30 anos, tem a peculiaridade de ser a principal parceira comercial do Brasil. Isso faz do pobre Araújo um "profeta no deserto", que terá de escrever muitos livros para convencer o presidente da Vale, cuja única preocupação é a melhor taxa de câmbio para seu lucro, de que não vale a pena exportar minérios ao gigante asiático.

As revelações de Araújo levam a um caminho único: a necessidade do Brasil entregar todas as suas riquezas, sua infraestrutura, a Petrobras e a Amazônia, ao Deus salvador do ocidente, Trump. É o "teórico" que Bolsonaro precisava. Já tendo oferecido a base de Alcântara no Maranhão aos Estados Unidos, e seguindo a entrega "express" do pré-Sal às petroleiras norte-americanas, Bolsonaro atende os requisitos do que poderíamos chamar como a filial local do programa "America First" de Trump.

Agora, Bolsonaro tem o seu próprio Steve Bannon local (este, inclusive, que alertou o Brasil de que "deveria estar preocupado e fazer algo a respeito do capitalismo predatório da China"; há que imaginar como Bannon está satisfeito com Araújo, que regurgita as mesmas ideias).

Para os países latinoamericanos, o grande revolucionário Leon Trotsky analisava que o tipo de governo que Bolsonaro representa é "a expressão da dependência mais servil ao imperialismo estrangeiro". E os governos servis precisam de ideólogos à sua imagem e semelhança.

A Operação Lava Jato com a prisão arbitrária de Lula, a pressão por privatizar enormes empresas como a Petrobras e a Eletrobras, o autoritarismo judiciário e a politização das Forças Armadas são expressões dos interesses imperialistas no país. Bolsonaro é o agente que o imperialismo norte-americano apontou para alterar a relação de forças entre as classes, à direita, a fim de aplicar ajustes duríssimos, com mais rapidez do que o PT é capaz de fazer e para os quais nem Temer se mostrou à altura. Araújo seria o "livro das justificativas" desses ataques.

Bolsonaro e Araujo se ajoelham como vassalos fiéis no altar do imperialismo norte-americano; o combate a essa trupe implica, não a adesão aos desmandos do capitalismo de Xi Jinping, mas a batalha para a expulsão do imperialismo do Brasil e de toda a América Latina.

Maquiavel também lembrava que a Itália se encontrava pronta e disposta a seguir uma bandeira redentora, uma vez que houvesse quem a levantasse. A bandeira da sujeição irrestrita a Trump está empunhada pelos cruzados bolsonaristas. Nossa bandeira, pelo contrário, passa pela tarefa estratégica de garantir a unidade da América Latina, sua integração econômica e política, expulsando o imperialismo (algo impensável de ser conquistado pelos acordos do PT com os EUA e o imperialismo europeu). Isso implica a defesa de uma Petrobras 100% estatal sob administração dos trabalhadores, e o não pagamento da fraudulenta dívida pública.

A ruptura integral com o imperialismo só pode ser levado a cabo sob a direção de governos dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo, na perspectiva de uma federação de repúblicas socialistas da América Latina, um verdadeiro ponto de apoio para a luta de toda a classe trabalhadora internacional.




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