Sociedade

CORRUPÇÃO POLICIAL

Policiais mandavam traficantes roubar para pagar a propina

Os policiais do 7º BPM em São Gonçalo, região metropolitana da capital fluminense, estão sendo investigados por um esquema de corrupção estruturado em que liberavam roubos e assaltos e cobravam propinas dos criminosos. A investigação faz parte da Operação Calabar, que expediu mandados de prisão de 96 PMs e 70 traficantes.

segunda-feira 3 de julho| Edição do dia

Foto: Mauro Pimentel / AFP

Um dos traficantes envolvidos no esquema é Schumaker Antonácio do Rosário, apontado como um dos chefes do tráfico no Jardim Catarina. Ele pagava semanalmente R$ 44 mil aos policiais que pediam o "arrego". Em troca, tinha permissão para realizar seus crimes livremente.

Entre os policiais envolvidos no esquema são apontados os dos Destacamentos de Policiamento Ostensivo (DPOs) de Jardim Catarina, Santa Luzia, Grupos de Ações Táticas (GAT’s) que são oito e integrantes do Serviço Reservado (P-2).

O delator do esquema, que era contratado pelos policiais para pegar a propina, afirmou: "Mantinha contato telefônico com Schumaker e o acerto referente ao ‘arrego’ era feito através de ‘soldados’, moradores e viciados. O valor acertado das favelas Pica-Pau e Baixadinha era de aproximadamente R$ 44 mil". Ele também disse, em relação ao 7º BPM, que "não tinha como ninguém dizer que não sabia da propina".

Ainda que a mídia e o comando da polícia façam de tudo para vender isso como uma "exceção" praticada por "maus policiais", o fato é que esse é o procedimento padrão, e o delator revela isso ao afirmar que recebeu uma oferta dos policiais do 12º BPM (Niterói) para realizar o mesmo serviço para eles, mas recusou por "falta de tempo".

O seguinte diálogo telefônico entre um policial e um traficante foi veiculado pela Globo:

Policial: Oi.

Traficante: Fala, que, tipo assim, (inaudível) ligou aqui para pegar o resto do dinheiro, tá ligado?

Policial: Então paga ‘os canas’, filho, tem que pagar, mano. Paga eles. Amanhã o plantão é suave ou é brabeza, mano?

Traficante: Amanhã é suave.

Policial: Parceiro, bota alguém para poder roubar alguma coisa na rua, tá ligado, para cobrir esse quinto real dos P2, parceiro. Solta esses pit bulls tudo pela rua aí, parceiro.

Traficante: "Demorô".

Policial: Entendeu? Solta eles pela rua aí. Se trouxer um Meriva aí tu me fala ou uma Ecosport, parceiro, entendeu? Porque eu vou querer. Um Meriva ou uma Ecosport, eu vou querer, valeu?

Traficante: Já é.

Policial: Só me interessa se for um desses dois.

Traficante: Já é. "Demorô".

Policial: Ou se chegar uma moto XRE aí pode prender ela que eu vou pegar. Porque já venderam duas motos aí e não me deram nada, entendeu?

Traficante: Já é.

Policial: Solta essas p... Esses dias aí para poder fazer alguma arruaça aí. Mas não manda eles "matar" ninguém na rua não, hein?

Traficante: Ah já é, mano.

Policial: Já é.

Outra conversa gravada e divulgada foi a seguinte, em que o policial pede R$ 3 mil para liberar um traficante e afirma que está liberado o roubo de cargas:

Policial: Três caixas. Agora! Manda o Formiguinha trazer. Como ele traz sempre, você sabe que com a gente é pureza, aí vem, vai trazer três caixas e a gente vai liberar os moleques. Se não vier, você fala assim: eu não tenho condição. Você vai falar isso, então, infelizmente, meu irmão, dessa vez, pelos papos "todo" que "foi" dado "torto" pra gente e não "cumpriu", que foram dados pra gente e não cumpriu, de prometer coisa. Pô, até carga a gente tá liberando, mano. p... Pra neguinho tirar a gente como otário?

Traficante: Não, mano. Não estou querendo tirar vocês como "otário" não, mano.

A imensa extensão do esquema, a denúncia do delator de que estaria escalado para um esquema semelhante em Niterói são uma demonstração clara de que a parceria entre os policiais e os traficantes é a regra no jogo da "guerra às drogas", cujas vítimas são os negros, moradores das favelas, que dia a dia são assassinados por esses "dois lados" da guerra que, na verdade, são um só.




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