Cultura

CRIMINALIZAÇÃO DA ARTE

Polícia prende e agride artista no DF por apresentação de nu artístico

O Paranaense Maikon Kempinski foi preso durante uma atuação pelo Palco Giratório, um projeto do SESC de mostra teatral que circula pelo país.

segunda-feira 17 de julho| Edição do dia

No sábado (15), em frente ao Museu Nacional da República, o artista foi detido pela polícia Militar e levado para a 5ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), onde precisou assinar um termo circunstanciado de ato obsceno.

O Espetáculo chamado "DNA de DAN" já foi apresentado em outras cidades como Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande. Segundo curador do evento Leonardo Braga sem problema algum. A peça ocorre com o artista dentro de uma bolha inflável, tem um produto aplicado sobre seu corpo nu que simula uma pele, esse produto vai secando ao longo da apresentação, onde o artista tem que ficar duas horas praticamente imóvel. Quando o produto seca ele faz uma performance reproduzindo os movimentos de uma serpente.

A Polícia Militar alega ter recebido denuncia de pessoas dizendo que "havia um homem nu ao lado do Museu da República", e que ainda foram informados por um popular de que era uma exposição de arte. A ação da polícia trata-se de uma ação repressiva e de criminalização da arte. Confira um vídeo da performance do artísta.

O SESC informou que se pronunciará sobre o caso ainda hoje segunda-feira (17) o que não ocorreu durante esta edição.

Qualquer semelhança a épocas passadas não é mera coincidência, visto que os movimentos sociais estão sendo criminalizados “em nome da moral e dos bons costumes”.

Abaixo segue trechos do relato que Maikon postou em sua rede social, onde começa agradecendo o apoio recebido:

“Eu quero agradecer de verdade a todo apoio que recebi aqui nessa rede social. Nunca esperei por isso. Apoio que veio de artistas, amigos e colegas de profissão. De gente que eu nem conheço. Apoio de pessoas que já viram a performance ’DNA de DAN’ e de pessoas que não viram, mas que acreditam na arte como forma de expandir as visões e atuar no mundo. Porque não se trata de mim apenas ou do meu trabalho, o que aconteceu ontem é um sintoma do grande cadáver que fede há tempos por aqui. E outros artistas já passaram por coisa parecida. Em Curitiba, um dia antes, a Casa Selvática foi invadida por policiais. E talvez coisas assim se repitam, sabe-se lá até quando. Nesse milênio high-tech e tão neomedieval.”

Relata a abordagem truculenta da polícia Militar: “Ontem, dia 15 de julho, eu, junto com Faetusa Tezelli e Victor Sabbag, comecei essa performance em frente ao Museu Nacional, em Brasília. Digo comecei porque ela não chegou ao seu término, pois fui agredido por policiais e detido por ato obsceno.

Estava eu imóvel no centro da bolha, coberto com essa substância (mais um paradoxo, minha pele está sim coberta, mas de transparência), que começava a secar. Quando ouço vozes de um grupo de policiais militares ordenando que a apresentação fosse encerrada, com falas como "isso vai parar de qualquer jeito, caralho", "tira esse cara daí", "que porra é essa". Enquanto isso, Faetusa e Victor tentavam dialogar com eles, mas sem escuta alguma. Eles não queriam saber o porquê daquilo estar acontecendo ali, o que significava, qual o contexto. Tínhamos a permissão e o apoio do Museu Nacional para estar ali, ou seja, um museu ligado ao Ministério da Cultura, e éramos contratados do Sesc. Até esse momento, eu pensava parado "logo o produtor do Sesc vai explicar a eles e esse mal entendido vai acabar.

Se eu me mexesse, como eles mandavam, todo o trabalho de 2 horas que tínhamos feito até ali estaria perdido, pois a substância se desgrudaria de meu corpo e não teríamos como recomeçar o processo. Até aí, eu não me mexi, continuei em "performance", como sempre faço, não reagindo às reações externas. Eu esperava que alguém do Sesc falasse com os policiais, mas justo neste momento o produtor tinha ido resolver um problema técnico e não estava no local para mediar. Foi então que os policiais chutaram e rasgaram nossa instalação de plástico, e tentaram entrar nela para me tirar à força. Um dos policiais entrou levantando a mão na intenção de me dar um soco. É assim que agem 10 homens diante de uma pessoa nua, imóvel dentro de uma bolha, em completo silêncio e desarmada? Neste momento, eu tive que me mover e gritei muito alto que ele não iria encostar em mim, pra ele não me tocar. A performance havia acabado ali.

Eu só saí dali de dentro quando o porta-voz do Sesc chegou ao local. Pois eu fui contratado para estar ali, eu estava realizando o meu trabalho para uma instituição idônea e respeitada em todo o Brasil. Eu vi nos olhos dos policiais que eles sabiam que aquilo não era um ato obsceno, mas eles já tinham feito o estrago, já havia cerca de 10 homens no local, e eles não iriam admitir que não tinham razão, que tinham errado. Eles usavam o código penal pra justificar toda aquela violência. Eles precisavam ir com o joguinho deles até o fim. Foi então que um dos policias, um sargento, me deu uma chave de braço e sem esperar que me trouxessem meus documentos ou sapatos, me carregou para os fundos de um camburão apertado, como um criminoso.

Na delegacia, mandou que eu ficasse em pé olhando para a parede, enquanto registrava o ocorrido. Ainda tive que ouvir as piadas dos funcionários, rindo até do meu nome, da situação e comentando que aquilo não era arte. Resumindo: vou ser intimado a me apresentar diante de um juiz e responder a um processo por ato obsceno.

O produtor do Sesc chegou logo em seguida à delegacia, pois ele também foi autuado, mas apenas a mim foi imputado crime. O Sesc vai me dar total apoio com advogados, assessoria e gastos com manutenção do cenário. “Mas ficou um gosto amargo por ver pessoas tão surdas destruírem meu trabalho e me agredirem em nome de uma suposta moralidade e um código penal obsoleto.”

“Não houve diálogo algum. Eles não iam deixar que um cara magrelo, pelado e gay não os obedecesse em público. Havia 2 motos com sirenes escoltando a viatura que me levava em alta velocidade pelas ruas de Brasília. 10 homens pra me escoltar, eu, tão perigoso. E depois eles estavam todos ali, os policiais, na frente da delegacia, rindo sem fazer nada durante uma hora enquanto eu aguardava em pé virado com a cara pra parede.”

E finaliza:

“É um risco, eu sei, estar na rua. E por isso sempre voltarei a ela. Porque as coisas não acontecem apenas nas quatro paredes, nos aplicativos secretos de sexo, nos grupinhos de WhatsApp, nas alcovas de negociatas, nas reuniões secretas entre políticos indefensáveis, mas também são expostas ali, onde todo mundo passa e ninguém quer ver. E estou apenas imóvel, enquanto outra pele nasce sobre mim, respirando, tentando não sucumbir à gravidade, enquanto policiais gritam e querem me dar um soco. Impotentes no poder. É horrível ver alguém se dar ao luxo de estar ali, despido, como se é de verdade. Realmente, isso deve ferir, instigar o ódio, a raiva daqueles que não podem livrar-se de tanto peso, isso é obsceno demais. E a eles eu digo: esse ódio todo é de vocês. No fundo, eu via um bando de coitados armados, fazendo um teatro escroto que parece agradar a alguns recalcados e guardiões dos cadeados da moral fundada no medo. Era a oportunidade perfeita para exibirem sua truculência com todo o virtuosismo. Mas tem lugar pra todo tipo de arte nesse mundo, até pra aqueles que não têm talento nenhum pra viver. Mas eu continuo em pé, trocando de pele mais uma vez, diante de todos e de tudo.”




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