Cultura

MORRE FERREIRA GULLAR

Poeta Ferreira Gullar morre aos 86 anos

De fundador do neoconcretismo brasileiro a militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e defensor da arte política e popular, a colunista conservador da Folha de S. Paulo, o poeta Ferreira Gullar teve uma vida polêmica e com muitas mudanças. Nesse domingo, 4, ele morreu no Rio de Janeiro, por complicações pulmonares decorrentes de uma pneumonia.

Fernando Pardal

@fepardal

domingo 4 de dezembro de 2016| Edição do dia

Nascido no Maranhão em 1930, chamado José Ribamar Ferreira, o poeta tomou o sobrenome francês de sua mãe (Goulart) e, dando-lhe uma grafia nova, criou seu nome artístico, e assim o explicou: “é um nome inventado, como a vida é inventada eu inventei o meu nome.”

Suas primeiras influências literárias foram poetas brasileiros românticos e parnasianos, como Gonçalves Dias e Olavo Bilac. Essa influência se nota em seu primeiro livro “Um pouco acima do chão”, publicado em 1949 quando o poeta tinha 19 anos. Foi tardiamente que conheceu o modernismo, que, segundo ele, só chegou a São Luis no fim dos anos 1940. Foi um momento decisivo para Gullar: “O modernismo de 1922 só chegou ao Maranhão no fim dos anos 1940. Quando comecei a ler os modernos, minha visão da poesia mudou completamente e senti que não podia mais ficar em São Luís.”

Fixando residência no Rio de Janeiro, o jovem poeta travou conhecimento com a vanguarda artística e crítica da época. Conheceu o crítico Mario Pedrosa, que além de ser um dos mais reconhecidos nomes da crítica artística brasileira foi também pioneiro do trotskismo no país militando na Liga Comunista Internacionalista (LCI). Os nomes da poesia moderna entraram definitivamente no seu universo de leitura e criação, e em 1956 ele fez parte do grupo de desbravadores do concretismo brasilero, com a exposição que marcou o início desse movimento no Brasil. Mas seu pioneirismo artístico se consolidou três anos depois, quando, ao lado de Lygia Clark e Hélio Oiticia fundou o neoconcretismo.

O neoconcretismo procurava revalorizar a subjetividade e a expressão individual do poeta aliando aos recursos estéticos do concretismo, que tinha como foco central a expressão poética explorando recursos estéticos e imagéticos, como os desenhos da palavra no papel e o trabalho plástico de sua sonoridade.

Mas logo Gullar também iria deixar para trás o neoconcretismo, conforme se aprofundou seu comprometimento político e sua militância nas fileiras do PCB, a partir da qual passaria a valrizar o comprometimento social da poesia e a arte com forma de engajamento na luta pela transformação socialista da sociedade. Foi nesse período que participou – ao lado de uma constelação impressionante de nomes que se consagrariam entre os mais importantes artistas brasileiros, tais como Chico de Assis, Cacá Diegues, Oduvaldo Vianna Filho, Leon Hirszman, etc – de um dos movimentos artístico-políticos mais importantes da história do país: o Centro Popular de Cultura da UNE, fundado em 1961.

Surgido a partir da dissidência de Vianinha e Chico de Assis do Teatro de Arena de São Paulo, quando esses procuraram sair do pequeno teatro político na rua Teodoro Baima no centro de São Paulo para tentar fazer um teatro que procurasse se ligar às massas, o CPC logo encontrou na UNE uma infraestrutura para poder criar. Cinema, música, poesia, teatro, excursões pelo país com a UNE Volante fizeram parte da breve e intensa experiência, que foi bruscamente interrompida pelo golpe militar que incendiou a sede da UNE e acabou com a organização estudantil. A produção de Gullar seguiu, mesmo com o CPC em ruínas. É de 1966, por exemplo, sua obra prima teatral “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.”

Pouco depois, o próprio Gullar iria para o exílio, em 1970, e passaria pela Argentina, Chile e União Soviética. Ao retornar a país em 1977, foi preso pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), órgão de repressão da ditadura, e foi preso por 72 horas. Foi libertado graças à intervenção de amigos com as autoridades militares.

Gullar chegou a dizer que, durante seu período em Moscou, havia “bacharelado em subversão”. Mas a verdade é que o comunismo com o qual Ferreira Gullar sempre esteve associado era a linha oficial stalinista, que hegemonizou os partidos comunistas após a morte de Lenin e a cristalização da burocracia soviética que expropriou politicamente os trabalhadores e seus sovietes, e implementou não apenas na Rússia, mas em toda a Internacional Comunista, a linha de submissão burocrática à casta parasitária que se manteve no Kremlin ao custo de muito sangue dos trabalhadores e revolucionários, e dezenas de revoluções afogadas em sangue por sua política traidora ao redor do mundo.

Por isso, não chega a surpreender que apesar de dizer que havia se bacharelado em subversão, a experiência de Gullar com o PCB o tenha levado a uma posterior desilusão com o comunismo, que ele dizia ter fracassado e que não fazia mais sentido. Nas últimas décadas de sua vida, suas posições políticas tornaram-se progressivamente mais reacionárias, como se pode atestar pela leitura de sua coluna no jornal Folha de S. Paulo.

Foi apenas na década de 1990 – não por coincidência, depois de sua guinada ideológica à direita – que o poeta passou a ter sua obra reconhecida pelas instituições literárias: ganhou o Prêmio Jabuti por seu livro “Resmungos” em 2007 (que é uma coletânea de suas crônicas na Folha de S. Paulo) e outro pelo livro “Em Alguma Parte”, de poemas; também recebeu o Prêmio Machado de Assis e o Prêmio Camões em 2010. Em 2002 foi indicado ao Nobel de Literatura, que não chegou a ganhar. Simbolizando sua assimilação completa ao mundo da literatura e da palavra domesticada - ainda que mantivesse uma aparente rebeldia ao criticar (muito pela direita) os governos petistas - Gullar tornou-se um dos "imortais" da insossa e estéril Academia Brasileira de Letras em 2014.

Em que pese essa triste trajetória política, o legado de Gullar como fundador do neoconcretismo, membro do CPC da UNE, poeta e dramaturgo permanece como uma marca fundamental na trajetória da arte e da cultura brasileira. Deixamos aqui um pouco dessa obra para os leitores.

Ferreira Gullar recita “Poema Sujo”:

Não há vagas
(Ferreira Gullar)

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Bibliografia de Ferreira Gullar:

Poesia

Um Pouco Acima do Chão, 1949
A Luta Corporal, 1954
Poemas, 1958
João Boa-Morte, Cabra Marcado para Morrer (cordel), 1962
Quem Matou Aparecida? (cordel), 1962
A Luta Corporal e Novos Poemas, 1966
História de um Valente, (cordel; na clandestinidade, como João Salgueiro), 1966
Por Você por Mim, 1968
Dentro da Noite Veloz, 1975
Poema Sujo, (onde se localiza a letra de Trenzinho do Caipira) 1976
Na Vertigem do Dia, 1980
Crime na Flora ou Ordem e Progresso, 1986
Barulhos, 1987
O Formigueiro, 1991
Muitas Vozes, 1999
Um Gato chamado Gatinho, 2005
Em Alguma Parte Alguma, 2010
Antologias
Antologia Poética, 1977
Toda poesia, 1980
Ferreira Gullar - seleção de Beth Brait, 1981
Os melhores poemas de Ferreira Gullar - seleção de Alfredo Bosi, 1983
Poemas escolhidos, 1989

Contos e crônicas

Gamação, 1996
Cidades inventadas, 1997
Resmungos, 2007

Teatro
Um rubi no umbigo, 1979

Crônicas

A estranha vida banal, 1989
O menino e o arco-íris, 2001

Memórias

Rabo de foguete - Os anos de exílio, 1998

Biografia

Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde, 1996

Literatura infantil

Zoologia bizarra, 2011

Ensaios

Teoria do não-objeto, 1959
Cultura posta em questão, 1965
Vanguarda e subdesenvolvimento, 1969
Augusto do Anjos ou Vida e morte nordestina, 1977
Tentativa de compreensão: arte concreta, arte neoconcreta - Uma contribuição brasileira, 1977
Uma luz no chão, 1978
Sobre arte, 1983
Etapas da arte contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta, 1985
Indagações de hoje, 1989
Argumentação contra a morte da arte, 1993
O Grupo Frente e a reação neoconcreta, 1998
Cultura posta em questão/Vanguarda e subdesenvolvimento, 2002
Rembrandt, 2002
Relâmpagos, 2003

Televisão

Araponga - 1990/1991 (Rede Globo) - colaborador
Dona Flor e Seus Dois Maridos - 1998 (Rede Globo) - colaborador
Irmãos Coragem - 1995 (Rede Globo) - colaborador

Filmes

Os Herdeiros - Davi Martins




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