Gênero e sexualidade

ARTE E POESIA

Poesias TRANS: A arte da resistência II

Virgínia Guitzel

ABC Paulista | @virginiaguitzel

sexta-feira 15 de junho| Edição do dia

I

afeto
transpassa
inerente a nós
ou o corpo
transpassado
que nem fala
mas sente o efeito
sempre diferente
quando a gente
não é o que se espera
e quando a gente já não mais espera
ao menos
conciente

a busca por afeto
atrai ansiedade
a esperança resistente
que aceita tudo
em nome do desejo
de ser desejada
ou mais
da ansiedade em viver
o passado que já foi negado
e a construção da memória
de quem fomos sem podermos ter sido
ou mais

o afeto que sentimentos
não sabemos sentir
que afeta as manhãs
e nos deixam paradas no mesmo dia
por meses enquanto
o café esfriando
meu corpo congela
não quero sonhar mais

que importa o leitor
se sairemos deste minuto,
ou presos ao infinito
onde nem todas as dores importam
pois
só se afeta
aqueles que
entendem que nem sempre afeto
é um bom feito
nem sempre sonho
nos é de direito
ou mais

II

Toc toc toc
- hormônios.
Em alta!
Assumimos o controle
Mas não em qualquer condição
Num corpo que se castiga
Pra fazer-se
Numa sociedade
Que castiga impunemente
á serviço de uma classe determinada
As ideias que me surgem
Transmiti nas veias
ideias dessa ordem
De coisas
Morais

...

Coração disparado
Não, não é romance
Não é moral
São minhas veias
Que transportam
Pílulas capitalistas
Irracional
O homem recusa um beijo
Mas pede pra ser mamado
Expulso ele de casa
Coração acelera
Não estou segura
Mesmo sozinha
Não estou sozinha
Ideologia
Ideias deles
Querem me invadir
Resisto
No corpo
E na mente
Sou parte
De algo muito maior
Ô que há mais de mais elevado
De humanidade
E luta
E o orgulho
Por todas
Nós
Contra
eles

III

e a vida segue
dentro de um corpo proibido
meu desejo é político
impar em plurais
de falta de satisfação
coração delacerado
com ritmo incansável
de ferir-se
com fome
de aqui e agora

e a vida segue?
segue

com dor nos dentes
o frio quieto escondido
guardado no olhar
propositalmente
combinasse a um sorriso
em busca de pré-fabricar-se
combate a maquina
que me vê como lucro
todo o dia

e a vida segue?
segue

hormônios machucam,
o corpo
hormônios liberam
os olhos a ver-se
uma transformação
incompreensivel para muitos

e a vida segue?
segue

cansada,
desmoralizada,
o tempo perfura a história
paralisa a caminhada
os olhos tampam
os sonhos que não estão ao alcance da mão

e a vida segue
ora,
ela seguirá
mesmo sem mim

quando nos rebelamos
questionamos
cada uma
cada uma
das normas
das regras
da moral
que nos aprisiona

quando achamos sentido
em desfazer as pré-ideias
ensinadas nos livros capitalistas
que nos dá vida
pela primeira vez

a vida segue?
segue
bonita,
e com suas necessidades
já não sei ser sem vida
com teu ritmo imparável
enquanto corremos
novo mundo possibilitasse
por assalto,
não seguimos
avançamos

IV

Meu corpo
Eu estou cansada de ser
talvez
Cansada de ser
Objetivo de estudo
meu corpo nu
quer gritar
meu corpo nu
e chorar....e chorar... e chorar

Meu corpo nu
Um arrepio frio
De ser talvez
Objeto diz tudo
Objeto diz tudo
Abjeto diz tudo
Abjeto de estudo
Pra agradar a folha
Mantendo a vida sem cor

Meu corpo nu
vontade de cortar
tudo o que não satisfaz

V

contradição
teu sorriso
ainda provoca
o beijo cheio de contradição
senão pensamos em nada
quando estamos sem roupa
so preenche o vazio
a noite no teu peito
desejo cheio de arrependimento
você nao diz nada
so olha
desvia o olho
e a contradição não é dita
dessa vez, eu nao a digo
incorporo em mim
o vazio
de uma poesia
sem destinatário

VI

Sem importância
Numa data sem importância
Nublados olhos
Carregam um significado maior
Do que o tentar dizer
Década amais
Década a menos
Desencontro do corpo
Por vezes
Encontra o momento em cheio
À vontade,
À intimidade
Está permitido o choro, o riso
E também o erro
Há também o que morra em segredo
Mas do que se pode desvendar
Na realidade que precisa de nós
E nós dela
A verdade
Não precisa ser plausível
O peito
Não precisa ser romantizado
O amor
Não precisa de encontro
Sempre
Mas quando se encontra
Não precisa do futuro
Já o é
Durante

VII
O ciclo que a bixa entende
Logo cedo tem que ser valente
Além da luz que nos repreende
Doi quando não se sabe aplicar
Mas senão perder nenhuma gota
Os seios doem
A bunda cresce
O xuxu uó continua alimentando a discórdia
Do corpo
E da vida
Nasce e morre
A puberdade
Do tesão pela vida
O desprezo absoluto
Por si
Pelo que não pode ser

Negada
Do espelho
Ao desejo
De dar as mãos
Ou ser respeitada

Amostra
Ninguém vê além do estereótipo
Alguém que virou algo
Curiosidade
Vontade
Fetiche

Não se explique
Garota
Você é
Mais do que
Te permitiram
Você
É
O
Impossível

VIII

No enfrentamento constante
Entre o reconhecimento deles
Entre a minha não aceitação
De padrões que querem me aprisionar

Já foi-se
O cabelo longo
O estradiol
O bojo
A make
O medo de ser notada
O medo de não ser notada diferente

Já foi-se
A necessidade (instantânea) deles
A minha de provar algo
Do choro
Do desespero
Da falta de tempo ao tempo

Quero seguir
Cada dia com um cabelo
Um sorriso novo
Um beijo fofo
Outro safado
Por trás da liberdade
De amar-se primeiro
Como travesti
Primeiro a revolução
O ódio
Depois
A poesia
Que nunca nos falte

IX

Ela não atrai. Neguem a ela qualquer afetividade para ver se se mantem. Manteve. Mas se se é ela por dentro e por fora só estranheza, se é ela por dentro, e por fora lhe negam a mão, se é ela por dentro, e por fora duvidas e olhares curiosos. Se é ela por dentro, por fora outros olhares silenciadores. Se é ela por dentro, por fora risos aonde passa. Se é ela por dentro, mas no banheiro lhe estranham. Mas se é ela por dentro, mas por fora o corpo transcionou e parou, retrocedeu, voltou a inicial batalha, agora já ciente que a rua não tem saída e correr não vai derrubar o muro que impede a fuga.

Se por dentro mulher, mas por fora muito mulher para os gays e mulher insuficiente para os heterossexuais. Mas se por dentro ela, por fora "aquilo". Se por dentro ela, mas por fora não dizem. Se por dentro ela, mas no espelho as lagrimas voltam a confirmar sua angustia. Se por dentro sufoca-se, por fora silencio. Se por dentro destrói-se, por fora poesia. Se por dentro aceitou a derrota, por fora foi derrotada. NÃO! Não aceita!

Se é ela por dentro, por fora não existe outra. Se é ela por dentro, por fora combate. Por dentro engole o choro, pra fora grita. Pra fora, histérica. Se por dentro ela não deitou, por fora ninguém a deita. Se por dentro ela nunca quis ser cis, por fora ela escolhera o que poderia ser, e é. Se por dentro ela, por fora dela, não vão defini-la. Se por dentro ela aprendeu a amar-se, por fora também ira aprender. E ensinar, quem ama-la, amara seu corpo, amara-la trans.

X

Entregue a mim

Cansei dessa baixa auto estima
De me ver com os olhos dos outros
Querem nos deixar CISmada
Como se pudéssemos esquecer
Nosso corpo como
Campo de batalha
De quem aceita
um corpo já finalizado
Que venha pronto
Sem intervenção
Sem criatividade exagerada
Esse que veio sem meu esforço
Não me agrada
E Eu me vejo ainda
Tão pré fabricada

Cansei dessa ideia
De me desesperar
Por um amor pouco
De fechar a mão
Esperando manter o sonho
Que vem de fora
Não reflete meu esforço
Daqueles que me desejam
Mas sem pisar no chão
pra não marcar os passos
Quebrados pelo caminho de ovo

Aceito não pertencer a ordem
Custe o que custar
35 anos sem nunca terminar
Deixem meu corpo em guerra
Gritando, berrando, sangrando
Ele é feito disso
Desse ar de resistência
Respiraram minhas companheiras
E assim posso me reconectar
Enchendo o peito
Respirando sem fumaça
A vida de olhos abertos
Quero ser Marsha
Mais uma revolucionária
Mais uma rebelde
Que prefiriu a vida
À se resignar

XI

Na moral

Enquanto eles tentam
Eu sinto
É tanta bala perdida
Que atinge a vida
E eles dizem que seguirá
Com tanta gente faltando
Desfazendo o costume
Pra impor o costume da perda
Gritam que estamos alheios
Mas nossos corpos que estão bem no centro
Mirados pela ganância que não sobrevive
Sem sugarem toda nossa energia
Avançam sob nossos ombros
Mas não param até humilhar
Rebaixaram nossos sonhos
Pra que nossas cabeças não se ergam mais
De vergonha ou culpa
Não querem que olhemos nos olhos
Pra evitar o cuspe, nosso nojo, desprezo
Só o ódio pode ser reciproco

Enquanto eles tentam
Eu sinto
Tudo misturado
Eu sou apenas um retrato social
Em conflito com a ambição refletida
Dos que preferiram os sonhos sociais
À miséria da plenitude individual
Que se cala sobre o futuro
Porque só respeita o passado
Onde somos eternos dominados

Ela tão forte, mas cansada demais pra essa batalha
Tirando descanso de ser revolucionária
Encontrou o mundo consumado
O poder burguês indestrutível
De joelhos, não se prepara o mundo possivel
Mas se resignar é tão falso
Quanto a consciência de liberdade
No trago que camufla a realidade

Carregamos a bala no peito
O grito abafado
A falta de ar dos afogados
O cinza dos olhos
Dos que sobreviveram apenas
E assim nos provamos
Revolucionários que carregam as dores do mundo
As dores do passado sem sucumbir
Embrutecer à recusar o gosto da lágrima
Que humaniza ao escorrer
Reflete a força em manter-se em movimento

De pé, por orgulho
Por teimosia, por valentia insolente
Se querem executar outra
Pra morrer, eu nasci pronta
Que olhem nos meus olhos
Estes que nunca buscou refugio
Nunca se cegou
Mesmo com o ódio que transpirava

Não vamos nos render, tampouco morrer por morrer
Provemos o gosto de desafiar os senhores
Preparemos um plano
É urgente exigir que libertem os nossos sonhos

XII

Apesar da consciência
Da dor de cabeça
A agua está no fogo
O cafe tá amargo,
O açúcar acabou
Assim como choro passou
O fim de semana
De garoa também passou
E agora estamos bem aqui
Esperando domingo
A quarta vez que vou te ver
E sem segurança se ela vira
Trara outra ou outono
Eu já dou meu tempo
A esses pensamentos
Em meio a tanta preocupação
Semana agora acabou a prosa
Nessa a mistura e o feijão
A certeza que vou ter como te encontrar
Pouco ou muito
É como eu conheço o amor
E como eu tento te mostrar

Apesar da consciência
De que sou é alguém como eu
Quase sem passagem
No lugar a coragem
De novamente abrir o peito
E mesmo sob este devaneio
Te deixar entrar
Tragar um chá
Um beijo pra adoçar
Um sorriso pra sublimar
O cinza que a consciência traz
Aqui não me era pra entrar
Ocupar o sentimento com alguem como eu

Apesar da consciência
De que sou em exagero
Me apresento como
Ansiedade e desespero
Gostar de você de um jeito
Um despreparo por inteiro
Pouco tempo
Pouco tempo
Pouco tempo
Que eu sequer tenho




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