Cultura

Poesia contemporânea: a coragem feminista de Sangria, de Luiza Romão

Coluna sobre poesia contemporânea sendo produzida hoje, agora, todos os dias, em cada canto. Hoje: a coragem feminista de Sangria, novo livro de Luiza Romão.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quarta-feira 11 de outubro| Edição do dia

Quando Luiza Romão lançou seu projeto intitulado "Sangria" através de crowdfunding (uma vaquinha online) ela dizia que queria "revisitar a história do Brasil sob a ótica de um útero" através de 28 poemas e 28 fotografias.

"Sangria é o segundo livro da poeta Luiza Romão. Nosso intuito é revisitar a história do Brasil sob a ótica de um útero. O que dizer de um país nominalmente fálico (“pau”-brasil)? Pra isso, misturamos os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção). Representamos o país do futuro” como uma gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”) e contrapomos a figura do patriarca com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais”.

"Além disso, cada poema é acompanhado por uma imagem. O fotógrafo Sérgio Silva criou um ensaio fotográfico com partes do corpo de Luiza (seios, pernas, mãos, punhos, pescoço, boca, olhos, umbigo). Cada uma das 28 fotos foi impressa em tamanho 30x30 e costurada à mão pela artista. Materiais metálicos (correntes, talheres, fechaduras, pregos, espelhos) e barbante vermelho criam uma nova tessitura para as imagens em preto e branco, a fim de expressar o silenciamento e o apagamento histórico do corpo feminino."

O livro conseguiu seu financiamento porque todos querem ler Luiza e o que ela tem a dizer sobre nosso país, o que nos construiu e o que viemos a ser.

O livro foi publicado em edição bilíngue(português e espanhol), pelo Selo do Burro e tem o prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda.

Ao querer contar a história do Brasil sob a ótica de um útero Luiza nos trás a história que foi silenciada, pois toda a história que conhecemos foi contada pelos homens que sempre ocuparam o poder, negando qualquer espaço que tenha tido as mulheres, os negros e a classe trabalhadora.

Sangria não é apenas um livro de poemas. Sangria é um projeto literário sobre a História do Brasil vista pelas entranhas de uma feminista contemporânea.

Digo projeto, porque o grito que Sangria faz ecoar não se realiza apenas nas páginas impressas deste livro escrito por uma atriz-poeta-performer. Qualquer verso aqui revela o desejo de saltar da página, pede som, pede movimento, pede imagem, pede, sobretudo, ação. Assim como a linguagem, a edição do livro também trouxe demandas de expansão. Temos intervenções, costuras, fotos e uma webnovela.

A poesia em diálogo com a performance e o livro em diálogo com outras mídias é um dos aspectos do que observei com o trabalho em Sangria no limite das linguagens e das categorias. Uma poesia que tira sua força estética de cruzamentos possíveis: a passagem destemida do lírico para a oralidade áspera, do cíclico para o mosaico, da palavra para o movimento, da palavra para a imagem. Contemporâneo. Inadiável.

“Enfim, em Sangria, a nova poesia feminista se revela como um de seus melhores momentos.
prefácio: Heloisa Buarque de Holanda

Porque 28 poemas e fotografias? O que são esses 28 dias? São os 28 dias do ciclo menstrual porque a história de um país é metaforicamente a preparação de um útero, que pode no fim de seu ciclo vir a gestar um povo ou abortar essa possibilidade.

Genealogia

Uma árvore genealógica nos aponta todos os nossos antepassados, os genes que nos formaram com as exatas características que carregamos - para o bem e para o mal - e passaremos aos nossos filhos.

Na primeira parte de seu livro Luiza traça a árvore genealógica do Brasil; uma árvore que traz em seus galhos a cultura cristã imposta, a escravidão, um país que foi colonizado através do estupro e assassinato para ser explorado, a cultura dos coronéis, uma sociedade patriarcal desde a origem de seu nome - pau-brasil -, mas onde os registros de nascimento não carregam a filiação paterna.

“olho pra caneta e tenho certeza

não escreverei mais o nome desse país

enquanto estupro for pratica cotidiana

e o modelo de mulher

a mãe gentil

dia 1. Nome completo

Todos esses antepassados nos formaram, é verdade; trazemos eles conosco até hoje, e até hoje temos que combatê-los, romper com eles. Mas não podemos nos esquecer que há também em nossa genealogia levantes negros, revoltas, uma classe trabalhadora insurreta; todos processos que foram abortados com pílulas do dia seguintes, afogados em sangue.

"pra cada gérmen de insurreição

uma pílula

do dia seguinte"

dia 2. Data de nascimento

Em toda essa genealogia a mulher sempre foi um objeto público, pertencente a todos os homens poderosos da nação. As índias, as negras, todas elas podiam ser tocadas por todos, deviam obedecer a todos, atender o desejo de todos menos os delas, ser como todos queriam que elas fossem, mas sob hipótese nenhuma como elas queriam ser.

DIA 5. LOCAL DE NASCIMENTO

(américa)

uma mulher não é um território

mesmo assim

lhe plantam bandeiras

uma mulher não é um souvenir

mesmo assim

lhe colam etiquetas

mais que nuvem

menos que pedra

uma mulher não é uma estrada

não lhe penetre as cavidades

com a fúria

de um minerador hispânico

o ouro que lhe brota da tez

é antes oferenda

que moeda

uma mulher descende do sol

ainda que

forçado à sombra

Descobrimento

Existe um corpo feminino com o qual convivemos nossa vida inteira, um corpo físico, social e político. Um corpo que descobrimos em nossa menstruação como um corpo feito pra gerar vida. Um corpo que descobrimos desejante através da maturbação - um desejo que ensinam como pecado, como culpa -, mas um corpo que não serve pra ser desejado se não obedecer a um padrão pré estabelecido pela sociedade patriarcal; e que mesmo não servindo para ser desejado é assediado cotidianamente, violado e estuprado.

Esse descobrimento através dos versos de Luiza é acompanhado das fotos de Sérgio Silva costuradas por linhas vermelhas de partes do corpo, partes erogenas sem a necessidade da hiperssexualizaçao como buceta, seio, bunda, barriga, orelha...

DIA 11. 1ª CULPA

quarenta de cintura

trinta de quadril

quantos suicídios

cabem numa fita métrica?

Tensão pré-menstrual

É o momento de nos chamarem loucas, mas não é isso que Luiza nos colocará aqui. Essa tensão que antecede algo que está por vir é também um desejo de que venha; é a vontade pelo grito engasgado representado nos versos de Luiza e nas fotos de Sérgio Silva - que compõem mais uma vez essa obra - em que a boca da poeta apesar dos movimentos pela voz aparece tampada por linhas vermelhas e metais.

Corte

Esse grito sufocado uma hora sai da garganta como grito ou silêncio. Em 2013 ele saiu como grito, mas sem direção ele permaneceu apenas como um grito, apesar (e aqui coloco minha opinião) de essa etapa não ter se encerrado.

De 2013 para cá a burguesia nacional se reorganizou, decidiu mudar sua liderança para aplicar de maneira mais efetiva e dura todos os ataques necessário a classe trabalhadora para a manutenção do sistema capitalista. Sofremos um golpe; sofremos mais uma vez um corte.

“mesmo com golpe

vai ter luta

pílula 2 (dia 13 de março de 2015)

Não sofremos esse golpe de maneira passiva, fomos às ruas, à Brasília, fizemos greves gera - que, infelizmente, foram traídas pelas burocracias sindicais (mais uma vez é a minha opinião pessoal).

Esse golpe não aconteceu pelo fim da corrupção, pela família dos que votaram pelo impeachment, pela moral... esse corte aconteceu porque era preciso estancar a crise econômica fazendo com que nós trabalhadores pagássemos por uma crise que não é nossa.

PILULA 3 (dia 18 de abril de 2016)

"No dia seguinte à aprovação do

impeachment, Dilma se diz injustiçada"

(Jornal nacional)

"Temporada de 2016 da Formula1 está com

número altíssimo de ultrapassagem"

(Jornal nacional)

não pelos filhos de registro sem pai

nem pelos ais das filhas sem paz

nem pelas pás

que cedo enterraram

crianças sem-terra

vítimas de guerra

mas pela minha família

modelo triunfante

pai, mãe, filhos (e amante)

não pelo avante

das sociais melhorias

do voto da maioria

mas pelo meu eleitorado

pelas empreiteiras financiado

que transforma o público

em interesse privado

não por eldorado

pelo massacre dos ribeirinhos

por canudos ou carajás

pelo fim da violência

(sai polícia militar)

mas por deus

o branco de longas barbas

que investe dinheiro e usa farda

pela minha esposa caviar

bela, recatada e dólar

não pelo fim da miséria

qualquer proposta séria

pela série de chacinas e repressão

pelos indígenas

vidas mais dignas

não

pelas minhas insígnias

pelo meu povo

como se fossem Reis

armados de corvo

(mas não engrossamos esse molho

resistência sem medo

somos a história à contrapelo)

Ovulação

Um processo necessário para que a menstruação aconteça ou para que a gestação se inicie. Num jogo de palavras Luiza parece querer nos dizer como a esquerda foi cooptada: para onde foi a oposição quando se fazia necessária?

Menstruação

A menstruação vem, ela significa o fim e o início de um novo ciclo; esse novo ciclo é a revolução que Luiza nos mostra como iminente - não porque estamos as portas da revolução, mas porque um sistema tão injusto não pode continuar em pé.

DIA 27. SANGRIA

ventosas na coluna vertebral

para hipócrates

tudo era uma questão de humor

o fígado vertendo bile

aquilo que foi soco

que foi baixa-a-cabeça

tanque-louça-colchão

não

não quero "limpar as veias"

vá embora com seu bisturi

luvas brancas cortando o mapa

joão batista de lacerda

construindo a europa aqui

café ouro borracha

ciclos dentro e fora de mim

sanguessugas de cartola inglesa

mamando-me até o fim

sou a terra que absorve a deus

a barragem preste a eclodir

SEI SANGRAR POR MIM MESMA

meu útero é uma bomba

e não precisa de fósforo

para explodir

"Sangria" retoma nossa história, coloca as mulheres como sujeitas da linha de frente, nos bota o desejo de mudança, nos chama para a revolução.

“"se caiu palmares caiu bizancio

caiu a bastilha

porque não cairia eu

se caiu as torres gêmeas

a ditadura, o muro de Berlim

porque não haveria de cair

esse maldito sistema"

dia 28. Lutea

Sangria é um livro militante que apresenta posições políticas que podem inclusive gerar desacordos com seus leitores - eu, por exemplo, nunca sairia em defesa de Dilma, referida como "presidenta" em um dos poemas, pois ela e o PT abriram espaço para a direita através de várias concessões visando a conciliação de classe. Luiza expõe a história, expõe sua visão da história como mulher e chama o leitor a partilhar e construir sua própria visão. É por isso que "Sangria" é um livro corajoso, um livro que rompe o espaço da literatura indo além através de suas fotografias, seus vídeos. "Sangria" é como Luiza Romão: uma poeta corajosa, que ousa ir além.

Luiza lança sua "Sangria" hoje, 11 de outubro, as 19h no Sesc Pinheiros com show da poeta, Alice Ruiz e Luz Ribeiro.




Tópicos relacionados

Poesia   /    Cultura

Comentários

Comentar