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Poesia contemporânea: Valeska Torres, “uma espingarda com cano ainda quente”

A coluna sobre poesia contemporânea hoje falará sobre o livro O coice da égua, de Valeska Torres.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quinta-feira 4 de julho| Edição do dia

É mágico quando guardamos na memória o momento exato que entramos em contato com uma poeta; Valeska Torres conseguiu realizar essa magia em mim. Li o seu poema Carne moída em algum blog em 2017 e me encantei; guardei esse poema em um dos meus cadernos, gravei vídeo o recitando..., tudo para tentar apreender um pouco de sua potência.

A escrita de Valeska Torres é potente, isso é evidente desde os primeiros versos; a escrita de Valeska também é política, e isso também é evidente. Mas em nada é uma poesia política panfletária, a poesia aqui é política nas suas imagens, na sua sensibilidade, no lugar que o eu-lírico se coloca como sujeito político.

Os versos de Éle Semog que anteveem a obra já declara que estamos diante de um livro da classe trabalhadora, um livro que não vai à missa porque está na fábrica.

“Não posso rezar todos os dias
a igreja abre às sete e a fábrica às seis.
Então, senhor, perdoai-me”

O coice da égua é um livro nascido no nosso tempo, após o golpe de 2016, em meio às eleições manipularas de 2018, e o avanço da extrema direita. Mas não é um livro pessimista, mesmo diante disso tudo, é um livro que agradece “ao ódio/ catapulta dos dias que estão”.

Quando digo que este livro bem em meio ao avanço da extrema direita não estou forçando uma interpretação, mas parto dos versos da poeta que trás imagens como “suásticas estampadas nos peitos”, um eu lírico que é sujeito coletivo - “Batíamos continência” - e que declara a justiça burguesa como:

“A justiça sob os olhos deles,
seguros de que a vida,
agora extinta,
lambia a lâmina do coronel”

É importante também ressaltar que O coice da égua, assim como Valeska, são cariocas, se forjam na cidade onde a violência estatal contra o povo preto é escancarada, onde o golpe deixou sua ferida aberta sangrando com o assassinato de Marielle.

Porém, ainda assim, não é preciso conhecer os bairros e ruas do Rio de Janeiro para sentir a atmosfera dos poemas dessa obra; isso porque Valeska constrói imagens de uma maneira fascinante; imagens como um soldado posando uma oferenda para um orixá quando entra na favela pra matar preto pobre no verso “o senhor tranca rua olha de soslaio os galos pretos pisados pelo/ coturno do soldado”. Ou, então, a cova de alguma favela onde desovam corpos negros que se confundem com a imagem de um buraco negro.

O coice da égua não vai na missa apenas porque tem que ir a fábrica, esse livro não fala com deus porque:

“deus não anda entre os meus
sobrevoa em helicópteros
arranha-céus
onde dorme em colchão de penas”

A poesia aqui surge da feira livre, do açougue, dos viadutos, ruas, do pedinte que tem fome, do Ceasa, do pombo morto na dom hélder câmara, das enchentes cotidianas - mas que são melhores do que a falta de água...

Valeska escreve como e sobre o corpo negro que se confunde com carne, que são corpos assassinados como vagabundos, olhados com escárnio, que carrega “a dor de uma vingança que/ nunca mais será”, que morrem “ao troco do capital”. Escreve do lugar de uma mulher negra com chapinha no cabelo, talco disfarçando o cheiro de formol, de mulher que não pode malcheirar.

De certa forma eu já esperava essa potência de Valeska, mas os poemas, que podemos chamar de “românticos”- talvez -, me pegaram desprevenida e me fascinaram porque a poeta fala de sexo e de amor como fala da guerra, como se fosse mesmo uma guerra.

O eu lírico fala da dificuldade do gozo, da vontade de reter para si as “transas de compridas horas”, a ferida de ver o outro indo, e o que sobra depois... Um amor e um tesao difícil que não se encontra apartado do resto da obra, pois é a dor que o capital impõe que lemos nos outros poemas que torna esse amor e esse tesão tão difíceis.

Depois de fazer amor Valeska Torres mata porcos fascistas sempre que pode:

“meto bala na cara do canalha
faço jus ao meu salário.”

Abaixo quatro poemas de O coice da égua:

1. DOIS FILHOS BANTOS

Miro o arco e a flecha
cai
sobre o peito daquilo que já foi um índio
que agora segura o fuzil
aponta a bala daquilo que já foi um escravo,
a preta aponta um facão daquilo que já foi um branco,
de tudo aquilo que já foram restaram a dor de uma vingança que
nunca mais será.

Do nunca resta o que já foi um dia,
nós antes de nós selvagens naquilo que já foi dito nada.
E da vida que surgiu naquele dia,
nenhuma morte há de nos salvar.
E da morte que surgiu naquele dia,
nenhuma vida há de vingar.

O ronco da moto atravessa varado feito bicho do mato
ferido.
Acuada, fecho o cenho e
o punho firme,
vou de encontro ao corpo que me aponta o calibre.

Dois filhos bantos,
da mesma raça
celebrando o ódio
lascando a pedra já lascada.

Dois filhos bantos,
de ventre preta que se esfolam
pela mixaria.
E rindo,
caminha entre eles um velho inimigo.

Carrega um charuto envolto num chicote,

batendo as botas

são olhos de maçarico.

Sai de dentro da mata atlântica,
junto a ele uma virgem.
Pele dela é feito a minha,
ele ralha
cabocla cala a boca e se veste boazinha.

Capataz,
saltita em passos largos,
encarando a ferida.
Não entende o banco
dentro dos olhos
das vítimas.

Entre o corpo calibre e o punho firme
não se intromete
pelo o que está feito daquilo que lhe foi
incumbido.

São dois filhos bantos,
que cantaram sob o sol ao som do berimbau,
se matam hoje em Manguinhos,
ao troço do capital.

2. INHACA

“Nada ocupa mais espaço que o amor”
CAROLINA TURBOLI

pescoço virado
de galo decepado em encruzilhada
um homem os olhos arregalados
pra minha bunda
grita

carne avulsa
açougue vendida em miolos
paleta acém peito fraldinha e músculo
vendida na feira livre
embolodasvozesnoengarrafamento

chorosa mijo na cama
estragado uma maçã podre
quando você se desfaz de mim como de seus lixos
quando você larga um tiro em mim quando ama outras mulheres me
diz não me ama como amava antes de outras mulheres
quando você trela em mim me olha os olhos vazio como sacola
voando por entre os fios de um poste
quando você some do whatsapp, do Facebook, do Instagram e nunca
me diz o porquê das coisas se realmente há alguma coisa que ainda
resta em você.

além do homem branco barbudo sem míngua nem casa musculoso
com o pau duro dizendo quanto excito com o meu abraço que pra
mim é só um abraço quem sabe ali poderíamos selar nossas almas
quando você nada mais nada mesmo que um homem me diz que
precisa ficar sozinho longe de mim eu falo demais eu amo demais
grito cuido demais
ser de menos já é demais
quando você é um homem nada menos que um homem e quis o meu
corpo eu queria sua alma contou essas coisas obscenas para os seus
amigos sobre como é transa comigo dar um 👍 nas fotos de biquíni

nas estantes da sala bukowski fala de putas
que poderiam ter sido eu e minhas irmãs
escritas na memória de um velho
que batia punheta vendo meninas 16 anos
com roupas de escola

o amor
está entranhado feito inhaca no sofá da minha casa
por homens que cresceram sobre minha sombra
esgueirando-se querendo ser grandes em cima de mim
aqui dentro de mim
até eu mesma
não ser

3.NÓS DOIS CANTANDO SIDNEY MAGAL NA FEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO

Para Fernando
estação da Penha
desemboco perdida na linha de fuga, percebo

- como se percebem os furos de tatuí na areia de Grumari -

o grão de purpurina no fim do carnaval
São quatro por dois isso que inflama meu peito
não chupo a espinha do peixe,
não como mocotó

sonho em me bronzear sob o sol de ramos
me banhar no piscinão
ao seu lado
com as mãos entrelaçadas nas suas
bebendo itaipava

sou mulher de gostos caros, digo a você enquanto
rasga meu sutiã
gasto
por amaciantes

picho na murada do prédio
seu nome <3 meu
para que você saiba o quão merda eu sou
quando apaixonada

meus pais me apontam dedos disseram para não me perder demais
¡perigo águas profundas, correntezas e redemoinho!
é tarde,
depois de meia-noite
nosso horário são verões
é tarde

estou fudida
porque a foda tem o gosto do meu homem
e disso os meus lábios não cansam

4.TRÊS POEMAS PRA MATAR PORCOS FASCISTAS

PARTE I - FOGO

carrego comigo rolos de papel higiênico, fósforos
que acendo
mato porcos fascistas
taco-lhes fogo sempre que posso
reviro o(s)lhos
lambo os beiços quando incinero os malditos
o bacon não como
distribuo entre entes queridos
são muitos
os porcos os porcos
malditos
à caça
com um martelo
atiro na mira
cuspo sobre a cadeira elétrica
incinero os porcos de merda
estapeio o que for mole
e sugo sugo sugo sangue do cretino
abato
URRAM
ESMURRAM
URRAM
quero meter a grito
com murro
goela adentro esses porcos fascistas
a papa debaixo da língua dente a dente vingo
minha pátria querida
lalalalalalala lalalalalalala lalalalalalala lalalalalalala lalalalalalala lalalalalalala lalalalalalala




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