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Poesia contemporânea: Lubi Prates e a dura tarefa de Um Corpo Negro

A coluna de poesia contemporânea volta para falar do corpo-poesia-obra negro de Lubi Prates lançado no último ano.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

terça-feira 26 de fevereiro| Edição do dia

fotografia de Mayara Barbosa

O que é um corpo negro? Devorei o livro de estreia de Lubi Prates como quem teme e anseia. Ao terminar eu sabia que queria escrever sobre, mas sabia também que tinha medo de tatear essa obra. Guardei, voltei a ele, li e reli. Decidi deixar de lado na esperança que o temor se dissipasse e chego até aqui despreparada, apenas com a vontade.

Escrever este texto é para mim, uma felicidade em vários aspectos; pela força do seu texto, pelo denso corpo que o livro compõe, pelas soluções e provocações estéticas e temáticas nas quais a autora investiu. Mas não se iludam: é uma felicidade de pessoas negras, portanto, ela vem alquebrada, banzeira, atravessada pela dor que organiza nossas subjetividades; é uma felicidade guerreira.
- Livia Natalia, no prefácio do livro -

Um corpo negro colocou pra mim uma questão que já carrego há muito tempo comigo: Como se construir negro no próprio corpo com tanta história apagada, com tanta tentativa de embranquecimento, com tanto medo de ser negro (mesmo que já saibamos que somos negros desde sempre)?

Os poemas não nos darão essa resposta, mas compartilharão uma caminhada, como já aponta Lubi na apresentação de seu livro intitulado “tornar-se negro/negra, um processo” - e não se sentir só é importante nessa jornada.

“hoje, estamos em 2017. conforme se aproximava a data de lançamento deste livro, mais crescia em mim a percepção de que este livro não terminaria. ele era o resultado de um processo que precisaria ser interrompido para acontecer. isso porque é assim que eu enxergo o processor de tornar-se negro/negra: sem antes, sem depois. acontece no aqui, no agora, moldado pela sociedade, mesmo quando resisto e vou contra ela.” - Lubi Prates

Há outras perguntas e o livro também será uma tentativa de responder o que é esse corpo negro formado por violências, por um passando além Atlântico, por um passado jogado no mar, um corpo que tem que ser em si um território já que foi (fomos) arrancado de seu território.

A poesia de Lubi Prates me remete desde que tive contato com ela a musica (também poesia) de Luedji Luna; duas mulheres negras que trazem em sua mala tudo o que é ser negro, uma mala de mão que pesa tanto, uma mala que precisa ser carregada porque não há lar pra se deixar tudo o que vem dentro dela, uma mala que precisa ser carregada porque somos sempre imigrantes.

É sintomático que tradicionalmente em sociedade só nos referimos a nós usando a palavra corpo quando não há mais vida; tudo parte de uma lógica de negar o próprio corpo, de negar que esse corpo é nosso, que temos direito a ele, que podemos amá-lo como ele é. Antes de começar o livro Lubi nos traz um poema de Alzira Rufino que diz em um dos versos: “este corpo carrega a realidade”. Aqui o corpo não é apenas o corpo - o que já é muito - é também o poema em si, o poema como corpo. E quando se trata de um corpo negro é ainda mais belo nos referirmos a ele como “um corpo negro”, um corpo belo por ser um corpo nosso sobre o qual devemos ter o direito desde a auto declaração até a que seja um corpo que ama e é amado. Tenho diferenças políticas com setores do movimento negro que declaram que negros devem apenas se relacionar com negros - mas não é nessa questão que entraremos; o fato é que um corpo negro que ama um corpo negro ama a si mesmo, se reconhece capaz de tudo, de toda a luta necessária, de toda sua potência. Acho que esse é o grande presente dessa obra trazer esse corpo negro pro centro da poesia como tema e também como o sujeito, a poeta, capaz de produzir tamanho feito.

O livro traz as dores, o “desamparo”, os “escombros”; mas ele também traz uma força de quem diz “não tenham pena de mim” e o leitor que sentir pena do que se passa nesse corpo negro se sentirá envergonhado e culpado. Apesar de trazer essa dor a poesia de Lubi não é dramática ou trágica, é cotidiana - sobre o racismo cotidiano -, é pessoal, fala pouco pra falar muito, fala do micro pra falar do macro.

Lubi Prates nasceu em 1986, em São Paulo, é poeta, editora e tradutora, se planta como uma poeta negra pronta pra colocar “um corpo negro” no centro da roda sem pedir licença. Abaixo reproduzimos três dos poemas e uma leitura minha da poesia de Lubi (além dessa que acabo de fazer), essa grande poeta que deve ser lida e investigada.

1.

para este país

para este país
eu traria

os documentos que me tornam gente
os documentos que comprovam: eu existo
parece bobagem, mas aqui
eu ainda não tenho esta certeza: existo.

para este país
eu traria

meu diploma os livros que eu li
minha caixa de fotografias
meus aparelhos eletrônicos
minhas melhores calcinhas

para este país
eu traria
meu corpo

para este país
eu traria todas essas coisas
& mais, mas

não me permitiram malas

: o espaço era pequeno demais
aquele navio poderia afundar
aquele avião poderia partir-se

com o peso que tem uma vida.

para este país
eu trouxe

a cor da minha pele
meu cabelo crespo
meu idioma materno
minhas comidas preferidas
na memória da minha língua

para este país
eu trouxe

meus orixás
sobre a minha cabeça
toda minha árvore genealógica
antepassados, as raízes

para este país
eu trouxe todas essas coisas
& mais

: ninguém notou,
mas minha bagagem pesa tanto.

Ele não me viu com a roupa da escola, mãe?

Marcos Vinicius da Silva, 14 anos,
assassinado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro

e ainda que
eu trouxesse

para este país

meus documentos
meu diploma
todos os livros que li
meus aparelhos eletrônicos ou
minhas melhores calcinhas

só veriam
meu corpo

um corpo
negro.

2.

tudo aqui é um exílio

apesar do sol
das palmeiras
dos sabiás,

tudo aqui é
um exílio.

tudo aqui é
um exílio,

apesar dos rostos
quase todos negros
dos corpos
quase todos negros
semelhantes ao meu.

tudo aqui é
um exílio,

embora eu confunda
a partida e a chegada,

embora chegar
apague
as ondas que o navio
forçou no mar

embora chegar
não impeça
que meus olhos
sejam África,

tudo aqui é
um exílio.

3.

quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela não ultrapassa
as páginas do dicionário e
do livro de História?

quem tem medo da palavra
NEGRO
quando ela está estática ou
cercada por outras palavras
nas páginas policiais?

quem tem medo da palavra
NEGRO
se transforma em:
moreno mulato
qualquer coisa bem perto de
qualquer coisa quase
branco?

quem tem medo da palavra
NEGRO
se quando eu digo
faz silêncio?

quem tem medo da palavra
NEGRO
que eu não digo?

quem
tem
medo
da
palavra
NEGRO

quando ela não faz pessoa:
carne osso e fúria?




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